Kamala Harris cumprimenta uma criança durante uma ação de campanha em Savannah, Geórgia.
Kamala Harris cumprimenta uma criança durante uma ação de campanha em Savannah, Geórgia.CHRISTIAN MONTERROSA / AFP

Harris passa teste com debate com Trump em pano de fundo

Na primeira entrevista como candidata às presidenciais, a democrata justifica mudança de posições e aponta para o centro ao anunciar que terá um republicano na sua equipa governativa.
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O clamor crescente do campo republicano para que a vice-presidente concedesse uma entrevista enquanto candidata do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos foi emudecido depois de a conversa com uma jornalista da CNN ser emitida e a generalidade dos comentadores ter dado nota positiva. No passado, Kamala Harris deu-se mal na TV, e a entrevista estava a ser vista como um teste às suas capacidades oratórias e de empatia quando se aproxima o primeiro de dois debates com Donald Trump. 

O currículo da antiga procuradora-geral da Califórnia no que à comunicação diz respeito não está isento de manchas. Em 2019, quando a então senadora concorreu às primárias democratas, o jornal The Mercury News, de San José, na Califórnia, analisou debates dos 16 anos anteriores da sua vida pública. Veredicto: “Harris é quase invariavelmente calma e controlada, mantendo-se tranquila mesmo perante alguns ataques duros. Responde frequentemente às críticas com ataques aos seus rivais. É eficaz a desviar a atenção de temas incómodos, esquivando-se a perguntas que não vão ao encontro dos seus pontos fortes. E, apesar de ser clara e coerente nas suas respostas, por vezes parece mais rígida do que noutros contextos.”

Na mesma peça, um ex-colega do sistema judicial elogiava a sua preparação, mas num debate entre democratas a havaiana Tulsi Gabbard (hoje ex-democrata apoiante de Trump) questionou o passado de Harris, ao acusá-la de enviar “mais de 1500 pessoas para a prisão por infrações relacionadas com marijuana e depois rir-se quando lhe perguntaram se alguma vez tinha fumado marijuana” e de ter “bloqueado provas que teriam libertado um homem inocente do corredor da morte até os tribunais a obrigarem a fazê-lo”. Harris foi incapaz de retrucar, o que ajudou a sua campanha a afundar-se. “Fiquei surpreendida com o facto de ela não estar preparada para responder”, disse Gabbard numa entrevista.

Noutro contexto, há pouco tempo, a sua reação a manifestantes pró-Gaza que a interromperam num comício em Detroit dividiu opiniões. “Sabem que mais? Se querem que Donald Trump ganhe, então digam-no. Caso contrário, estou a falar”, sentenciou então. Durante os 27 minutos de entrevista, Kamala Harris mostrou-se evasiva como sempre, mas também segura, e acabou por responder após a insistência da jornalista. Foi assim, por exemplo, ao ser pressionada a explicar porque é que em 2019 defendia a proibição do fracking (extração de gás de xisto) e hoje não, ou as suas mudanças de posição sobre as políticas migratórias ou Israel. Harris disse que mantém os seus valores e puxou dos galões da vice-presidência, e do que aprendeu nas suas viagens pelo país: “Penso que é importante criar consensos e que é importante encontrar um ponto comum de entendimento sobre onde podemos efetivamente resolver os problemas.”

Este pragmatismo, que a desloca mais para o centro político, ganhou maior dimensão ao anunciar que, caso seja eleita, irá nomear um republicano para a sua administração. Harris recebeu o apoio recente de mais de 200 republicanos que trabalharam para os nomeados George W. Bush, John McCain e Mitt Romney. Significativo também que tenha minimizado as críticas do adversário a um “o mesmo velho e estafado guião” e passado com uma risada para a “próxima pergunta, por favor”. O estratega democrata Joel Payne mostrou-se entusiasmado com o desempenho da candidata. “O argumento do caos vs. estabilidade que a campanha de Biden estava a tentar executar contra Trump, a equipa de Harris é capaz de o fazer com muito mais eficácia”, disse à NPR.

Bacon e um puzzle

A vice-presidente contou na entrevista as circunstâncias em que soube que Joe Biden desistiu da candidatura a um segundo mandato. “A minha família estava connosco, incluindo as minhas sobrinhas-netas, e tínhamos acabado de comer panquecas”, disse. Quando o telefone tocou, Harris preparava-se para cozinhar mais bacon e depois ia construir um quebra-cabeças. “Ele disse-me o que tinha decidido fazer. E eu perguntei-lhe: ‘Tens a certeza?’ E ele respondeu: ‘Sim’’’, disse.

Harris afirmou não se arrepender de ter declarado publicamente que Joe Biden mantinha todas as capacidades para continuar como presidente mais quatro anos e reafirmou que ter sido sua vice-presidente foi “uma das maiores honras” da sua carreira. Além disso, deixou bem claro que um dia será feita a devida justiça a este mandato. “Acho que a história vai mostrar de muitas maneiras que foi transformador.”

cesar.avo@dn.pt

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