"Há 20 anos, a Europa vivia uma cristofobia, hoje vive uma amnésia cristã”
Gerardo Santos

"Há 20 anos, a Europa vivia uma cristofobia, hoje vive uma amnésia cristã”

Em Lisboa para a conferência da European Law Unbound Society, organizada pela Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa, Joseph Weiler, professor de Direito Europeu na New York University e em Harvard, falou ao DN sobre a identidade da Europa, a relação com os EUA e como Trump até pode ter um impacto positivo para fomentar a coesão da UE.
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As relações transatlânticas estão hoje mais frágeis, também devido às tensões entre os líderes europeus e a administração Trump. Que impacto poderá isso ter no projeto europeu?

Eu penso que a médio e longo prazo haverá um impacto positivo. É como uma criança que aprende a separar-se dos pais e a tornar-se autónoma. Se tivesse de resumir a atual estratégia de defesa europeia, usaria duas palavras: cavalaria americana. É a ideia de que “eles virão se precisarmos”. Isso era bom porque assim na Europa podíamos gastar dinheiro em manteiga e não em armas. Mas agora vivemos num mundo muito mais perigoso. Politicamente, Trump deveria ganhar o Prémio Carlos Magno pela integração europeia (risos). Também é positivo de outra forma, porque sempre foi um mundo bipolar. Primeiro eram os EUA e a União Soviética, agora é EUA e China. A Europa nunca emergiu como um verdadeiro terceiro pilar. O efeito Trump é que permitiria à Europa tornar-se um verdadeiro terceiro pilar como alternativa aos EUA e à China. Portanto, apesar de a curto prazo ser complicado, paradoxalmente Trump ajudou à integração europeia. 

Sabemos que é difícil ter 27 países unidos e a falar a uma só voz. Mais ainda se no futuro forem 30 ou mais. Quão difícil é para a Europa falar a uma só voz? 

É muito difícil por causa do pecado original. Houve o caso [Victor] Orbán e agora temos o novo primeiro-ministro da Eslovénia [Janez Jansa]. O pecado original é, após 70 anos de integração europeia, ainda permitir que um único Estado possa vetar uma decisão. Não estou a dizer que se deva mudar para votação por maioria simples em tudo, mas a realidade vai obrigar a dizer que um veto só pode bloquear a União Europeia se forem pelo menos três países, e não apenas um. Seria uma reforma suficiente e politicamente exequível. Acho muito frustrante o que aconteceu há umas semanas, quando queriam tomar uma posição firme contra Israel e a Eslovénia vetou. Um dos 27 Estados-membros bloqueou, e não foi a Alemanha, nem a França, nem a Espanha, nem a Itália, nem a Polónia, os grandes Estados-membros, foi a Eslovénia, com 2 milhões de habitantes. Penso que isto obrigará a repensar o veto e a passar para a votação por maioria. E onde os tratados preveem o veto, terão de ser necessários pelo menos três Estados para vetar. 

Para fazer essas mudanças, teriam de alterar os tratados… e isso exige unanimidade.

Teriam... É complicado de explicar. Se colocarem em cima da mesa: "Queremos alterar o tratado para exigir dois ou três votos para um veto", e um Estado disser: "Vou vetar isso", o plano é: os 26 que querem fazer isso dizem: "Ok, então vamos sair da União Europeia". O país pode manter o seu veto numa União Europeia de um só Estado e enquanto os restantes estariam a reentrar com o tratado revisto. Não terá de acontecer, mas a ameaça será suficiente.

Um sector onde a Europa tem sentido a pressão dos EUA é na regulamentação europeia — a administração Trump tem criticado certas regras europeias que afetam as empresas americanas, nomeadamente em áreas como a tecnologia, a sustentabilidade e a regulamentação do mercado. Essa pressão pode ameaçar a autonomia regulamentar da União?

