Sempre que falamos de Israel e das diferentes guerras que afetam o país, algo que surpreende visto de fora, a par da capacidade militar, é a resiliência económica. No que diz respeito a esta guerra com o Irão, que também envolve os EUA, a forma como Israel resiste a uma crise energética e ao aumento dos preços dos combustíveis, tem que ver sobretudo com o gás descoberto já no século XXI?É uma combinação de tecnologia e sorte, para ser honesto. A matriz energética de Israel é atualmente composta por gás natural que o país descobriu há 15 anos no seu mar. Assim, 70% da nossa eletricidade provém do gás natural produzido em três grandes campos de gás. E outros 15% são de energia solar. E esta ideia é que, através da tecnologia, através da energia solar, podemos criar um setor elétrico mais resiliente. Mas, de um modo geral, Israel não é novato em embargos e sanções. E, ao longo da sua existência, encontrou diferentes formas tecnológicas de superar e tornar a sua matriz energética um pouco mais resiliente. Desde a sua criação, Israel esteve sempre sob embargo petrolífero, um embargo árabe. Por isso, o país procurava constantemente alternativas que não dependessem tanto do petróleo. Por exemplo, em 1975, foi promulgada uma lei que obrigava à instalação de aquecedores solares de água em todos os telhados. Hoje 85% dos israelitas não usam eletricidade para aquecer a água. Assim, sempre que há uma crise, uma nova lei, iniciativa ou programa de subsídios incentiva a inovação tecnológica para a ultrapassar. Hoje vemos isso com a instalação de mais painéis solares fotovoltaicos, As novas casas construídas em Israel a partir de 1 de janeiro de 2026 terão de ter painéis solares fotovoltaicos nos telhados para diversificar a rede elétrica. Parte da questão para Israel é: quais são as ameaças contra as quais temos de proteger o novo sector energético? Uma dela são as sanções e os embargos. A outra são os ataques com rockets, que são bastante específicos de Israel. O número de ataques com rockets ao longo dos últimos 20 anos tornou necessária a criação de um setor elétrico menos centralizado, em que, se uma central for desativada, não há problema, pois existem centrais de reserva suficientes na forma de painéis solares. O país tem uma rede descentralizada em que, em vez de toda a sua eletricidade vir de apenas cinco centrais elétricas, vem de 50.000 painéis solares espalhados por todo o Israel. E há um sistema de reservas, além de reservas estratégicas de petróleo e combustível. Assim, o painel solar em Israel é visto como uma ferramenta de segurança, não só uma opção ambiental ou económica. Se o país sofrer sanções, tem um plano B.No passado, houve soluções criativas para contornar o embargo petrolífero dos países árabes. Normalmente, estamos a falar de negociações secretas com alguns países, com contrapartidas muito especiais?Sim. Até 1979, o Irão era o maior fornecedor de petróleo de Israel. 80% do nosso petróleo vinha do Irão, e nunca cederam ao embargo petrolífero árabe. Depois de o regime islâmico iraniano ter assumido o poder, Israel viu-se numa situação desesperada, procurando petróleo em qualquer lugar. O desafio era como convencer alguém a vender petróleo e correr o risco de sofrer um embargo pelos membros árabes da OPEP. Qualquer membro da OPEP que fosse apanhado a vender petróleo a Israel seria expulso, como aconteceu ao Egito em 1980, depois de ter feito um acordo de paz com Israel, por exemplo, ou sofreria sanções de segundo grau. Por isso, era necessário Israel oferecer algo a um ditador militar na África Ocidental, ou a um líder na América Latina, ou algo do género. Algo em troca do petróleo que compensasse o risco de o vender clandestinamente. O dinheiro não chegava, porque, no final de contas, somos um país pequeno. Há um limite para a quantidade de petróleo de que realmente necessitamos. Assim, estou a comprar 200.000 barris de petróleo por dia a outro país. Mesmo que lhes pagasse 200% do preço do petróleo, isso não compensaria o risco económico de sofrer um boicote árabe. Por isso, era necessário oferecer algo que realmente desejassem, algo que não consigam obter de mais lado nenhum e que valha a pena o risco de um embargo. O que Israel tinha para oferecer eram armas, armas de nível ocidental, sistemas de vigilância, etc., que tornariam a venda vantajosa , algo que realmente desejassem. Por causa disso, desde a década de 80, as importações de energia e as exportações de armas tornaram-se muito