El Salvador abriu embaixada em Lisboa há três anos. Já houve a visita da ministra dos Negócios Estrangeiros e agora esta sua, vice-presidente . Como descreve as relações com Portugal?Existe uma história partilhada entre Portugal e a América Latina. Embora nela o Brasil seja o único país de língua portuguesa, a perspetiva ibero-americana sempre prevaleceu. E estas histórias partilhadas permitem-nos, no caso de El Salvador agora, com a relação que se abriu com Portugal, ter uma interação que devíamos ter fomentado muito antes. Acreditamos que são muitas as afinidades que podem fortalecer esta relação e, sobretudo, aproveitar o desenvolvimento de Portugal em diversas áreas, sobretudo nos setores marítimo e das pescas, áreas que estamos a desenvolver. Acaba de ser criada uma agência governamental focada na promoção da economia azul - ou seja, tudo o que se relaciona com os corpos de água, porque temos mais território no oceano do que em terra. El Salvador é um país pequeno e acreditamos que, desenvolvendo os recursos hídricos - rios, lagos e, sobretudo, o oceano - podemos dinamizar ainda mais a economia.Nos últimos anos, El Salvador tem apostado fortemente no turismo. É já o setor chave da economia?Nos últimos dois anos, o turismo tem sido a nossa principal fonte de divisas. Ultrapassou as indústrias têxtil e transformadora, que eram o nosso principal foco, as indústrias de cartão e vidro, que eram o nosso segundo maior setor, e a exportação de açúcar de cana. No ano passado, recebemos mais de quatro milhões de turistas estrangeiros. Somos o país com maior crescimento do turismo em toda a região. Superámos a Costa Rica. A estratégia assenta na ideia de que o desenvolvimento do turismo como indústria fundamental irá estimular setores da construção civil, pois atualmente temos um setor da construção muito forte, principalmente nas zonas costeiras, onde estão a ser construídos hotéis e restaurantes. Por outras palavras, ao impulsionar o turismo esperamos revitalizar outros sectores da economia. Outra grande aposta é a FinTech. El Salvador foi o primeiro país a adotar uma criptomoeda como moeda corrente, no caso o Bitcoin. Somos o único país do mundo que possui uma agência nacional de certificação para empresas dedicada aos ativos digitais. Mais de 60 empresas de todo o mundo vieram a El Salvador para obter a certificação e instalar-se. O compromisso com a economia digital e a criação do que chamamos o país Bitcoin é um dos aspetos que queremos desenvolver - ou seja, os serviços financeiros dentro da economia digital.Visitei El Salvador em 2008 para uma Cimeira Ibero-Americana. Era então descrito como um país muito perigoso. Como explica a redução extrema do crime?Sim, bem, de facto tínhamos a reputação de ser a capital mundial dos homicídios. Em agosto de 2015, ocorreram mais de 900 homicídios num único mês, o que significa que mais de 30 salvadorenhos foram assassinados todos os dias. Isto levou a que o país fosse classificado como de altíssimo risco. Após a tomada de posse do presidente Bukele em 2019, o balanço de homicídios herdado dos dois governos anteriores, ambos liderados pela FMLN, atingiu os 41.000 nessa década. Combater este flagelo foi a principal tarefa definida pelo governo. Já passaram mais de 1180 dias sem qualquer homicídio. Isto permitiu que El Salvador se tornasse um destino turístico. Agora desenvolvemos eventos internacionais, como o Miss Universo, realizado em El Salvador há dois anos. Os Jogos Centro-Americanos e das Caraíbas, que reuniram mais de 5000 atletas, também foram realizados em El Salvador. Todos os anos recebemos o Mundial de Surf. O país é agora o mais seguro de todo o Hemisfério Ocidental, do Canadá à Argentina, incluindo as Caraíbas. A taxa de homicídios desceu de 105 homicídios por 100 mil habitantes - que era uma pandemia, segundo a ONU - para 1,8 homicídios por 100 mil habitantes.São muitas as críticas internas e externas à política de combate aos gangues, e ao sistema prisional. Como reage a quem fala de violações dos direitos humanos?A resposta é simples: as críticas vêm de ONG, tanto nacionais como sediadas em Washington, ou a Amnistia Internacional, em Londres, e de alguns meios de comunicação que repercutem estas alegações. A resposta é simples: quando ganhámos as eleições em 2019, os dois partidos que governaram o país nos últimos 30 anos foram derrotados. Depois, um desses partidos, a FMLN, tinha vários membros que se juntaram a uma organização de defesa dos direitos humanos chamada Cristosal. Foram estes que começaram a levantar a questão das violações dos direitos humanos na política de segurança do governo. A repercussão