As Nações Unidas são hoje uma organização em risco de “colapso financeiro iminente” que está a falhar naquele que é o seu principal objetivo, manter a segurança e a paz mundial, refém do veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Os mesmos cinco países - China, EUA, França, Reino Unido e Rússia - que têm a palavra final na escolha do sucessor de António Guterres, apesar de a eleição ser agora mais transparente. A corrida para ser o próximo secretário-geral da ONU (ou talvez a primeira secretária-geral) começa esta terça-feira (21 de abril). A antiga presidente chilena e alta-comissária para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, é a primeira a enfrentar, durante três horas, as questões dos 193 Estados-membros e de organizações não-governamentais. O palco será depois do diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, o diplomata argentino Rafael Grossi. Na quarta-feira (22 de abril) é a vez da atual secretária-geral da ONU Comércio e Desenvolvimento e ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan, e do ex-presidente senegalês Macky Sall. É a segunda vez que os candidatos a liderar a ONU são sujeitos a este processo público, que só foi introduzido em 2016 (quando Guterres acabou eleito). Cabe à Assembleia Geral recomendar um candidato, que precisa de ter maioria no Conselho de Segurança (garantindo que não tem o veto de nenhum dos membros permanentes). O debate à porta fechada deverá ocorrer em finais de julho, esperando-se uma decisão entre agosto e outubro. Os EUA já deixaram claro que o seu apoio depende do alinhamento com as suas prioridades.Ao abrigo de uma rotação regional (não-vinculativa) o próximo secretário-geral deveria ser da região da América Latina e Caraíbas, mas pode haver surpresas - quando Guterres foi eleito a ideia era ter um candidato do leste da Europa. Além disso, já em 2016 se falava na ideia de uma mulher no cargo, mas isso não se concretizou. O processo não está fechado e podem surgir sempre novos candidatos..Irá uma mulher latino-americana suceder a Guterres à frente da ONU?.Os quatro que já existem consideram que a organização está num ponto de viragem e que é preciso uma renovação urgente para restaurar a eficácia e a credibilidade. Bachelet defende reconstruir a confiança pública e colocar a prevenção e a dignidade humana no centro das atenções e evitar a criação de novas estruturas dispendiosas, ao mesmo tempo que se reforçam as equipas políticas de campo.Já Grossi aposta no pragmatismo operacional, com a tomada de decisões baseada nas provas, querendo mais resultados mensuráveis em vez de declarações. Defende parcerias mais sólidas com o campo da Ciência e o das Finanças. Grynspan quer restaurar a posição da ONU como mediador credível através de uma diplomacia discreta e capacidade de mediação rápida, defendendo que “é preciso coragem para mudar”. Sall quer revitalizar o multilateralismo com foco na reforma da governação, financiamento previsível e respostas integradas para países frágeis e vulneráveis..Um cargo impossível? A sucessão de Guterres num mundo à deriva. Os quatro candidatos.Michelle Bachelet A antiga presidente do Chile, de 74 anos, foi nomeada pelo anterior governo chileno (de esquerda), tendo perdido o apoio do atual (de extrema-direita). Manteve a candidatura com o apoio do Brasil e do México. Ex-ministra da Saúde e da Defesa, tornou-se a primeira mulher presidente do Chile em 2006, cumprindo outro mandato de quatro anos entre 2014 e 2018 (não existe reeleição imediata). Entre os dois mandatos foi diretora da ONU Mulher, tendo depois sido alta-comissária para os Direitos Humanos (2018-2022). Este cargo pode contudo custar-lhe a eleição, já que enfureceu a China dizendo que as detenções dos uigures podiam constituir crimes contra a humanidade. E também estará na lista negra dos EUA por ter promovido o aborto como um direito humano. .Rafael Grossi O diplomata argentino, de 64 anos, é diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) desde 2019, tendo sido reeleito sem rival em 2023. Conta com o apoio do presidente Javier Milei para ser secretário-geral das Nações Unidas, tendo optado por manter a liderança da AIEA durante este processo. Na semana passada a revista Time incluiu-o na lista das 100 pessoas mais influentes de 2026 pelo seu papel à frente da AIEA, seja ao supervisionar o programa nuclear iraniano ou a situação com a central ucraniana de Zaporíjia após a invasão da Rússia - sem cortar os laços com Moscovo. Em relação à guerra do Irão, apelou à calma após os ataques iniciais dos EUA e Israel e defendeu que qualquer acordo de paz tem que incluir inspeções, evitando antagonizar os EUA. .Rebeca Grynspan A economista de 70 anos, que foi vice-presidente da Costa Rica entre 1994 e 1998, é desde 2021 secretária-geral da ONU Comércio e Desenvolvimento. Um dos seus pontos altos foi a negociação do acordo entre Kiev, Moscovo e Ancara que permitiu a exportação de cereais ucranianos pelo Mar Negro, após a invasão da Rússia. Em fevereiro, anunciou que tirava uma licença sem vencimento para entrar na corrida à liderança da ONU (ao contrário de Grossi que se mantém no cargo), tendo sido nomeada pela Costa Rica. Antes de ocupar cargos na ONU tinha sido, por sete anos, secretária-geral ibero-americana, sendo bem conhecida de Portugal. Se a aposta é numa mulher para ser secretária-geral, está mais bem colocada que Bachelet..Macky Sall O ex-presidente do Senegal (2012-2024), de 64 anos, é a carta fora do baralho. Não só é o único dos quatro candidatos que não fez parte do sistema da ONU, como a expectativa é que o próximo secretário-geral, ao abrigo de um sistema rotativo não vinculativo, seja da América Latina. Sall pode vir de África, mas a sua candidatura não é consensual no continente - não contando com o apoio do próprio Senegal (onde é uma figura controversa e foi acusado de abuso de poder). A candidatura daquele que também foi primeiro-ministro foi lançada pelo Burundi, que está atualmente à frente da União Africana, organismo que o próprio liderou entre 2022 e 2023, contando com o apoio de outros 40 países da região.