interligadas. Assim, se Israel compra petróleo a algum país, geralmente isso também envolve algum tipo de exportação de armas. Nem sempre armas, podendo ser também tecnologia de vigilância ou militar, tecnologia de defesa, em troca. Por isso, na fase inicial das negociações energéticas com um novo fornecedor estas muitas vezes não são conduzidas por empresas privadas ou pelo ministério da Energia do país, mas sim pelo ministério da Defesa ou pelo gabinete do primeiro-ministro, pois envolvem armamento confidencial, etc. Isto começou por ser um imperativo. Era a única forma de conseguirmos petróleo. Mas acabou por se revelar um mecanismo muito eficaz por dois motivos. Primeiro, para garantir o fluxo contínuo de petróleo mesmo em tempos de crise, porque se não houver petróleo suficiente para todos, o exportador irá dar prioridade ao país que oferecer algo em troca que realmente deseje, como armas. Isto fortalece muito a ligação em contratos de longo prazo, e não apenas em contratos pontuais. Assim, o preço do petróleo mantém-se relativamente estável porque enquadrado em negócios de longo prazo. E, em segundo lugar, isto fortalece as relações políticas. Muitas vezes, não se trata apenas de relações económicas. Quando Israel compra petróleo a outro país, geralmente as relações transformam-se rapidamente em relações de segurança mais fortes. E depois, via esse país, Israel cria relações com os países vizinhos. Assim, Israel utiliza-o como intermediário. Foi o que aconteceu com Israel, a Nigéria e a África Ocidental. Israel, o Azerbaijão e o Mar Cáspio. Israel, o Equador e América Latina. Ao longo da sua história, Israel conseguiu encontrar países dispostos a vender-lhe petróleo, estabelecendo, em troca, relações de segurança, o que se transformou em algo muito maior. Assim, tornou-se uma espécie de paradoxo, onde as limitações transformaram-se em vantagem. Por este motivo, Israel possui hoje um setor de importação de petróleo mais resiliente do que outros países, cujas bases são mais frágeis porque são focadas apenas nos interesses económicos.Mencionou 1979, ano da Revolução Islâmica e o fim do fornecimento de petróleo do Irão. 1979 foi também uma altura em que Israel estava a fazer a paz com o Egipto. Depois disso, o Egito tornou-se um importante fornecedor de petróleo e gás?Até 1979, Israel obtinha a maior parte do seu petróleo do Irão, mas também do Sinai, da península do Sinai ocupada, onde existia petróleo. Israel tinha tomado o território em 1967 e devolveu-o com o acordo de paz. Assim, em 1979, Israel perdeu o fornecimento do Irão e depois cedeu a Península do Sinai. Assim, ficou sem qualquer barril de petróleo. Mas enquanto as conversações de paz de Camp David decorriam com os egípcios, já havia notícias de que o xá do Irão iria cair. Então Israel disse, argumentando: "Ouçam, estamos a devolver o Sinai. Não sabemos de onde virá o próximo barril de petróleo. Precisamos de algum tipo de garantia de que teremos petróleo depois disto”. E assim, como parte do acordo de paz, o Egito aceitou vender petróleo, o petróleo da Península do Sinai, dos campos que Israel explorou, a Israel a preço de mercado. Houve muita discussão sobre se seriam contratos perpétuos, etc. Mas, no final, o Egito forneceu basicamente 30% do petróleo de Israel até 1990, até que os campos petrolíferos da Península do Sinai se esgotaram. O petróleo era, de facto, uma ligação muito forte entre os dois países. Mais tarde, o Egito também desenvolveu exploração de gás e vendeu-o a Israel. Mas hoje, como o Egipto esgotou as suas reservas (e tem agora 100 milhões de habitantes), não possui gás suficiente para o seu próprio consumo, pelo que compra gás a Israel através dos mesmos gasodutos que utilizava para vender. Nesse sentido, Israel teve sorte em ter encontrado gás. Esta lição é geralmente verdadeira para muitos outros países: quanto mais sanções são impostas a um país, quanto mais embargos são aplicados, mais resiliente se torna a essas sanções e embargos. Encontra formas de os superar e até mesmo usá-los como vantagem. No caso de Israel, o país tornou-se muito resiliente em encontrar outros países para obter petróleo e energia.Israel não assume ser uma potência nuclear, mas existe o reator nuclear de Dimona, e obviamente o país domina a tecnologia nuclear. Porque é que a energia nuclear civil, através de centrais nucleares, não é até hoje uma opção? Por causa da pequena dimensão territorial?