Está em Lisboa para falar sobre o futuro das relações transatlânticas. Mas, olhando para os últimos 4 anos, depois das declarações de líderes como Donald Trump ou Emmanuel Macron sobre a morte da NATO, a Aliança Atlântica ganhou nova vida com a Presidência Biden e, sobretudo, com a guerra na Ucrânia. Foi uma surpresa para si? Penso que a guerra, infelizmente, foi a causa disto. O facto de haver uma guerra na Europa muda completamente o contexto da Aliança, dos gastos com Defesa, de coisas que antes eram mais controversas. Também é verdade que o presidente Biden e as pessoas ao seu redor são muito ligados à NATO. Não questionam a solidariedade transatlântica. Isto tem sido muito tranquilizador para os europeus. Biden é provavelmente o presidente mais orientado para a política externa que tivemos desde Bush pai. Muito mais do que Obama. Certamente muito mais do que Trump. Mesmo em relação à UE, a Administração Biden tem estado extraordinariamente interessada em ver Bruxelas como um interlocutor em questões-chave. Nem sempre foi assim, no passado. Há uma relação de proximidade entre a presidente [da Comissão Europeia] Von der Leyen e o presidente Biden. Esses relacionamentos pessoais importam muito. No comércio, a UE é o interlocutor, em todo o tipo de questões regulatórias. Mas também na Defesa, cada vez mais, por causa da Ucrânia e das sanções. Portanto, tem sido uma relação bastante estreita com a UE, embora não isenta de diferenças..Facilitada talvez por, nos últimos anos, a UE ter estado mais unida? Sim, é verdade. Há uma série de coisas que aconteceram que afetaram isso. Primeiro, tivemos a crise financeira global após 2008, depois a covid e depois a guerra na Ucrânia. Todas estas coisas forçaram uma espécie de coesão na Europa. Não-completa, não-perfeita, mas mais do que no passado. E os EUA tiveram de responder a isso..Voltemos aos EUA: as eleições estão ao virar da esquina. Se Kamala Harris vencer, podemos esperar uma continuidade na política americana em relação à UE e à NATO? Acho que a mensagem básica seria de continuidade. Em primeiro lugar, a vice-presidente Harris tem feito parte deste processo na Casa Branca nos últimos anos. Além disso, alguns dos seus principais conselheiros, como Philip Gordon, que pode ser o conselheiro de Segurança Nacional, são realmente europeístas - ele tem livros sobre França, fala francês, alemão e espanhol. É muito parecido com o estilo de Antony Blinken, mas ainda mais, de certa forma, com John Kerry, que se sentia muito, muito confortável com a Europa. E isso deveria ser tranquilizador para os europeus. Mas é claro que o mundo muda, surgem problemas, crises, acontecem coisas e a perspetiva de Harris talvez não seja exatamente a de Biden..Harris seria tranquilizadora para a Europa. O que não é tranquilizador é a perspetiva de Trump vencer. Se acontecer, acredita que o republicano porá em prática as suas ameaças ou é mais retórica? Já tivemos essa experiência uma vez. Eu não acho que ele agiria de uma forma extremamente radical em relação à NATO, por exemplo. Não vejo os EUA a retirarem-se da NATO ou algo do género. Poderiam os EUA tornar-se um parceiro muito mais difícil na NATO? Sim, absolutamente. Acho que uma das grandes diferenças estaria na relação com a UE, porque não creio, com base na experiência, que o ex-presidente Trump veja o mundo através de instituições como essa. Ele está mais inclinado para ver a relação através de Estados-nação chave, mas ainda mais através de líderes, personalidades e indivíduos-chave. E vai depender muito de quem gosta e não gosta. Em geral, eu diria que se a Europa procura previsibilidade, este será um resultado menos previsível, com certeza. .Tem-se dito que a NATO está a tentar ficar “à prova de” Trump - como é que isso pode ser feito? Esta pergunta é feita muitas vezes em Bruxelas, na NATO, mas também na UE. Penso que a resposta é mais ou menos esta: muitas das coisas que a Europa pode fazer para se proteger contra esta imprevisibilidade são coisas que já deveria estar a fazer de qualquer maneira - em termos de competitividade económica, como diz o Relatório Draghi, em termos de despesas com a Defesa. Todas estas são coisas que a Europa deveria estar a fazer, não importa quem ganhe em