Depois de fazer a sua estreia num visita ao estrangeiro - em outubro de 2025, quando acompanhou o pai numa viagem até à China, onde este assistiu à parada militar com que Pequim assinalou os 80 anos do fim da II Guerra Mundial -, Kim Ju-ae começou 2026 com o que parece ser a confirmação do seu estatuto de herdeira de Kim Jong-un. A adolescente, que se estima ter entre 13 e 15 anos, surgiu ao lado do líder norte-coreano em fotos oficiais divulgadas pela agência de notícias estatal KCNA a 1 e 2 de janeiro. Primeiro na celebração do Ano Novo e depois numa visita ao Palácio do Sol de Kumsusan, onde se encontra embalsamado o corpo de Kim Il-sung, o avô do atual líder e fundador da dinastia que governa a Coreia do Norte desde 1948. E aumentam mesmo as especulações de que Ju-ae possa ser nomeada para um cargo no Partido dos Trabalhadores da Coreia que deverá ocorrer ainda este mês. Apesar de esta não ter sido a primeira vez que Ju-ae participou nas celebrações do Ano Novo, foi a sua primeira visita oficial ao Palácio do Sol de Kumsusan. Uma tradição que o seu pai tem repetido quase todos os anos a 1 de janeiro, num ritual que sublinha a continuidade da liderança norte-coreana. Desta vez, apesar de o seu nome não ser mencionado pela KCNA, Ju-ae surge em várias fotografias bem no centro do enquadramento, ladeada pelo pai e pela mãe, Ri Sol-ju.Esta nova exposição pública da adolescente não será um acaso. Segundo Cheong Seong-chang, vice-presidente do think tank Instituto Sejong, poderá mesmo ser uma jogada de Kim em antecipação do 9.º Congresso do Partido dos Trabalhadores, que deverá definir novas prioridades estatais e reorganizar a liderança.O mesmo especialista, citado pela Reuters, admite a hipótese de Kim, que andará pelos 41 anos, nomear a filha como primeira secretária no congresso quinquenal, o que a catapultaria para a segunda posição na hierarquia do partido. Outros analistas estimam, no entanto, que Ju-ae é demasiado jovem para assumir um cargo tão importante. Afinal, de acordo com os estatutos do partido, 18 anos é a idade mínima para se tornar militante. Mas não descartam que a adolescente possa vir, apesar de tudo, a assumir algum tipo de cargo oficial durante o congresso.Estreia com mísseis A primeira aparição pública de Kim Ju-ae data apenas de 2022. O mundo ficou a conhecê-la quando surgiu com o pai num lançamento de mísseis balísticos intercontinentais. Mas desde então, tornou-se presença habitual ao lado do líder norte-coreano.A existência de Kim Ju-ae foi primeiro revelada pela antiga estrela da NBA Dennis Rodman em 2013. Depois de uma visita a Pyongyang, o jogador norte-americano de basquetebol, que desenvolveu uma inesperada amizade com Kim Jong-un, contou ao diário The Guardian ter tido a bebé nos braços e revelou o seu nome. “Segurei a sua filha Ju-ae e conversei com a sra. Ri [Sol-Ju, mulher de Kim] também. Ele é um bom pai e tem uma família linda”, disse Rodman.Passados 13 anos, a verdade é que pouco mais se sabe sobre aquela que Kim Jong-un parece ter escolhido para um dia lhe suceder, tal como ele sucedeu ao pai, Kim Jong-il, em 2011, que por sua vez sucedera em 1994 ao pai, Kim Il-sung, fundador do secretíssimo e hiperisolado regime norte-coreano..Taeyangho - a fortaleza sobre carris que Kim prefere para se deslocar.Segundo um relatório de 2017 dos serviços secretos da Coreia do Sul, Kim e Ri Sol-ju terão três filhos: um rapaz nascido em 2010, uma rapariga nascida em 2013, que será Ju-ae, e, em 2017, uma criança cujo sexo se desconhece. Até agora Kim Ju-ae foi a única a surgir em público no que parece um treino para um dia assumir a liderança.Mas nada