que obtiveram deveu-se às ligações da FMLN, sobretudo em Washington, e esta narrativa começou a ganhar forma, de que existiam violações dos direitos humanos. Portanto, esta agenda interesseira dos partidos políticos, que perderam toda a credibilidade e apoio popular, foi assumida pelas ONG, que são as responsáveis pela divulgação desta narrativa. E esta narrativa de que há violações dos direitos humanos ou de que o estado de exceção permite violações dos direitos humanos, que ainda é muito forte, especialmente em Washington, com alguns senadores a fazerem campanha pelas suas próprias políticas internas com base nestas acusações, desfaz-se por si só.O estado de exceção vai continuar em vigor?Vai continuar; já está em vigor há quatro anos. Está a ser prolongado de 30 em 30 dias, e é isso que quero explicar: 94% da população salvadorenha diz estar satisfeita com o presidente e com as políticas governamentais, e quando questionados se o estado de exceção deveria ser suspenso, 97% dizem que deve continuar. O estado de exceção ainda é importante para o controlo dos gangues, as chamadas maras?Foi o instrumento que nos permitiu tê-los na prisão. Também foi outro erro, sobretudo aqui na Europa houve uma distorção, pensando que o estado de exceção era como um estado de sítio, que as pessoas não se podiam mobilizar, que não podiam opinar. Disse-me um funcionário do Quai D’Orsay, em França, que estava preocupado porque como haveria eleições se as pessoas não se pudessem mobilizar, e eu disse-lhe: veja, o regime de exceção não afeta, nem nunca afetou, nenhuma das liberdades públicas. O estado de exceção, hoje, afeta apenas duas garantias constitucionais de caráter individual, e apenas as pessoas ligadas a gangues. Uma delas é a exigência, segundo a nossa Constituição, de que uma pessoa detida administrativamente seja libertada ou apresentada a um juiz no prazo de três dias. Esta garantia está suspensa, e o Estado tem 15 dias para manter uma pessoa sob custódia; após este período, deve libertá-la ou apresentá-la a um juiz. A outra garantia é a inviolabilidade da correspondência: ninguém pode abrir as minhas cartas ou aceder ao meu telefone. Essa também está suspensa. Quando alguém é detido por suspeita de pertencer a um gangue, a primeira coisa que a polícia faz é pegar no telemóvel e começar a verificar as chamadas, os contactos e assim por diante. E é por isso que os salvadorenhos não sentem que isso afeta o seu dia a dia; pelo contrário, sentem-se seguras sabendo que estas pessoas estão a ser presas, porque a medida só se aplica a membros de organizações criminosas. Por outras palavras, é por isso que existe um apoio esmagador. Mas, externamente, existe essa narrativa, e as pessoas acreditam que o regime de exceção representa uma limitação às garantias constitucionais. Esta visão, no entanto, está a dissipar-se gradualmente graças aos turistas que chegam, pois os principais embaixadores que temos agora são as pessoas que regressam e partilham as suas experiências, como viveram, como passaram as férias. Por outras palavras, o clima de segurança, a atmosfera de harmonia e paz nas comunidades, que foi interrompida quando os gangues exerciam o seu domínio, regressou, e agora as pessoas sentem-se libertas. E foi isso que o presidente respondeu, quando lhe fizeram esta pergunta: “É verdade que vocês têm mais de 90 mil pessoas presas e que os direitos humanos foram violados?”, disse, “porque é que não olhamos para isto de outra perspectiva? Nós libertámos seis milhões de pessoas cujos direitos humanos estavam a ser violados por estes grupos criminosos, e agora as pessoas estão felizes, estão nas ruas, e os criminosos na prisão”.Como está a relação com os Estados Unidos? Existe cooperação em matéria de segurança, mas além disso, Donald Trump e o presidente Bukele têm uma certa proximidade?Penso que isso foi evidente durante o primeiro mandato do presidente Bukele, que coincidiu com o primeiro mandato do presidente Trump. Comunicavam, entendiam-se, tinham essa química, e foi isso que levou os democratas, o governo de Biden, a pressionar tanto o presidente Bukele quando chegaram ao poder, porque viam isso como uma questão de política interna. Creio que é esse o erro: pensar que o presidente Bukele estava a influenciar a política interna dos EUA, ou vice-versa. Considero que as relações são de Estado para Estado, de governo para governo, e muito cordiais e cooperativas. Quando o presidente Trump quis enviar os detidos do Tren de Aragua para a Venezuela, e esta se recusou a recebê-los, perguntou ao presidente Bukele se os podia receber na prisão Cecot salvadorenha, claro, assumindo