O exército israelita está pronto “para qualquer cenário” pouco depois do anúncio da morte do número dois do movimento palestiniano Hamas em Beirute. Sem fazer qualquer menção ao ataque com um drone que matou Saleh al-Arouri no Líbano, o porta-voz Daniel Hagari, na sua conferência de imprensa diária, disse que o exército estava “num elevado nível de preparação para qualquer cenário” face à possibilidade de a guerra com o Hamas se alastrar para outras regiões e com outros atores..Em novembro, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu disse sem rodeios que dera instruções à Mossad para “agir contra” as chefias do Hamas “onde quer que estejam”. Ao seu lado, o ministro da Defesa Yoav Gallant foi taxativo sobre o futuro dos dirigentes do movimento islamista palestiniano: “Estão a viver a prazo.”.Nem governo nem o exército israelita comentam a explosão que ocorreu num subúrbio de Beirute e que matou o vice-líder do Hamas e outras cinco pessoas, duas das quais chefias das Brigadas al-Qassam, o braço armado do Hamas, Samir Findi e Azzam al-Aqra. .Ismail Haniyeh, líder do movimento que é considerado terrorista pela União Europeia, EUA e outros países, disse que o seu número dois foi vítima de uma “ação terrorista” que violou a soberania do Líbano. Haniyeh afirmou que o seu movimento “nunca será derrotado”..Já o primeiro-ministro libanês Najib Mikati considerou que este “novo crime visa arrastar o Líbano para uma nova fase de confrontos depois dos contínuos ataques diários no sul, que causaram um grande número de mártires e feridos”..O primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana, Mohamed Shtayeh, condenou “o assassínio” de al-Arouri e alertou para “os riscos e repercussões que podem surgir deste crime”..O Irão advertiu que a morte do dirigente do Hamas “motivará ainda mais a luta contra Israel”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão..Retirada no norte Os residentes da cidade de Gaza confirmaram a retirada das forças israelitas que se encontravam estacionadas no noroeste da cidade de Gaza, tendo alguns indicado a deslocação das tropas para outras zonas. Segundo testemunhas oculares ouvidas pelos meios de comunicação palestinianos locais, os tanques israelitas retiraram-se de bairros como al Nasr, al-Maqousi, al-Fayrouz e do campo de al-Shati, no norte de Gaza. .Na véspera, o porta-voz das forças armadas israelitas anunciara a retirada de cinco brigadas da Faixa de Gaza, embora tenha reafirmado que os objetivos militares se mantinham. .Para o Ministério da Defesa israelita, a presença do movimento islamista no norte da Faixa de Gaza é agora “irrelevante”, após muitos dos seus combatentes terem fugido para o sul do enclave. “No norte, destruímos 12 batalhões do Hamas, o que não significa que tenhamos eliminado todos”, disse por sua vez o ministro da Defesa, Yoav Gallant, durante uma visita às tropas israelitas em Gaza..O maior aliado de Israel, os EUA, têm pressionado Telavive a reduzir a escala das operações militares de forma a poupar as vidas dos civis. Noutro sinal de Washington, o porta-aviões Gerald Ford, que tinha sido enviado por Joe Biden para o Mar Mediterrâneo na sequência dos ataque s de 7 de outubro, vai zarpar da costa de Israel nos próximos dias. .EPA/MOHAMED HOSSAM.Saleh al-Arouri, fundador das Brigadas al-QassamA viver no Líbano, era considerado o líder do Hamas na Cisjordânia e um dos fundadores das Brigadas al-Qassam, a ala militar do grupo islamista. Nascido em 1966 em Aroura, na Cisjordânia, aderiu ao Hamas em 1987. Destacou-se como líder do movimento estudantil e ajudou a criar a ala militar do Hamas na Cisjordânia. As suas ações não passaram despercebidas por Israel, que o manteve preso durante largos anos desde 1990 e até 2010. Nesse ano mudou-se para a Turquia, mas a melhoria de relações à época entre Ancara e Telavive forçou-o a mudar-se para a Síria. Por fim mudou-se para o Líbano..Enquanto o seu estatuto foi subindo - primeiro passou a membro do Politburo (2010), depois vice-líder (2017) - al-Arouri foi o responsável pelas negociações pela reconciliação com a Fatah, as quais culminaram num acordo para a realização de eleições legislativas e presidenciais em toda a Palestina em 2021. O presidente Mahmoud Abbas acabou por cancelar o sufrágio..O que era agora número dois da organização terrorista foi também essencial na reaproximação ao movimento xiita Hezbollah e ao seu patrocinador, o Irão. Aliás, segundo informações a circular nos meia israelitas, al-Arouri iria encontrar-se hoje com o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. .cesar.avo@dn.pt