O último dia de Jorge Messias antes do exame oral a que será submetido esta quarta-feira, 29 de abril, no Senado Federal do Brasil, resume o perfil do escolhido por Lula da Silva para a 11.ª vaga no Supremo Tribunal Federal (STF): além de conversas avulsas com senadores ainda indecisos sobre a aprovação, o jurista entrou em jejum espiritual, com mais orações do que de costume e menos refeições do que o habitual. Sim, Lula indicou um cristão evangélico, da igreja Batista Cristã, para a corte.O objetivo político do presidente brasileiro é tentar capturar um segmento da população que, por força do conservadorismo religioso e da chamada “teologia da prosperidade”, se sente muito mais próximo da direita e, por extensão, de Jair e Flávio Bolsonaro, candidatos presidenciais em outubro de 2022 e em outubro de 2026, respetivamente. Porque Messias, ao contrário da maioria das lideranças evangélicas brasileiras, foi um fiel colaborador dos governos de Dilma Rousseff e agora do de Lula, onde exerceu, até esta indicação, o cargo de ministro da Advocacia-Geral da União.Mas o plano de Lula colide com um Senado maioritariamente de direita. Para ser indicado, Messias precisa, numa primeira fase, da aprovação de 14 dos 27 membros que compõem a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da casa, e, depois, do voto favorável de 41 dos 81 senadores em plenário, números que não estão ainda assegurados. Jogam, porém, a favor de Lula e do jurista dois fatores: o presidente da CCJ e o relator da indicação são aliados do governo. David Alcolumbre, o presidente do Senado, também o é, mas está magoado com Lula por não ter sido previamente avisado da escolha e, devido a isso, não tem feito lóbi pelo candidato. Segundo as contas de Lula e de Jaques Wagner, o líder parlamentar do Partido dos Trabalhadores na câmara alta do Congresso, o jurista tem 44 votos certos e 47 muito prováveis – mas a votação é secreta, o que tem feito pairar sobre o Congresso uma frase antiga de Tancredo Neves, nomeado primeiro presidente da República pós-ditadura militar: “Voto secreto dá uma vontade danada de trair…” E, se o nome for rejeitado, será a primeira vez, desde 1893, que isso acontece. Naquela ocasião, o presidente Floriano Peixoto indicou por decreto Cândido Barata Ribeiro para o STF – Ribeiro, médico de profissão, foi reprovado por 60 votos a seis por não ter “notório saber jurídico”, uma das condições para o cargo.A Messias, natural do Recife, 45 anos, graduado em direito pela Universidade Federal de Pernambuco, com mestrado e doutoramento em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional pela Universidade de Brasília, 18 anos de funções relevantes de Estado e atual Advogado-Geral da União, não falta “notório saber jurídico” para ocupar a vaga de Luiz Roberto Barroso, que resolveu reformar-se antes da idade limite em outubro de 2025.Mas, num contexto de enorme tensão dos poderes executivo e legislativo com o poder judicial, verbalizado vezes sem conta ao longo do governo Bolsonaro e durante o julgamento do golpe de estado protagonizado pelo ex-presidente e aliados militares e civis, Lula vem sendo criticado pelo teor demasiado personalista das indicações. Antes, nomeou o ministro da Justiça do seu governo, Flávio Dino, e o próprio advogado pessoal, Cristiano Zanin.Bolsonaro também foi criticado quando optou por um ministro evangélico do seu governo, André Mendonça, e um juiz muito próximo ideologicamente, Kássio Nunes Marques. Mas a prática de nomeação de aliados chega até Gilmar Mendes, o atual decano da casa, indicado por Fernando Henrique Cardoso depois de ter exercido funções jurídicas no partido do então presidente, o PSDB, e de servir no seu governo como ministro da Advocacia-Geral da União, exatamente o mesmo cargo que Messias agora ocupava.No meio da tensão às vésperas do exame oral e da votação a que será submetido, Jorge Messias, enquanto jejua, responde no seu estilo religioso: “Estou em paz, Deus proverá a aprovação”..O Carnaval correu mal a Lula no sambódromo e na política."Brasil e Portugal vivem melhor momento", diz Lula da Silva, enquanto Montenegro "esclarece" sobre imigração