Primeiro a Ucrânia, agora o Médio Oriente. Como vê o impacto destas guerras na economia global, e em especial na da Finlândia?Bem, é claro que os impactos foram significativos. A guerra na Ucrânia levou a Finlândia a aderir à NATO. Para a economia, creio que serviu também como um alerta para aumentar os gastos com defesa na NATO e o comércio entre os países europeus. Foram assinados novos acordos comerciais, primeiro o Mercosul, depois com a Índia e agora com a Austrália. Portanto, vários acordos de comércio livre, e fico particularmente feliz por ter ajudado a impulsioná-los. Precisamos de diversificar o nosso comércio, e talvez esta diversificação tenha duas razões principais: garantir rotas de abastecimento e também reduzir o impacto das falhas de mercado. Portanto, isso fez uma grande diferença. Em primeiro lugar veio a covid, depois a guerra na Ucrânia, e isso fez com que os europeus se considerassem mais auto-suficientes. Portanto, há um lado positivo a tirar do impacto destas guerras, apesar de todos sentirmos no bolso o impacto negativo?Sim. A guerra no Irão fez aumentar os preços dos combustíveis e dos fertilizantes, o que afeta os preços dos alimentos. E, claro, quanto mais tempo durar o impasse no Estreito de Ormuz, mais difícil se tornará a situação. Por isso, claro, estamos a tentar encontrar uma solução diplomática para a situação no Estreito de Ormuz.A Finlândia está a aumentar as suas despesas com a defesa para 3,2 % do seu PIB até 2030, face aos 2,5 % previstos para 2025. Como reagem os finlandeses à pressão dos EUA e da NATO para aumentar as despesas com a defesa para 5 % e em relação aos cortes necessários que isso implica noutros setores?Concordamos com os americanos, e a Finlândia está bem preparada há muito tempo. Nunca interrompemos a nossa preparação após a Segunda Guerra Mundial. Mas pensamos que é um bom alerta, como já disse anteriormente, porque a Europa não pode depender da ajuda militar americana. Mesmo se é claro que compreendemos que é importante os americanos estarem envolvidos na NATO e na Europa. Portanto, é verdade que enfrentaremos orçamentos apertados no futuro, mas, ao mesmo tempo, penso que agora é um momento muito importante para aumentar as despesas com a defesa. E quando aumentamos o orçamento da defesa, é vital que nos concentremos nas capacidades de defesa e que não incluamos tudo de forma simplista no orçamento.Tendo a Rússia como vizinha, e olhando para o difícil historial de guerras entre os dois países, talvez seja mais fácil para os finlandeses compreenderem que a defesa é realmente importante e que é preciso investir nesse sector?É como disse, isso foi sempre importante desde a Segunda Guerra Mundial. Mas penso que as pessoas na costa atlântica da Europa também compreendem que, se a Rússia tiver permissão para conquistar a Ucrânia, o resto da Europa ficará muito vulnerável. E Portugal aderiu à NATO há muito tempo, por isso, partilham também a visão da necessidade de uma defesa comum.Há alguns meses entrevistei o embaixador Markku Keinanen, antigo Representante Permanente da Finlândia junto da UE, que me disse que, após a invasão russa da Ucrânia, “Os finlandeses compreenderam que não precisavam de neutralidade. Tudo mudou numa noite”. Na altura, o senhor era o líder do grupo parlamentar do Partido dos Finlandeses e apoiava a NATO. Foi quase unânime na Finlândia?Já antes disso, a Finlândia treinava com a NATO e tínhamos equipamento compatível com o da NATO. Mas antes desse momento, discutíamos na Finlândia a opção da NATO, embora apoiássemos a possibilidade de cada nação europeia aderir à colaboração e à aliança da NATO. Mas, de facto, depois de vermos a Rússia começar a aproximar-se da Europa, concluímos que seria mais seguro para toda a Europa considerar a NATO como uma aliança militar europeia, e a Finlândia ver-se como fornecedora de segurança e apoio militar, dado que possuímos forças armadas bastante robustas.Voltando à economia, num momento de crise e no atual contexto global de instabilidade, será ainda mais importante que os países da UE se unam para mostrar que a UE pode ser uma superpotência económica?Sim. Realmente.Pergunto isto porque por vezes vemos que a União Europeia não está assim tão unida, e tem dificuldades em falar a uma só voz...Sim. Sim. Sim. Isso pode ser problemático a certos níveis. Mas vimos agora que conseguimos unir-nos em relação aos acordos de comércio livre, e isso é algo que espero que possamos continuar a ter em comum. Penso que neste momento temos objetivos mais comuns na UE para cuidar