pagar a sua estadia. Este acordo durou alguns meses, mas também gerou toda uma interpretação, como se El Salvador tivesse campos de concentração, disse um presidente latino-americano. Esta narrativa desmoronou-se. É claro que existe uma certa afinidade entre ambos os líderes que é uma questão pessoal, e a nível governamental as relações continuam a ser cordiais. Para nós, os EUA são estratégicos porque três milhões de salvadorenhos vivem lá - e é por isso que manter uma relação harmoniosa é tão importante. Recebemos muitos visitantes da diáspora salvadorenha nos EUA, que encontram agora condições para visitar as suas famílias e comunidades, algo que não conseguiam fazer antes devido à violência e às ameaças. Muitos que se arriscavam a ir eram mortos, extorquidos ou roubados, pelo que a diáspora não regressava às suas comunidades. Agora, sim regressam muitos. Além disso, o presidente Bukele chamou-lhe uma política de migração inversa, porque os salvadorenhos que deixaram o país na década de 1980 devido à guerra civil ou na década de 1990 e realizaram o sonho americano - conseguindo trabalhar, educar os seus filhos e poupar dinheiro - estão a regressar a El Salvador. Só o Banco Central informou que, no ano passado, mais de mil milhões de dólares foram repatriados pelos salvadorenhos para investir no país. Agora, ambicionam o sonho salvadorenho, que é regressar às suas comunidades, passar os seus últimos anos com as suas famílias, com a sua gente.Uma última questão, de carácter algo pessoal: a sua família também foi vítima da guerra civil da década de 1980. As feridas dessa guerra civil estão completamente cicatrizadas em El Salvador? Tentámos, na prática, cicatrizar estas feridas, e já passaram mais de 33 anos desde a assinatura dos acordos de paz. Houve muitas violações desses acordos, que deveriam ter sido implementados pelos governos na altura. O governo da ARENA foi o que assinou o acordo de paz. Depois, a FMLN governou de 2009 a 2019, e alguns dos acordos não foram cumpridos, sobretudo os referentes às vítimas. Foi isso que o presidente Bukele honrou. No primeiro dia do seu governo, o seu primeiro ato foi apagar o nome do coronel Monterrosa da Terceira Brigada, por ser o responsável pelo massacre de El Mozote, um dos maiores da guerra civil. Durante as negociações de paz, houve a decisão de que o seu nome deveria ser removido dos quartéis onde era homenageado. Nem a ARENA nem a FMLN o fizeram. Foi o presidente Bukele que retirou aquelas homenagens. De seguida, recebeu os familiares sobreviventes das vítimas de El Mozote na residência presidencial. E se as pessoas visitarem agora a zona vão encontrar uma comunidade completamente transformada, com escolas, ruas pavimentadas e serviços públicos. Outros aspetos estão a ser revistos, principalmente na área da justiça, pois a lei da amnistia, que tinha perdoado os crimes de guerra cometidos durante a guerra civil, foi revogada, tendo sido reabertos alguns casos. O caso dos padres jesuítas, por exemplo. E com isto, acreditamos que estas feridas irão cicatrizar, mas ainda há muito trabalho a ser feito para apoiar as vítimas, porque o que foi feito em alguns outros países onde estes conflitos internos ocorreram - políticas de reparação e não repetição - não foi implementado. Tal não pôde ser honrado porque, após o fim da guerra civil em 1992, que tinha objetivos e motivações fundamentalmente políticas e ideológicas, começou uma guerra social muito mais cruel, a guerra entre gangues. Durante três décadas houve mais de 100 mil vítimas, muito mais do que tivemos na guerra civil. Estas vítimas não foram honradas, e é isso que por vezes nos incomoda em relação a estas organizações que criticam as violações de direitos humanos no mandato do presidente Bukele, que trouxe a paz a essas comunidades, e se esquecem de todas as vítimas desse período. Assim sendo, procurámos implementar uma política de reparação para as vítimas e evitar a repetição dos acontecimentos que deram origem a estas estruturas criminosas, que foi fundamentalmente o abandono por parte do Estado. Porque estes órfãos da guerra, que começaram por cometer delitos menores nos bairros, mais tarde formaram estruturas ligadas ao tráfico de droga e a outras atividades de crime organizado quando membros de gangues presos nos EUA foram deportados para El Salvador e encontraram terreno fértil. Porquê? Por causa do abandono destes jovens por parte do Estado, da falha em lhes proporcionar oportunidades e, sobretudo, da cumplicidade de políticos e dirigentes dos dois partidos, que estão agora detidos..Trump elogia Bukele que recusa devolver imigrante deportado por "erro"