novembro. Porque há fatores que influenciarão os compromissos americanos para com a Europa que nada têm a ver, ou muito pouco, com quem vence as eleições. A relação com a China, por exemplo. Houve muito esforço da Europa para entender como trabalhar com Trump quando ele estava no cargo. Os resultados foram mistos. Estilisticamente, existia uma grande lacuna entre a abordagem europeia e a abordagem americana em muitas questões. Clima, energia, segurança, comércio, a lista é extensa de áreas em que era muito difícil encontrar terreno comum. E isso é algo que preocupa a Europa novamente..Se Von der Leyen acaba de ser reeleita para mais cinco anos, na NATO a liderança muda no dia 1, com Stoltenberg a passar a pasta a Mark Rutte. Os EUA esperam alguma mudança? Em muitos aspetos, Mark Rutte será uma continuação do tipo de liderança que vimos sob Stoltenberg, e que tem sido notavelmente eficaz, num período muito difícil. Tudo na NATO é feito por consenso, das coisas mais pequenas às mais importantes. E a escolha de um novo secretário-geral, obviamente, também. O facto de Mark Rutte ser o próximo secretário-geral tem, por definição, a bênção dos EUA. E ele tinha a reputação de ser muito eficaz nas relações com Washington em várias Administrações. Rutte está na política há muito tempo, assim como Stoltenberg. Tornou-se muito difícil administrar a Aliança num momento de grande stress. Uma coisa é estar em paz e ninguém gastar muito, e é tudo tranquilo, mas não é a situação agora. Neste momento é preciso alguém que seja capaz de construir este tipo de consenso. Stoltenberg teve de o fazer e há a sensação de que Rutte também será muito bom nisso..É tão complicado, que alguns analistas dizem mesmo que o mundo está no momento mais perigoso desde a Guerra Fria… Acho que a Guerra Fria era mais segura, num sentido de estabilidade estratégica. A União Soviética e o Ocidente discordavam em muitas coisas, mas entendiam-se muito bem. Compreendiam o que era estabilizador e o que era desestabilizador. Portanto, havia todos esses acordos de controlo de armas e sobre estabilidade estratégica, para prevenir incidentes. A maior parte desapareceu. Mas os arsenais nucleares ainda existem e há uma guerra na Europa. Não acho que essa seja uma receita para a estabilidade. Ao mesmo tempo, temos esta relação cada vez mais difícil e perigosa com a China. Algo pode acontecer na próxima semana ou no próximo mês no Indo-Pacífico que mudaria rapidamente toda a equação..Estamos a falar de Taiwan… Taiwan, Mar do Sul da China. E isso teria grande impacto na Europa, porque de repente haveria uma enorme concorrência em relação à presença, política e estratégia americanas. A Europa já está a pensar nisso, mas em termos dos próximos anos. À medida que os EUA se deslocarem para a Ásia, como é que a Europa pode preencher esse espaço? Ora, e se for algo que acontece na próxima semana ou no próximo mês?.A Europa estaria preparada? Não, de todo.Mas qual é a maior ameaça, neste momento: a Rússia com Putin e as suas armas nucleares ou a China abrir outra frente em Taiwan? Em termos de Defesa, uma das coisas preocupantes é que quanto mais a guerra na Ucrânia durar, maior será o risco de algo correr seriamente mal entre a Rússia e a NATO, seja intencionalmente ou não. Pode ser por acidente. Esse é um risco sério. Não quer dizer que a nossa política em relação à Rússia e à Ucrânia deva ser diferente. Não se trata de forma alguma de desculpar o que a Rússia está a fazer, mas apenas de estar consciente desses riscos, que são reais. Esse é um problema. O outro é que seja quem for que ganhe nos EUA, em novembro, a Europa terá de lidar com uma América bastante disfuncional e caótica. E quando se quer mais cooperação política com os EUA e existe este ambiente polarizado na América, com muitas pessoas irritadas, torna-se muito difícil fazer as coisas. .Ver essa instabilidade e não poder contar com a América como dantes preocupa a Europa? Essa ideia de se preocuparem com os EUA é uma história antiga. Houve tempos mais estáveis, houve uma espécie de era dourada, nos anos Clinton, quando havia um ambiente internacional relativamente estável e uma América relativamente previsível e a Europa e os EUA estavam basicamente em sintonia