dos nossos próprios empregos na indústria. Penso que temos muitos pontos fortes, muitas boas empresas, inovação, e somos uma mistura de países e culturas muito diferentes. Isto pode criar uma ótima base para a inovação, dado que somos uma zona de mercado livre. Penso que devemos aproveitar o facto de sermos os mais virados para o mercado livre e negociarmos em conjunto. Devemos investir mais em conjunto dentro da UE, e não apenas nos EUA, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, precisamos de nos manter firmes e não nos deixarmos intimidar pela China. Porque sabemos que Pequim está a jogar com regras diferentes quando se observa o mercado interno na China e como são os chineses... Penso que os mercados chineses têm muitas restrições, por isso devemos ser cautelosos com o que está a acontecer e empenhar-nos mais na criação de emprego na Europa.Um dos desafios é a China, mas outro são as tarifas impostas aos produtos europeus pelo governo dos EUA durante a esta segunda presidência de Donald Trump. Sei que esteve diretamente envolvido nas negociações do acordo UE-EUA e que no final disse: “Queremos construir pontes, não destruí-las”. Como podem os países da UE podem lidar com este acordo?Bem, em primeiro lugar, o nosso objetivo era reduzir as tarifas, e não aumentá-las. Em segundo lugar, não creio que o acordo seja o melhor possível para a União Europeia, mas, uma vez negociado, é muito importante dar-lhe continuidade, sendo que o nosso objetivo deve ser o de criar estabilidade. E as próprias empresas acreditam que a estabilidade é fundamental. Posto isto, estamos conscientes de que vivemos um período de incertezas nas relações comerciais entre a UE e os EUA, em que podem surgir novas surpresas, mas, ainda assim, temos de agir diariamente para criar estabilidade.Veio a Portugal para ter reuniões bilaterais, com o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, e o ministro da Defesa, Nuno Melo. Qual a importância para a Finlândia da cooperação com um país como Portugal? É um excelente exemplo de cooperação que precisamos de intensificar no seio da UE. Portanto, acho muito bem que nos concentremos no comércio bilateral, e talvez devêssemos ter-nos focado mais nisso em períodos anteriores, mas quero dizer que temos uma boa base. A Nokia, por exemplo, é uma grande empresa também aqui em Portugal, com mais de 3000 colaboradores. Além disso, algumas das outras empresas finlandesas estão aqui há décadas, mas estamos à procura de novas oportunidades nos setores da defesa e das infraestruturas, e há muitas boas ligações a serem feitas.Estava a falar da Nokia. Quando pensamos na Finlândia e em Portugal, é sempre a Nokia que nos vem à cabeça quando falamos de empresas finlandesas. Mas, como disse, existem. Que vantagens possui Portugal para atrair ainda mais empresas finlandesas?Bem, as competências técnicas são provavelmente o fator mais importante e, claro, os novos investimentos costumam atrair muita atenção. Os próximos investimentos do Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência [PTRR], superiores a 20 mil milhões de euros, que o governo pretende realizar, criam muita procura por parte de diferentes tipos de empresas, e penso que é aí que podemos encontrar boas ligações. Mas também me reuni com o Ministro da Defesa, e o sector da defesa é muito importante. Devemos sempre analisar como as empresas finlandesas podem investir em Portugal e criar emprego, porque estamos interessados em procurar mais investimentos bilaterais.Para terminar, a Finlândia foi classificada como o país mais feliz do mundo pelo nono ano consecutivo. Concorda com essa classificação? E podemos dizer que tudo começa com um sistema educativo de alta qualidade?O ranking da felicidade é um índice da ONU, logo, é um índice que define a sociedade mais funcional. Nós finlandeses gostamos de nos ver como pessoas felizes e não nos importamos de ter essa reputação, mas o índice de felicidade em si não está associado a um sentimento de felicidade, e sim a uma sensação de satisfação com as infraestruturas existentes na sociedade. Os principais componentes são a confiança nas autoridades, na polícia, no sistema judicial, a liberdade de expressão, a qualidade da saúde e a qualidade da educação. É uma competição difícil, embora tenhamos ganho nove vezes consecutivas, mas isso demonstra que conseguimos criar uma sociedade muito funcional, e também precisamos de lutar para que assim se mantenha..“Depois da Ucrânia, finlandeses perceberam que já não precisavam da neutralidade. Mudou tudo numa noite”