Eis a realidade: a Europa orgulha-se muito de regular o ciberespaço - o chamado “Efeito Bruxelas”. Eu digo à Europa: vocês regulam e nós inovamos. Nos últimos 10 anos, a América (não o governo norte-americano) investiu 10 vezes mais dinheiro em inteligência artificial do que a Europa. Se existe IA na Europa, ela vem dos EUA ou da China. Qual o sentido de regulamentar se toda a inovação está a acontecer na China e nos EUA?Portanto, espero mesmo que a pressão dos EUA ameace a regulamentação, porque há excesso de regulamentação e isso está a afetar a economia europeia. A Europa precisa de repensar a sua estrutura regulamentar. Há também uma diferença cultural. Na Europa, a maioria dos licenciados procura um emprego seguro na administração, com a reforma garantida. Antes disso, quando vão para a universidade, escolhem Medicina ou Direito, talvez Gestão. Ora em Stanford, metade da turma do meu filho foi para startups. É um risco de vida. Pode entrar numa startup e, depois de seis anos, não ter nada. Existe um espírito de correr riscos nos EUA que não existe na Europa. É uma questão cultural. 

FOTO: Gerardo Santos

Também tem a ver com a mentalidade americana que aceita muito mais facilmente o fracassado do que a europeia - se falhaste, não faz mal, volta a tentar. Na Europa não é bem assim…

Concordo, mas isso também é cultural. É isso que permite às pessoas correr riscos, porque as pessoas dizem: "Falhou, mas correu o risco. Nós respeitamos isso e vai conseguir um emprego noutra startup, porque o tipo de pessoa que querem contratar é alguém disposto a arriscar a sua carreira." A questão cultural é difícil de mudar. Mas penso que a ameaça à regulamentação europeia é positiva, porque a Europa regula demasiado em detrimento da inovação. Só existe uma plataforma digital europeia global: o Spotify. É a única. Todas as outras, WhatsApp, Meta, Instagram, Amazon ou Weibo são americanas ou chinesas. Onde está a Europa? 

Em 2003, no seu livro Uma Europa Cristã, cunhou o termo “cristofobia”, para referir o medo das raízes cristãs na sociedade europeia e ocidental. E dizia que a Europa se estava a afastar desse medo… Mais de 20 anos depois estamos a afastar-nos deste medo ou estamos a voltar para ele? 

Escrevi esse livro, que foi publicado em Portugal, em que falei de “cristofobia”. E no ano passado publiquei em Espanha "A Europa ainda é cristã?" A ideia era: 20 anos depois de 'Uma Europa Cristã', o que é que eu penso?" E falei sobre a “amnésia cristã”. A amnésia cristã é pior do que a cristofobia, porque na cristofobia pelo menos está-se envolvido. A amnésia cristã, não sei o que é. Agora, acho que é mau para a cultura europeia porque como é que se explica a cultura europeia sem as suas raízes cristãs? Portanto, acho que não é só cristofobia, agora é amnésia cristã. E isso é ainda pior. Veja a geração dos anos 1950, quando a Europa iniciou o movimento para se tornar laica. Foram os pais que abandonaram a igreja. Lembro-me de uma pessoa me dizer: "Você não compreende o cristianismo. Tudo o que ouvíamos era ‘não se masturbem’ e ‘não votem nos comunistas’”. Isso era cristianismo. Esta primeira geração passou aos filhos a ideia de "Não podes ser cristão". Esta segunda geração, as únicas vezes que foi à igreja foi para casar e talvez quando enterraram os pais. Foi o único contacto com a religião. Agora, a igreja está muito feliz porque há um movimento de jovens a voltar à fé. Mas é minúsculo e estão a fazê-lo em forma de protesto. Na geração anterior tornar-se laico foi um protesto, agora tornar-se cristão é um protesto. 

Acha que esse pequeno regresso à religião é também uma reação à imigração de pessoas de diferentes religiões para a Europa? 

