Chamava-se Mohammed Wishah e era jornalista da Al Jazeera. Na quarta-feira, o carro onde seguia foi atingido por um drone, tornando-se no 262.º repórter a morrer desde o início da guerra na Faixa de Gaza, em outubro de 2023, segundo números avançados pelas autoridades locais. Numa contagem feita por aquele canal televisivo, o cessar-fogo em vigor desde 10 de outubro foi violado por Israel em 36 dos 40 dias desde que iniciou a guerra israelo-norte-americana ao Irão. Em resultado, morreram pelo menos 107 pessoas, número que ascende aos 738 (e mais de 2000 feridos) no último meio ano em que as armas deveriam ter sido silenciadas. Além da guerra persistir a espaços, não há avanços na melhoria das condições da população. Um médico no hospital Al-Shifa, o maior em funcionamento no enclave, descreve o resultado de uma guerra devastadora: “Gaza parece hoje uma cidade pós-apocalíptica: o quotidiano está totalmente desorganizado, a sociedade está parada, sem trabalho nem salários. Os edifícios estão privados de água quente, de gás, e encontram-se num estado de insalubridade nunca antes alcançado. Estão quase todos destruídos ou em processo de decomposição”, disse Jamal Salha ao Libération. Sem ilusões sobre aquele pedaço de território poder vir a ser reconstruído num horizonte visível, disse que a ajuda humanitária continua a entrar a conta-gotas, com os suprimentos hospitalares a gastarem-se no dia em que chegam e a comida a ser “largamente insuficiente”. A entrada de ajuda humanitária é um dos 20 pontos do acordo de cessar-fogo, mas como quase todos os outros pontos não tem sido cumprido por Israel. Segundo as autoridades em Gaza, só um quinto dos camiões previstos no acordo é que entraram. Segundo uma análise ao cessar-fogo por parte de cinco organizações não governamentais (Conselho Dinamarquês para os Refugiados, Conselho Norueguês para os Refugiados, Oxfam, Save the Children e Refugees International), entre 70 e 80% dos camiões são comerciais e não das organizações humanitárias - 37 foram impedidas de trabalhar no enclave. O balanço é de um falhanço em toda a linha. O “chamado” cessar-fogo em Gaza, considera o presidente da Refugees International Jeremy Konyndyk, é “uma continuação da privação intencional observada ao longo de toda a hostilidade”.