está garantido. Não só devido à juventude daquela que os media oficiais norte-coreanos nunca identificam pelo nome, apenas como “a filha amada” ou “a filha estimada”, mas também porque os potenciais papéis dos outros filhos de Kim deixaram margem para cautela ao tirar conclusões sobre o papel de Ju-ae na sucessão. Já para não falar no facto de ser uma mulher. Numa sociedade patriarcal, embora oficialmente comunista desde 1948, resta saber como conseguiria impô-la ao partido e a umas elites militares que poderão não aceitar de bom grado ter uma mulher como líder supremo, a comandar um país de mais de 26 milhões de habitantes, potência nuclear desde 2006.No final da tabela dos países no que diz respeito ao PIB per capita - 640 dólares, segundo os dados de 2023 da ONU (os únicos disponíveis); por comparação o PIB da Coreia do Sul é de mais de 35.500 dólares -, a Coreia do Norte até era mais rica do que o Sul após a partição da península no final da II Guerra Mundial. E manteve um PIB per capita mais alto até aos anos 1970. Marcada pela ideologia Juche, de autossuficiência, a Coreia do Norte vai sofrer com o desmembramento da União Soviética. A Grande Fome dos anos 1990 deixa as suas marcas, mas nos últimos anos, sobretudo com Kim Jong-un, houve uma pequena abertura ao exterior. Apesar de o país continuar sob sanções internacionais.Para já, Ju-ae nunca falou em público e a mãe, Ri Sol-ju, não teve muito mais do que papel de figurante em raras aparições com o marido. Mas tem cabido à irmã de Kim, Yo-jong, o papel de segunda figura do regime. Vice-diretora do Departamento de Propaganda e membro da Comissão de Assuntos Estatais, Yo-jong já mostrou que as mulheres na Coreia do Norte não servem só para cuidar da casa ou trabalhar no campo. Pelo menos se forem da família do líder.Esta hipótese de ser uma Kim a quarta da dinastia é abordada também ao de leve por Keum Suk Gendry-Kim, a desenhadora sul-coreana autora da novela gráfica O Meu Amigo Kim Jong-un.Ascender gradualmente à sucessãoOs líderes norte-coreanos nunca anunciaram abertamente os seus sucessores. As transições foram sinalizadas gradualmente, através de uma maior visibilidade pública e da atribuição progressiva de responsabilidades políticas e simbólicas. Kim Jong-un está apenas a seguir o exemplo do pai e do avô ao dar espaço mediático a Ju-ae.Num mundo de aparências, vários analistas há muito interpretam as frequentes aparições de Ju-ae ao lado da mãe como uma forma de construir a imagem de uma “família estável”, como destacou à Reuters Hong Min, especialista em Coreia do Norte do Instituto Coreano para a Unificação Nacional..Uma dinastia de três KimsFundada em 1948 por Kim Il-sung, um antigo guerrilheiro contra as forças de ocupação japonesas treinado e apoiado pela União Soviética, a República Popular Democrática da Coreia é, há mais de sete décadas, governada pela mesma dinastia. A Kim Il-sung sucedeu o filho, Kim Jong-un, em 1994, o qual é sucedido em 2011 pelo seu filho Kim Jong-un, atual líder da vulgarmente chamada Coreia do Norte, um dos regimes mais impenetráveis do mundo.Kim Il-sung Líder da guerrilha coreana, Kim Il-sung destacou-se na luta contra as forças de ocupação japonesa nos anos 1930. Em 1940, Kim e os companheiros, perseguidos por tropas japonesas, atravessam para a União Soviética, onde acabam integrados no Exército Vermelho na II Guerra Mundial. Terminado o conflito, e com a derrota do Japão, Moscovo apoiou Kim para liderar o Norte comunista em 1948, enquanto o Sul da península coreana ficava sob controlo dos EUA. É com apoio e equipamento soviético, que em 1950 Kim manda invadir o Sul, dando