O conflito no Médio Oriente entrou este fim de semana numa nova fase, com um ultimato de Donald Trump e a resposta do Irão, que ameaça agora atacar as centrais de energia e de dessalinização de Israel, da Árabia Saudita e dos países do Golfo.No sábado, Trump fixou um prazo de 48 horas, que termina esta segunda-feira, para que o Irão reabra totalmente o estreito de Ormuz. O presidente dos Estados Unidos garantiu que, caso o regime de Teerão não reabra o estreito, as suas centrais energéticas serão destruídas, deixando o país às escuras. Trump está também a avaliar o envio de mais forças terrestres para o Médio Oriente, para além dos dois mil fuzileiros que estão a caminho para possíveis operações nas costas do Irão.De acordo com a agência Reuters, a resposta chegou através do presidente do parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf. No X, este responsável prometeu que as infraestruturas críticas - nomeadamente centrais energéticas e de dessalinização - na região serão “destruídas de forma irreversível”. Para países como a Arábia Saudita, os Emirados e o Qatar, que dependem de centrais de dessalinização para terem acesso a água potável, a ameaça do Irão é quase de natureza existencial. O caso da Arábia Saudita é paradigmático: cerca de 70% da sua água potável é obtida por esta via. A destruição das centrais que abastecem cidades como Riad, Jeddah ou Damman deixaria dezenas de milhões de pessoas sem água, no espaço de poucos dias.Por outro lado, a destruição das centrais energéticas tornaria inabitáveis as cidades da Árabia Saudita e dos seus vizinhos, devido às elevadas temperaturas. Um apagão generalizado causaria uma crise humanitária. Os analistas ouvidos pela Reuters salientam que os países do Golfo Pérsico consomem cinco vezes mais eletricidade, per capita, do que o Irão. . Nos mercados financeiros, o ultimato de Trump e a escalada das ameaças de Teerão estão a causar apreensão. “A ameaça do presidente Trump criou uma bomba-relógio de 48 horas, de elevada incerteza para os mercados”, disse Tony Sycamore, analista da IG Market, citado pela agência noticiosa. O especialista acredita que os mercados vão abrir em queda, esta segunda-feira, devido a este contexto de incerteza agravada.Irão lança os maiores ataques a Israel desde o início da guerra Para além de afirmar que poderá atacar estas infraestruturas vitais, o que afetaria a vida de dezenas de milhões de pessoas no golfo, o Irão ainda respondeu, no sábado e no domingo, com os maiores ataques a Israel desde o início do conflito. O primeiro foi no sábado e deixou pelo menos 43 feridos na cidade de Dimona. Situada no deserto de Negev, a cidade detém um centro de investigação nuclear e de fornecimento de energia. Embora Israel afirme que este complexo é exclusivamente dedicado à investigação científica, a unidade é internacionalmente referida como sendo a detentora do arsenal nuclear não declarado de Israel. Poucas horas antes, o governo irariano tinha acusado os EUA e Israel de atingirem a central nuclear de Natanz, que fica a cerca de 300 km de distância de Teerão. Esta unidade faz o enriquecimento do urânio e a ação está a ser considerada a primeira investida contra uma central nuclear desde o início da guerra, há quatro semanas. Depois disso, no domingo, o Irão atacou a cidade israelita de Arad, também no sul do país, tendo causado pelo menos 59 feridos, seis dos quais em estado grave. As forças armadas de Israel garantem que conseguem interceptar 92 por cento dos mísseis que o Irão tem enviado contra o país. A confirmar-se esta estimativa, oito em cada cem mísseis iranianos conseguem iludir as defesas de Israel e dos Estados Unidos na região, atingindo os seus alvos. Terá sido o caso dos que caíram em Dimona e Arad.A ameaça nuclearOs ataques deste fim de semana entre Estados Unidos, Israel e Irão fizeram a comunidade internacional externalizar ainda mais apreensão com as possíveis consequências de um acidente nuclear em decorrência das investidas destes países contra as unidades e equipamentos que trabalham com este tipo de energia. No domingo, o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que “a guerra no Médio Oriente atingiu um estágio perigoso”, numa mensagem na rede social X. Tedros Adhanom Ghebreyesus ainda afirmou que “a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA em inglês) está a investigar os incidentes” e que “não foram relatados indícios de níveis anormais ou elevados de radiação fora das instalações”.O complexo iraniano em Natanz já tinha sido atacado pelos EUA no ano passado. Segundo o jornal israelita Haaretz, a administração de Donald Trump terá utilizado desta vez bombas de penetração, conhecidas como “bombas antibunker” por serem capazes de perfurar abrigos subterrâneos. Segundo a estação de telvisão Al Jazeera, pelo menos seis cientistas nucleares iranianos foram mortos no ataque ao completo de Natanz e outros no sábado. Acabar com uma alegada arma nuclear que o Irão estará a desenvolver foi um dos objetivos apontados pelos Estados Unidos e Israel logo no início desta guerra.