O vídeo de homens encapuzados, vestidos de camuflado claro e carregando espingardas a subir a bordo de um porta-contentores grego com bandeira da Libéria, divulgado há dias pela televisão estatal iraniana mostra esses mesmos homens a aproximar-se do enorme navio a bordo de uma pequena lancha rápida. É a esta frota “mosquito”, composta por pequenas embarcações velozes e fáceis de manobrar, que a Guarda Revolucionária iraniana tem recorrido para perturbar o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. A 13 de abril, o presidente Donald Trump vangloriava-se na sua Truth Social que “a Marinha do Irão jaz no fundo do mar, completamente destruída - 158 navios.” No mesmo post, o presidente dos EUA admitia: “o que não atingimos foi o seu pequeno número de, como eles lhes chamam, ‘navios de ataque rápido’, porque não os considerámos uma grande ameaça.” Ora o próprio Trump teve de reconhecer o seu erro e dez dias depois ao usar a mesma rede para anunciar: “Ordenei à Marinha dos EUA que dispare e destrua qualquer embarcação, por mais pequena que seja (os seus navios de guerra estão TODOS, 159 no total, no fundo do mar!), que esteja a colocar minas nas águas do Estreito de Ormuz.” As minas constituem um problema grave que entrava a reabertura total do Estreito, mesmo que Irão e EUA cheguem a um acordo de paz. Na quinta-feira, o Pentágono rejeitou as notícias de que teria um relatório no qual dizia serem necessários seis meses para limpar as minas da passagem naval por onde transita um quinto das exportações de petróleo e gás natural do mundo. Mas os peritos admitem que se colocar minas marítimas é uma operação rápida e simples, removê-las é não só demorado como perigoso.Mas voltando às lanchas iranianas, estas embarcações e os mísseis e drones que conseguem lançar têm sido responsáveis por grande parte dos ataques a navios que procuram atravessar o Estreito. A sua pequena dimensão torna-as quase impossíveis de detetar nas imagens de satélite. As lanchas estão amarradas em cais situados em cavernas escavadas na costa rochosa, verdadeiras bases fortificadas, prontas a serem mobilizadas em minutos, dizem analistas ouvidos pelo New York Times. O seu arsenal representa uma grande ameaça para os navios comerciais no golfo e no estreito.“Continua a ser uma força perturbadora”, admitiu ao NYT o almirante Gary Roughead, antigo chefe de Operações Navais dos EUA. “Nunca se sabia bem o que andavam a tramar nem quais eram as suas intenções”, explicou. Consciente de que não tem hipótese de vencer num confronto direto com a Marinha dos EUA, a Guarda Revolucionária iraniana desenvolveu esta frota de pequenas embarcações capazes de perturbar a navegação no Estreito. Criada em 1979, após a revolução que instaurou a República Islâmica, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica criou a sua própria marinha em 1986 quando a marinha iraniana tradicional se mostrou relutante em atacar petroleiros no Estreito durante a guerra Irão-Iraque. Inicialmente, a marinha da Guarda Revolucionária recorreu a embarcações de recreio equipas com lança-granadas ou metralhadoras. Mas depressa desenvolveu lanchas especialmente desenhadas para ataque, bem como mini-submarinos e drones marítimos. Segundo as autoridades iranianas, algumas dessas embarcações podem atingir velocidades superiores a 180 km/h.Ora para fazer face a um eventual enxame de pequenas embarcações iranianas, os navios de guerra americanos dispõem de canhões de grande calibre e outro armamento, mas os navios comerciais não têm meios para se defender de tais ataques.No entanto, como recordava a Reuters há uns dias, estas pequenas embarcações têm limitações. Com ventos fortes e muita ondulação, como acontece no verão ao largo da costa iraniana, podem ter dificuldade em realizar operações de ataque, com as ondas a tornar difícil disparar contra os alvos. E num ataque direto a um navio de guerra, não só não têm equipamento adequado, como as forças armadas a bordo arriscariam baixas pesadas..Minas no Estreito de Ormuz mantêm perigo apesar da reabertura