É uma conjugação de fatores. Desde a década de 1970 que o ministério da Energia desejava uma central nuclear. E mesmo hoje, quando se analisam os planos do ministério da Energia de Israel para atingir emissões zero de CO2 até 2050, a energia nuclear figura sempre como uma das três opções. O principal problema, na verdade, são dois problemas principais. Em primeiro lugar, Israel não é signatário do TNP, o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Israel não é signatário porque, ao assiná-lo, está basicamente a declarar que não possui armas nucleares. E se tiver, precisa de ser inspecionado. E Israel não confirma que as possui. Tem, porém, um centro de investigação nuclear, que é completamente legítimo e recebe inspeções da Agência Internacional da Energia Atómica. No entanto, se pretende construir uma central nuclear para uso civil, é necessário assinar o TNP. E Israel não assina o TNP por causa da questão das armas nucleares. Israel não quer construir uma central nuclear ilegal para uso civil por causa das questões de segurança. Se constrói uma central nuclear, quer que esta seja inspecionada. Quer que faça parte de uma grande rede que a monitorize. E isso era importante. A segunda questão é a segurança. Construir uma central nuclear numa área tão pequena, constantemente alvo de mísseis, sabotagens e atentados suicidas, etc., representa um risco enorme. Se houver um derretimento do núcleo, se ocorrer algum tipo de explosão de grandes proporções, uma explosão direcionada tornaria metade do país inabitável. Portanto, sempre existiram estas questões de segurança relacionadas com a localização da central nuclear. Ambas as questões têm soluções. A questão é a rapidez com que se consegue lá chegar. Portanto, em relação ao TNP, claro, pode-se argumentar: "Tudo bem, basta assinar o TNP". Mas vamos supor que Israel não quer assinar o TNP. Ainda existem formas de contornar isso. Há um país, o único que tem centrais nucleares, mas não assinou o TNP e tem armas nucleares, e esse país é a Índia. Existe, portanto, um modelo em que, mesmo sem ter assinado o TNP, é possível ter uma central nuclear. A Índia obteve uma isenção. Israel quer o mesmo tipo de isenção dos EUA, mas os EUA dizem: “não, vocês não são a Índia. Não são tão importantes para os EUA economicamente como a Índia”. A outra opção, e esta é interessante, é criar um extra-território no país e dá-lo aos EUA, no qual basicamente Israel não teria permissão para ter uma central nuclear, mas os EUA teriam. Seria pegar num território em Israel e transformá-lo oficialmente em território americano, transferindo esse território para os EUA sob soberania americana. É, no fundo, uma brecha legal que permite a instalação de uma central nuclear em território americano, etc. Mas isso não resolve a questão da segurança. A questão da segurança pode ser resolvida com novas tecnologias nucleares. Por exemplo, em vez de construir uma grande central nuclear de 2.000 megawatts, que seria um alvo fácil para ataques com rockets, etc., nos próximos cinco anos, chegarão ao mercado pequenos reatores modulares (SMRs). São pequenos reatores que podem ser transportados na caixa de um camião e cada um pode gerar cerca de 200 megawatts. São muito caros atualmente e ainda não estão disponíveis comercialmente. Mas a expectativa é que estejam nos próximos cinco anos. E esta é uma boa solução para problemas de segurança, porque se houver ataques com rockets, pode colocá-la num camião e levá-la para um bunker subterrâneo. Mesmo que seja atingida, o dano causado é muito, muito pequeno. Assim, esta poderia ser uma solução. No futuro, se as questões legais do TNP forem ultrapassadas, é provável que Israel opte por pequenos reatores modulares, e não por um daqueles grandes reatores nucleares que são um alvo fácil para ataques com rockets.Uma última questão sobre a geopolítica da energia. Imagina que, após esta guerra com o Irão, e devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz e toda a escalada de preços do petróleo e do gás, haverá uma tendência mundial para as energias verdes ou para a energia nuclear? Ou as pessoas serão conservadoras e voltarão sempre ao petróleo e ao gás?Bem, historicamente, o que acontece quando há este tipo de crise, em que não há petróleo suficiente por razões geopolíticas e o preço do petróleo sobe, depende de quanto tempo o preço se mantém elevado, certo? Mas historicamente, quando os preços do petróleo sobem, vemos que ambas as coisas acontecem. Não é uma coisa nem outra, são