Andy Burnham a sair do número 10 de Downing Street. Esta é uma das primeiras decisões de política externa desde que se tornou primeiro-ministro, em julho.
Andy Burnham a sair do número 10 de Downing Street. Esta é uma das primeiras decisões de política externa desde que se tornou primeiro-ministro, em julho.FOTO:EPA/TOLGA AKMEN

Governo britânico denuncia "limpeza étnica" e anuncia sanções contra colonatos israelitas na Cisjordânia

Medidas incluem a proibição da importação de bens produzidos nos colonatos, considerados ilegais ao abrigo do direito internacional. Portugal assina declaração conjunta. Israel e EUA criticam sanções.
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O chefe da diplomacia britânico, Ed Miliband, anunciou esta terça-feira (8 de setembro) o boicote às importações de bens dos colonatos israelitas na Cisjordânia ocupada e sanções, numa das primeiras grandes decisões sobre política externa do primeiro-ministro, Andy Burnham, desde que chegou ao poder em julho.

O anúncio surge após críticas de Israel e dos EUA, com Miliband a dizer que o Reino Unido não está sozinho e que outros países vão juntar-se nesta decisão, como França e Canadá.

Portugal também está entre um conjunto de países que assina uma declaração conjunta onde confirma a sua intenção de "introduzir restrições nacionais e/ou apoiar restrições europeias ao comércio de bens com sedes que sejam ilegais ao abrigo do direito internacional, ou que estejam a considerar ativamente estas e outras medidas, em conformidade com os seus procedimentos nacionais".

E acrescenta: "O governo de Israel deve interromper imediatamente a expansão dos colonatos e dos poderes administrativos civis, garantir a responsabilização pela violência dos colonos e investigar as denúncias contra as forças israelitas."

Sanções britânicas

"Foram aprovados mais colonatos nos quatro anos deste governo israelita do que nos 20 anos anteriores", afirmou Miliband, que fala em "limpeza étnica" em partes do território ocupado, perpetrado por "colonos terroristas". E insistiu que a ocupação é "ilegal".

O ministro lembrou a definição de limpeza étnica da ONU: "uma política deliberada, concebida por um grupo étnico ou religioso, para remover, por meios violentos e aterradores, a população civil de outro grupo étnico ou religioso de certas áreas geográficas".

Miliband confirmou, no seu discurso, que o Reino Unido "irá introduzir uma proibição de importação de mercadorias provenientes de colonatos ilegais nos territórios ocupados". E que isso implicará a elaboração de um novo regime de sanções, que terá "isenções religiosas apropriadas".

O governo britânico "tomará medidas contra empresas e indivíduos específicos que prestam serviços como construção, infraestruturas, financiamento ou imobiliário para a expansão dos colonatos".

Miliband começou a sua intervenção no Parlamento a recordar a sua história pessoal como descendente de judeus sobreviventes do Holocausto e de como Israel acolheu a sua avó. Lembrou também as visitas a Telavive nos anos 1970.

O ministro reiterou que é errado questionar o direito de Israel a existir, insistindo que o país tem direito à sua defesa. Mas lembrou que "não há contradição" entre o seu apoio "inabalável" a Israel e o apoio "ao Estado da Palestina".

Elogiando o facto de o anterior governo, de Keir Starmer, ter reconhecido o Estado da Palestina, Miliband citou Burnham, que estava sentado logo atrás de si, que disse que "o governo trabalhista não fez o suficiente".

E anunciou: "hoje marca o início de uma nova abordagem", deixando claro que "o nosso argumento não é contra o povo de Israel, com quem o Reino Unido tem laços inabaláveis". Mas é contra "a conduta do seu governo".

O governo britânico justifica a decisão com a aceleração da expansão dos colonatos nos últimos meses e, em particular, com o avanço do projeto E1, que prevê mais de 1200 novas habitações entre Jerusalém Oriental e o bloco de colonatos de Maale Adumim. Os críticos do plano consideram que este poderá comprometer a viabilidade territorial de um futuro Estado palestiniano, ao fragmentar a Cisjordânia.

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A medida representa um endurecimento da posição britânica face a Israel e surge num contexto de crescente violência de colonos contra palestinianos na Cisjordânia.

Sob o governo de Starmer, Londres já tinha imposto sanções a colonos e organizações acusadas de envolvimento em ataques contra civis palestinianos, mas as medidas desta terça-feira (8 de setembro) alargam a pressão à esfera comercial.

Resposta de Israel e dos EUA

O presidente de Israel, Isaac Herzog, nem esperou pelo anúncio oficial de Miliband no Parlamento para reagir às notícias sobre o que era esperado.

Herzog alegou que o Reino Unido correria o risco de ficar “do lado errado da História”, com a aplicação de sanções, que apelidou de "um grave erro de cálculo".

O presidente considerou ainda que uma decisão deste tipo representaria uma interferência nas eleições israelitas previstas para o final de outubro e defendeu que as restrições acabariam por prejudicar também trabalhadores e empresas palestinianas.

"As sanções não são a solução. O diálogo é. Digo a todos os governos estrangeiros: Parem! Abandonem o beco sem saída das sanções e dos boicotes. E voltem-se para o diálogo construtivo e para a cooperação”, acrescentou, citado pelo site The Times of Israel.

Também o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich (da extrema-direita), condenou os planos britânicos e chegou a defender a expulsão do embaixador do Reino Unido em Israel caso as sanções sejam concretizadas.

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Do lado norte-americano, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, classificou as medidas como “irracionais” e acusou Londres de discriminação contra Israel.

Huckabee advertiu que poderá haver uma resposta norte-americana às sanções e sugeriu possíveis consequências económicas para empresas britânicas.

Andy Burnham falou ao telefone com o presidente norte-americano, Donald Trump, na noite de segunda-feira (7 de setembro), e "enfatizou a importância de uma solução de dois Estados", mas não forneceu outros detalhes da conversa.

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