início a uma guerra entres as duas Coreias que só terminaria três anos depois com um armistício, mas sem acordo de paz, o que faz com que tecnicamente os dois países continuem em guerra até hoje. Nos anos seguintes e apesar de ter falhado o objetivo de unificar a Coreia sob a sua liderança, Kim consolida o seu poder, aposta na ideologia juche (autossuficiência), cria um culto da personalidade e purga tanto rivais como ex-companheiros de guerrilha. Empenhado em criar uma dinastia política que governasse o país após a sua morte, nos anos 1970 Kim Il-sung nomeou o filho Kim Jong-il para cargos de liderança no Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte. Após décadas à frente de um regime autoritário, em 1994 Kim Il-sung morre de ataque cardíaco. Tinha 82 anos. Até hoje é considerado “presidente eterno”.Kim Jong-ilOs arquivos soviéticos e outras fontes dizem que ele nasceu em 1941, na Sibéria, onde o pai treinava com militares soviéticos, mas a propaganda oficial garante que Kim Jong-il nasceu no ano seguinte, numa base da guerrilha no monte Paektu, o mais alto da Coreia. E que o momento foi marcado por um duplo arco-íris. Educado em parte na Alemanha de Leste, mas formado na Universidade Kim Il-sung, Kim Jong-il foi subindo na hierarquia do Partido dos Trabalhadores e trabalhando com o pai. Designado seu sucessor em 1980, quando Kim Il-sung morreu, em 1994, sucedeu-lhe como líder da Coreia do Norte. Os seus primeiros anos de liderança foram marcados pela Grande Fome, que estimativas apontam para ter matado mais de dois milhões de pessoas. Kim viu-se forçado a repensar o isolacionismo da Coreia do Norte. Depois de aceitar suspender o programa nuclear, em 1999, no ano seguinte Kim reuniu-se com o presidente da Coreia do Sul, Kim Dae-Jung, com o qual aceitou dar passos para a reunificação. As relações com os EUA pioraram depois de o presidente George W. Bush colocar a Coreia do Norte no Eixo do Mal, com Irão e Iraque. Kim voltou a enriquecer urânio, saiu do Tratado de Não-Proliferação e em 2006 fez o primeiro teste nuclear. As relações entre Norte e Sul deterioraram-se, tal como a saúde de Kim, que morreu em 2011. Sucedeu-lhe o filho, Kim Jong-un.Kim jong-unMais novo dos três filhos de Kim Jong-il, Kim Jong-un cresceu longe dos olhares e pouco se sabia dele quando sucedeu ao pai em 2011. Educado na Suíça, onde travou amizade com um colega português, os seus primeiros anos no poder foram marcados por uma viragem para a estratégia de byungjin (desenvolvimento paralelo - da economia e da defesa da Coreia do Norte) e pela aceleração do programa nuclear, com a realização de mais testes. Para se impor como líder, terá enveredado por uma purga, cuja vítima mais notável foi o seu tio Jang Song-Thaek, próximo de Kim Jong-il. Com mísseis balísticos intercontinentais teoricamente capazes de atingir os EUA, em 2017, Kim envolveu-se numa guerra de palavras com o presidente Donald Trump. Apesar da tensão, os Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, na Coreia do Sul, foram pretexto para uma aproximação, com a irmã de Kim, Yo-Jong, a ir a Pyeongchang. No mesmo ano, Kim reuniu-se com o presidente sul-coreano Moon Jae-in, em Panmunjon, e com Trump, em Singapura. Mas estes esforços para a reunificação e para a desnuclearização não duraram e no início de 2024 Kim declarou o fim das hipóteses de reunificação, considerando a Coreia do Sul o “principal inimigo”. Em junho de 2024, Kim assinou um tratado de segurança e defesa com a Rússia, forneceu material militar para a guerra na Ucrânia, para onde também enviou soldados..A Grande Sucessora? Quem é Kim Ju-ae da Coreia do Norte