em muitos aspetos, com uma política de terceira via. Mas esse não é o mundo em que vivemos neste momento. Temos muito mais forças imprevisíveis e elas podem combinar-se de formas perigosas..Falámos da Ucrânia, das ameaças da China em Taiwan, há ainda a guerra em Gaza que ameaça alastrar a todo o Médio Oriente, os EUA conseguem estar envolvidos em todas estas frentes? Este é um problema antigo na estratégia americana. Também existiu durante a Guerra Fria, em alguns aspectos de uma forma muito mais complicada. Mas sim, coloca exigências diferentes não apenas às forças militares, mas também ao poder político. Porque existe uma exigência para que os EUA se envolvam em todos estes conflitos, seja por uma questão de dissuasão, de defesa, como na Europa, ou como uma espécie de intermediário no Médio Oriente. E essas são coisas muito diferentes para se fazer malabarismos. Algumas destas questões são ainda mais complicadas, porque também envolvem a política interna americana - a relação com a China, por exemplo, está ligada a questões de competitividade e de nacionalismo económico, que se registam em ambos os partidos. E questões como Gaza puxam a política americana em diferentes direções. Há progressistas mais jovens no lado democrata que têm uma visão muito pró-palestiniana, há um centro de gravidade na sociedade americana que ainda é muito pró-israelita, e há alguns que simplesmente acham que não devíamos estar envolvidos em nada disto. Uma visão mais isolacionista, que não é muito forte nos EUA, mas que está lá..Apesar de o mundo estar complicado, não se ouve falar muito em política externa na campanha para as Presidenciais americanas. Há outras prioridades para convencer o eleitorado? Para as pessoas que acompanham e que estão engajadas nesses debates, é muito importante. Para o público em geral, numa eleição nacional, nem tanto. É tradição nos EUA que a política externa, mesmo em tempos de desafios difíceis - como na Guerra do Vietname ou no pós-11 de Setembro -, se faz parte da equação, não estará na linha da frente do debate político. Também é verdade hoje. A diferença é que a corrida está tão renhida que diferenças muito pequenas podem mudar o sentido de voto de pequenos segmentos do eleitorado que podem ser decisivos..A campanha hoje é mais sobre economia? Economia, guerras culturais, migrações. Não muito diferente do que se passa na Europa. .Para terminar, Portugal sempre deu muita importância à relação transatlântica e tem sido um parceiro histórico dos EUA, sobretudo por causa da Base das Lajes. No século XXI, que importância tem Portugal para os EUA? Existem muitas conexões. É acima de tudo uma ligação entre pessoas através do Atlântico que faz desta uma relação histórica forte e sem perturbações. Tal como na relação americana com o Reino Unido, grande parte da importância de Portugal vem da sua posição no sistema europeu, na UE. Este é um contexto essencial. Em muitas questões há uma dimensão atlântica importante, sejam questões de política externa, mas também questões ambientais, política dos oceanos, conectividade, infraestruturas. São questões extremamente importantes, onde Portugal tem um lugar natural. .Temos estado a falar do Atlântico, mas durante décadas os EUA estiveram mais virados para o Pacífico, o futuro passa por dividir as atenções entre os dois oceanos? Somos um país bioceânico e isso é um facto geográfico, mas também é um produto do nosso desenvolvimento - desde que as ferrovias ligaram as duas costas dos EUA, e o Canal do Panamá ligou ainda mais os dois oceanos, sempre existiu esta dualidade. Isso sente-se quando se vai a diferentes cidades e regiões dos EUA. Isto remete-me para a sua pergunta sobre o que é que a Europa pode fazer para se proteger contra uma Administração Trump. A relação com Washington é crítica em termos de Defesa e Segurança, de grandes acordos comerciais, etc., mas quando se trata de outras questões, as grandes cidades e alguns Estados tornam-se interlocutores interessantes para a Europa. Grande parte da ligação real que as pessoas têm na Europa ocorre a nível local, com as empresas, as cidades e a sociedade civil. E isso torna-se ainda mais importante quando o relacionamento com o Governo Central de Washington é tenso.