Guerra gelada à vista em torno do Ártico

Encontro em Reiquiavique dos países do Ártico junta chefes da diplomacia dos EUA e da Rússia e põe em relevo ambições de Moscovo.

O secretário de Estado norte-americano Antony Blinken e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergei Lavrov vão reunir-se amanhã à margem da reunião do Conselho do Ártico, que vai decorrer em Reiquiavique, e na qual a Rússia assume a presidência rotativa. Na agenda estará a preparação de uma cimeira entre os presidentes Joe Biden e Vladimir Putin no próximo mês e muitos temas em que estão em total desacordo, com o Ártico à cabeça.

Na capital da Islândia, que recebeu a cimeira de 1986 entre Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan, decisivo passo para o início do fim da Guerra Fria, prenuncia-se uma guerra gelada depois das declarações dos chefes da diplomacia. "Há muito que é do conhecimento geral que este é o nosso território, a nossa terra. Estamos encarregados de manter a costa do Ártico segura. Tudo o que a Rússia está a fazer ali é absolutamente legal", disse Lavrov na segunda-feira.

O Ártico é o território mitológico onde o "Rasputine de Putin", o cientista político Aleksandr Dugin, coloca a "reserva geopolítica" do império eurosasiático. Em 2015, Moscovo reviu em alta as suas pretensões territoriais e apresentou às Nações Unidas a reclamação de 1,2 milhões de quilómetros quadrados de plataforma marítima ártica, estendendo-se por mais de 350 milhas náuticas (650 quilómetros) da costa. Em paralelo, expandiu as bases militares e a sua presença, que conta agora com arsenal nuclear.

À chegada à Islândia, o secretário de Estado norte-americano não escondeu a sua preocupação com a militarização do Ártico e tentou baixar as tensões, tendo apelado de forma implícita à Rússia para "evitar declarações" como as realizadas na segunda-feira, e expressado "esperança" de que a Cimeira do Ártico, que se estende até quinta-feira, "reforce a cooperação pacífica na região". "Precisamos de avançar, todos nós, incluindo a Rússia, com base nas normas e compromissos que cada um de nós assumiu, e evitar declarações que os enfraqueçam", comentou a propósito das declarações de Sergei Lavrov.

Blinken rejeitou os apelos russos para se retomar uma componente militar do Conselho do Ártico e manifestou inquietação com a crescente atividade militar da Rússia. "Estamos preocupados com algumas das recentes atividades militares no Ártico", disse. "Isso aumenta o perigo de acidentes e erros de cálculo e mina o objetivo comum de um futuro pacífico e sustentável para a região. Por isso, temos de estar vigilantes quanto a isso". Já Moscovo queixa-se de que a Noruega tudo faz para justificar a presença da NATO na região.

Blinken também fez saber o desacordo total com a Rússia sobre "reivindicações marítimas ilegais, incluindo regras sobre o trânsito de navios estrangeiros na rota do Norte".

cesar.avo@dn.pt

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