as duas. Quando os preços do petróleo sobem, as empresas petrolíferas têm mais incentivo para procurar reservas de petróleo e gás em novos locais e desenvolver novas tecnologias. Assim, durante o embargo petrolífero árabe na década de 70, os preços do petróleo subiram. E, consequentemente, as empresas energéticas começaram a procurar petróleo e gás em alto mar. E encontraram petróleo e gás na Noruega, no Brasil, na Argentina e no norte da Rússia, em alto mar, onde sabiam que havia reservas. Mas com o barril a 20 dólares, não fazia sentido económico explorar. No entanto, quando os preços do petróleo subiram, aí sim, passou a fazer sentido. E depois descobriram petróleo e gás. Mas também investiram, os governos começaram a investir em tecnologias renováveis. Assim, na década de 1970, devido ao embargo petrolífero árabe, a Europa apostou tudo na energia nuclear. A maioria das centrais nucleares na Europa data da década de 1970, como consequência do embargo petrolífero árabe. Muitas das tecnologias renováveis que temos hoje foram desenvolvidas na década de 70. O mesmo aconteceu na década de 2000, quando os preços do petróleo dispararam entre 2005 e 2014. Por um lado, isto incentivou o desenvolvimento de mais tecnologias para a procura de mais petróleo, como, por exemplo, o petróleo e o gás de xisto nos EUA. De repente, fez sentido investir nesta nova tecnologia experimental porque o barril de petróleo estava a 100 dólares. Portanto, fazia sentido. Mas também, como o petróleo era muito caro, fazia sentido investir em novas tecnologias como as energias renováveis, como os painéis solares, as turbinas eólicas, os veículos eléctricos e o hidrogénio. E assim, ambas as coisas acontecem ao mesmo tempo. Vemos isso também com a invasão russa da Ucrânia e o aumento dos preços da eletricidade; de repente, há um maior movimento em direção às energias renováveis, mas também apelos para encontrar mais petróleo ou obter mais gás de outros lugares, etc. Normalmente, quando os preços da energia estão elevados, ocorre um renascimento tecnológico. E a tecnologia não tem nada a ver com política. A tecnologia está em todo o lado. Portanto, é tecnologia para encontrar mais petróleo e gás. É tecnologia para impedir que deixe de usar petróleo e gás. Incentiva ambas as coisas. Portanto, dependendo do resultado deste conflito, digamos que é um mau desfecho, digamos que o conflito termina sem uma resolução clara e o Irão continua lá, a pedir dois milhões de dólares por cada navio e coisas do género, e os preços do petróleo se mantêm elevados, então veremos um maior impulso em direção à energia renovável, aos painéis solares, aos veículos elétricos, ao hidrogénio verde. Mas também veremos um esforço para procurar mais petróleo e gás em regiões como o Árctico, a África Ocidental e a Oriental, ou talvez em partes da Europa Ocidental que actualmente proíbem a exploração de petróleo e gás de xisto. Se o barril de petróleo estiver acima dos 100 dólares nos próximos quatro anos, então provavelmente países como a França e o Reino Unido permitirão mais exploração de petróleo e gás de xisto na Europa. Normalmente, o que vemos são tendências em ambos os sentidos. A mais direta é que provavelmente veremos mais veículos elétricos. Se os preços da gasolina se mantiverem elevados, as pessoas comprarão mais veículos elétricos e menos SUV. Portanto, não é uma questão de "ou um ou outro", são ambos, porque a economia moderna não funciona sem um fornecimento regular de petróleo. As energias renováveis substituem o gás e o carvão porque são utilizadas para gerar eletricidade. As energias renováveis não sabem fazer mais nada para além de gerar eletricidade. Já os painéis solares, as turbinas eólicas e as centrais nucleares apenas sabem gerar eletricidade. O petróleo não é utilizado para gerar eletricidade, pelo que não competem no mesmo setor. Mesmo que se utilize 100% de energias renováveis, a procura de petróleo não é afetada, pois o petróleo não é utilizado para gerar eletricidade. Apenas alguns países utilizam o petróleo para este fim. O petróleo é utilizado para transporte, embalagem, comercialização, fertilizantes e outras atividades que as energias renováveis não conseguem realizar. Portanto, de qualquer forma, o petróleo será necessário e a procura por ele continuará a aumentar. Mas, no que diz respeito ao carvão e ao gás, sim, veremos mais energias renováveis a substituir o carvão e o gás, à medida que este tipo de crise se prolonga.