A derrota em toda a linha do Partido Trabalhista nas eleições de quinta-feira, onde perdeu 1500 lugares nas eleições locais em Inglaterra, assim como o controlo da assembleia galesa - e em consequência do governo - e não conseguiu inverter o declínio no parlamento escocês, levou à já esperada fase do afiar de facas. O homem a abater, líder do partido e do governo britânico, recusa sair pelo próprio pé. Uma deputada fez um ultimato aos membros do gabinete: ou decidiam no próprio domingo a destituição de Keir Starmer, ou avança para um desafio à chefia do Labour. A iniciativa pode precipitar um movimento de rejeição ao líder e até a que candidaturas de peso avancem. Em entrevista ao The Observer, no sábado, Starmer tentou segurar as rédeas do partido ao reconhecer que o resultado eleitoral tinha sido “muito duro” e que o executivo tinha de “refletir e responder” em conformidade. Deixou de fora qualquer hipótese de se demitir, ao afirmar que vai continuar a dirigir o seu partido até às próximas eleições gerais e recandidatar-se, tendo classificado o seu governo como um “projeto de renovação de dez anos”. Reconheceu que a comunicação com o país não terá sido a melhor, motivo pelo qual os partidos Reform de Nigel Farage, Verdes de Zack Polanski, ou até o Liberal Democrata de Ed Davey conheceram ganhos eleitorais. Porém, recusa a ideia de que os britânicos queiram no n.º 10 de Downing Street um populista, seja à direita, como Farage, seja à esquerda, como Polanski. “Penso que a maioria do público em geral quer, na verdade, saber que nós, o governo, temos respostas progressistas aos desafios que enfrentam no seu dia a dia, e precisamos de explicitar , em termos claros e com convicção, que realmente temos essas respostas progressistas.”.P&R - Irá Keir Starmer conseguir resistir ao desaire eleitoral dos trabalhistas?.O primeiro-ministro aposta as fichas todas em duas comunicações: a primeira, e mais importante, no discurso a proferir na manhã desta segunda-feira, a ser transmitido na televisão; a segunda, na quarta-feira, no discurso do rei — que, na realidade, é escrito pelo governo para delinear as suas políticas e legislação a propor na nova sessão parlamentar. Na entrevista ao The Observer, Starmer já revelou que entre as propostas a elencar, vai apostar numa relação mais próxima com a União Europeia, tendo sugerido um esquema em que os jovens até aos 30 anos possam ter liberdade de movimento na UE durante dois a três anos.Enquanto 42 deputados trabalhistas apelaram para a demissão de Starmer, um desses representantes, Catherine West, fez um apelo para os governantes escolherem um novo chefe. Caso contrário, e se o discurso de Starmer não a convencer, irá avançar para um desafio à liderança. Os prováveis candidatos à sucessão reagiram de forma diferente: Wes Streeting, ministro da Saúde, terá dito a Starmer que está a preparar-se para concorrer caso tudo se precipite, segundo noticiou o Telegraph. Já a ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner fez uma comunicação muito crítica com o rumo do governo, mas apelou para a mudança de políticas e para a unidade. “O escândalo de Peter Mandelson revelou uma cultura tóxica de favoritismo”, disse sobre a forma como Starmer lidou com o diplomata que foi próximo de Jeffrey Epstein. “Decisões como cortar a subvenção de combustível de inverno simplesmente não eram o que as pessoas esperavam de um governo trabalhista”, prosseguiu Rayner, que ainda se mostrou contra o facto de Starmer ter impedido que Andy Burnham, mayor da Grande Manchester, tivesse concorrido a uma eleição intercalar para deputado. “O primeiro-ministro deve agora estar à altura do momento e delinear a mudança que o nosso país necessita. Mudar a nossa agenda económica para dar prioridade a melhorar a vida das pessoas, mudar a forma como gerimos o nosso partido para que todas as vozes sejam ouvidas e mudar a forma como fazemos política”, concluiu Rayner, que se viu obrigada a demitir no ano passado por suspeitas de não ter cumprido as obrigações fiscais na aquisição de um apartamento..Starmer recusa demissão após resultados “difíceis” nas eleições autárquicas.Da vitória "histórica" de Farage à derrota "difícil" de Starmer: vencedores e vencidos nas eleições britânicas