"O mais novo presidente da História nomeou o mais jovem primeiro-ministro da História. Um símbolo de audácia, a confiança que ele deposita na juventude”. As palavras são de Gabriel Attal pouco depois de ontem ter assumido, aos 34 anos, o cargo de primeiro-ministro de França, uma escolha de Emmanuel Macron para tentar dar um novo fôlego ao seu atribulado segundo (e último) mandato, marcado até agora por leis polémicas, deserções no seu campo político, o avanço da extrema-direita e uma quebra de popularidade..E o escolhido para tentar reverter esta situação foi Gabriel Attal, descrito por muitos como uma “estrela em ascensão” e apontado recentemente por uma sondagem da IPSOS como o político francês que colhia a opinião mais favorável por parte dos eleitores. O que o torna também num nome a ter em conta para uma possível candidatura às presidenciais de 2027..“Caro @GabrielAttal, sei que posso contar com a tua energia e empenho para pôr em prática o projeto de revitalização e regeneração que anunciei. De acordo com o espírito de 2017: superação e ousadia. Ao serviço da nação e do povo francês”, escreveu Macron na rede social X..Assumidamente homossexual, o primeiro a liderar um governo em França, Gabriel Attal é descrito como um “bom aluno”, ou mesmo como “a melhor encarnação do ADN macronista”, embora, curiosamente, nunca tenha sido apontado como fazendo parte do círculo mais próximo do presidente, ao contrário de outros nomes que chegaram a ser apontados como potenciais líderes do governo, como Sébastien Lecornu ou Julien Denormandie..O caminho ascendente de Attal até à liderança do governo começou em 2016 quando abandonou o Partido Socialista Francês para se juntar à campanha presidencial de Emmanuel Macron e que culminou com a eleição um ano depois de ambos, um para Eliseu e outro para a Assembleia Nacional. .Já em 2018, com 29 anos, juntou-se ao governo como secretário de Estado da Juventude (também aqui o mais novo membro de um governo desde o início da V República). Desde então foi porta-voz do governo, ministro das Finanças, tendo defendido a polémica reforma do sistema de pensões e, desde julho, era titular da pasta da Educação, tendo-se empenhado no combate ao bullying, de que ele próprio disse ter sido vítima em adolescente, e que lhe garantiu uma grande popularidade. A proibição do uso de abayas islâmicas nas escolas também lhe granjeou o apoio dos conservadores. .No seu primeiro discurso como primeiro-ministro, Gabriel Attal começou por colocar a escola no centro das suas prioridades. “Reafirmo a escola como a mãe das nossas batalhas, aquela que deve estar no centro das nossas prioridades e à qual darei como primeiro-ministro todos os meios de ação necessários ao seu sucesso”..Attal definiu também “três grandes eixos” para “transformar a nossa economia” a fim de “liberar o potencial francês”: a valorização do trabalho, a libertação da economia, em particular com a simplificação drástica da vida das empresas, e a aposta na juventude, “cujo talento está apenas à espera de ser expresso”. Ainda não há uma data para a apresentação do novo governo, mas Attal disse que iria reunir-se ainda esta semana “com as forças vivas do país”..Uma continuação das políticas impopulares.A oposição criticou a nomeação de Gabriel Attal, que interpretam como uma continuação das políticas impopulares do presidente Macron. “O que é que os franceses podem esperar deste quarto primeiro-ministro e deste quinto governo em cinco anos? Nada”, escreveu na rede social X a líder da extrema-direita, Marine Le Pen..Já para o líder do partido de extrema-esquerda A França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, “Attal retoma o seu lugar de porta-voz, a função de primeiro-ministro desaparece (...) Desgraça para o povo cujos príncipes são crianças”..Na mesma linha, o primeiro secretário do Partido Socialista, Oliver Faure, afirmou que, com esta nomeação, “Macron está a suceder-se a si próprio”..Mais branda foi a direita tradicional, com o líder d’Os Republicanos, Éric Ciotti, a pedir ao novo governo “clareza” para fazer avançar o país..Borne assume reformas polémicas.A primeira-ministra cessante mostrou ontem a sua gratidão “à equipa governamental que teve a honra de liderar”, aos deputados da bancada do Renascimento (o partido de Macron), que irá agora integrar, mas também aos eleitos pela oposição “que escolheram o diálogo e o compromisso em vez do bloqueio”..Na cerimónia de transferência de poderes para Gabriel Attal, Elisabeth Borne, a segunda mulher a liderar um governo em França, disse também estar “orgulhosa do trabalho realizado nestes quase 20 meses”, referindo-se, entre outras coisas, às polémicas lei da imigração e reforma do sistema de pensões, que contribuíram para a queda de popularidade de Emmanuel Macron e do seu governo..“Nunca recuei perante nenhum obstáculo. Nunca desisti de nenhuma reforma. Realizei os projetos que pareciam certos e necessários para o nosso país. E mantive, sem vacilar, o rumo traçado pelo presidente da República”, disse ainda Borne. .ana.meireles@dn.pt