Em alguns setores, com certeza. Por exemplo, em França apenas 7% da população vai à missa. E esta redescoberta do cristianismo pela direita é anti-muçulmana. E agora também é anti-judaica, com Gaza, etc. Portanto, de repente, para estas pessoas, ser anti-muçulmano e anti-judaico é aceitável, mas não creio que seja essa a principal motivação. Quando olho para os jovens, a explicação mais fácil é que seja uma forma de protestar, de ser contra-cultural. Para os outros, a dada altura, as pessoas sentem o vazio onde tudo é medido pelo sucesso material e pela fama, etc. Eu acho que todo o ser humano quer que a sua vida tenha algum tipo de significado, para além de sustentar a família e criar os filhos, etc. Quando se é jovem, há tempo para tudo. Mas a dada altura percebemos que não vamos conseguir fazer tudo o que queremos e começamos a procurar algum significado na nossa existência para além do sucesso, da segurança, da prosperidade. O regresso à religião é uma tentativa de dar algum sentido à vida. Isso também faz parte do impulso de retorno. Para os jovens, é uma questão contra-cultural, para os mais velhos é: a minha vida resume-se ao meu trabalho, ao meu salário? E a igreja está a mudar. Durante séculos, havia o Estado confessional. Não precisava de se preocupar. Dei uma palestra há uns meses e choquei a plateia ao dizer que existem duas religiões principais na Europa: uma maioritária e outra minoritária. Todos pensaram que eu diria cristianismo e islão. Mas eu disse: a religião maioritária é o cristianismo e a minoritária é o secularismo. A Igreja começa a perceber que arrisca ser uma religião minoritária e que não pode contar com ditadores como Salazar, Franco, etc. a dizer que toda a gente tem que ser católica. A igreja compreende que precisa de oferecer algo mais significativo para além de "não se masturbe" e "não vote em comunistas". 

O professor é americano mas também tem nacionalidade espanhola e italiana. Estudou na Europa, deu aulas na Europa, agora dá aulas de Direito Europeu na América. Na sua opinião, o que é que os americanos não entendem sobre a Europa? 

Os americanos não percebem nada. Estou a falar a sério. Se pedir a Trump, ou se pedir ao secretário de Estado Marco Rubio, para dizerem os 27 estados-membros da União Europeia, nem pensar. Os EUA são uma sociedade provinciana. Veja, o desporto principal é o basebol. E o campeonato de basebol, no qual participam dois países, é designado por World Series. Eu chamo-lhe a síndrome da World Series. O mundo está entre o Atlântico e o Pacífico. É um país rico e autossuficiente. Precisam do mundo mais do que pensam, mas acham que não precisam. Simplesmente não entendem. Não conhecem a Europa. Sabe quantos americanos nunca saíram dos EUA, exceto para passar férias no México? Um número enorme. Se pensam na Europa, pensam que deve ser algo semelhante aos EUA, mas não é. Portanto, não se vão preocupar com isso. Dou aulas sobre a União Europeia na universidade em Harvard e agora na NYU. A maioria dos meus alunos não é americana, não é europeia, são chineses, coreanos. Dizem que precisavam de saber o que é a Europa. Os americanos? Perguntam porque razão devem fazer este curso? Então a resposta é: Não percebem nada da Europa. E isso acontece até com os políticos sérios. Não é só a população que não vai para a universidade.

Acompanha a Europa há muitas décadas, como vê as mudanças que aconteceram e o caminho que estamos a seguir?

A Europa está numa encruzilhada por causa da nova situação geopolítica. Acho que é um mundo mais perigoso do que durante a Guerra Fria. Não sou alarmista, mas a Europa tem um historial; são especialistas em iniciar guerras mundiais. A nova situação geopolítica oferece uma oportunidade real, mas seriam necessárias algumas mudanças estruturais Falamos sobre governança. Não podemos permitir que a Eslovénia bloqueie os 27 Estados-membros. Tem de haver uma mudança. Vou dizer uma coisa que Bruxelas não gosta de ouvir: a Europa tem um orçamento minúsculo. Quando querem fazer alguma coisa, os Estados têm logo de dizer quanto vai custar e quem vai pagar. Porque com cada alteração regulamentar tem de haver responsabilidade fiscal. Não existe um imposto europeu. Se eu fosse o czar da Europa, qual seria a minha única mudança? Eu criaria um imposto europeu sobre o rendimento. Tem de haver uma mudança aí, e este é um momento de grande oportunidade, mas não tenho a certeza se os europeus serão capazes de fazer o que tem de ser feito.

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