“É preciso atacar o islamismo pela raiz. Não começa apenas no momento do ato de violência. Começa muito antes”, considerou o presidente da Câmara de Berlim Stefan Evers, em entrevista ao Die Welt. Falava na sequência do ataque terrorista perpetrado no sábado por Abdul Ballout, um cidadão alemão de ascendência libanesa, junto da marcha gay que todos os anos junta centenas de milhares na capital alemã. Depois de ter atropelado uma multidão, o jovem que estivera preso no Líbano por tentar juntar-se ao Estado Islâmico ainda terá esfaqueado alguns transeuntes. No dia seguinte, depois de ter matado uma mulher de 65 anos e ferido 29 pessoas, algumas com gravidade, foi abatido pela polícia. Mas a sua morte não calou as críticas ao sistema judicial, que em maio o deixou em liberdade depois de condenado por preparar um ato grave de violência que ameaçava a segurança do Estado. E também aos serviços de segurança. .Sobre o atentado em Berlim, o que é mais preocupante? Uma justiça aparentemente alheia à perigosidade potencial de uma pessoa radicalizada ou os serviços de segurança que não terão seguido o indivíduo?Neste momento, preocupante é uma certa desatenção política e social relativamente ao extremismo jihadista. Isto, de facto, vem demonstrar que o extremismo jihadista não desapareceu. Hoje há um debate político e social sobre, essencialmente, quais são as ideologias que, na sua perspetiva extrema, podem representar uma ameaça à segurança da Europa. Está a descolar a extrema-direita, está a descolar também a extrema-esquerda, e nós já nos fomos habituando progressivamente a uma perceção de uma certa regularidade baixa do jihadismo. Até porque não tem havido muita atenção mediática. Mas está errado. Está errado porque, de facto, o extremismo jihadista não desapareceu e se nós virmos nos últimos anos, e não sou eu que o digo, os relatórios do Europol anunciam isso, do EU-TESAT, da ACLED ressaltam isso, que nos últimos seis anos, por exemplo, só na Europa, houve mais de 30 ataques jihadistas, dos quais seis ocorreram precisamente na Alemanha. A questão é que estes números podem parecer baixos, sobretudo quando comparados com outros tipos de violência extremista, particularmente o caso da extrema-direita, onde no mesmo período houve mais de 250 ataques contra civis na Europa. A questão é que os jihadistas são muito mais letais do que os da extrema-direita: houve cerca de 180 mortos nesse período. Em comparação ao que aconteceu há dez anos, houve uma diminuição do terrorismo jihadista, mas em termos de totalidade mantém-se elevada e mantém-se a mais preocupante. De repente acontecem este tipo de atentados e nós ficamos surpresos. Não devíamos. Sobre o caso de Berlim...Talvez seja o resultado desta desatenção e desta focagem noutras dimensões ideológicas, que podem ser igualmente extremas. Talvez possa ter havido algum desleixo por parte do Ministério Público alemão e depois do próprio serviço de informações. Agora focando no serviço de informações, vai ser cada vez mais difícil o acompanhamento e a monitorização, porque cada vez mais estes atores agem individualmente, sem ligação a uma estrutura central, sem obedecer a uma cadeia de comando, agindo de uma forma, digamos, espontânea e sobretudo pouco sofisticada. Os chamados low-level attacks, que é o caso do esfaqueamento, que é o caso do ramming, do atropelamento que foi feito e, portanto, isto torna-se extremamente complicado às autoridades monitorizarem e acompanharem os grupos, a parte logística, etc. Há aqui um padrão de alguém que passa por um processo de sociopatia, até eventualmente de psicopatia, e que procura depois, em determinadas ideologias, uma forma de sublimação do seu próprio ressentimento, sendo que, sublinho, neste caso ele já tinha sido previamente identificado porque tentou ir para a Síria. Olhamos sempre para a extrema-direita, tentamos olhar para a realidade política e social extremamente fragmentada, polarizada, mas de facto a jihad está outra vez a reagrupar e a crescer. Basta olhar um bocadinho para o caso da Síria. Em resultado de um desapoio e de uma falência das forças curdas, e também do ressurgimento do al-Gholani [agora al-Sharaa], o novo presidente da Síria que estava ligado à Jabhat al-Nusra, temos uma libertação de um conjunto de membros da jihad ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico e potencialmente dezenas de milhares podem ficar soltos. Há um potencial de recrudescimento outra vez, sendo que dados norte-americanos dão cerca de 20 a 30 mil membros da jihad na Síria e, portanto, podem voltar a fazer as suas tropelias. Dito isto, por um lado, talvez tenha havido uma certa incúria por parte do Ministério Público resultado de, a montante, o debate social e político já não visar tanto a jihad. Por outro, por parte dos serviços de informações, é a dificuldade do próprio modus operandi que torna a situação de difícil monitorização.O caso é sobre um chamado lobo solitário, termo que a literatura científica diz ser enganador.É, é enganador, porque há sempre uma estrutura por trás. Não gosto do termo lobo solitário. Prefiro chamar-lhe outro tipo de coisa que não necessariamente o lobo solitário, quer dizer, chamam-se autores solitários, mas no fundo são indivíduos que se radicalizam muitas vezes através de propaganda extremista online, ou seja, são atores independentes, no fundo. E não dependem necessariamente de uma estrutura física. Se considerarmos que a apetência e a abertura deles para os conteúdos propagandísticos de extremismo online é resultado de uma cadeia de comando, ainda que digital, muito bem, mas isso é um bocado conceptual. Ou seja, são indivíduos que de uma forma independente conseguem encontrar nestas narrativas uma forma de sublimação do seu próprio ressentimento. Isto não é novo, atenção. Acontece é que, resultado de uma pressão por parte das autoridades que impedem grandes ações mais estruturadas, como aquelas que aconteciam amiúde há 10 anos na Europa, cada vez mais este tipo de low level attacks passa a ser considerado.O autor do atentado tinha 21 anos. A recruta de menores é uma das características das organizações terroristas atuais. Essa é a tendência que mais destaca ou há outras?Os 21 anos não é muito fora de um padrão a que a jihad nos habituava. A questão aqui é que, fugindo da jihad, há cada vez mais uma apetência para menores. Não só bebendo destas três ideologias mais conhecidas, a extrema-direita, a extrema-esquerda e a jihad, mas essencialmente de ideologias mais ou menos híbridas, sincréticas, que vão fundindo desde satanismo, extrema-direita, extrema-esquerda, etc. São aquelas perspetivas ideológicas híbridas que nem são necessariamente ideológicas, que no fundo fazem apelo à violência e justificam o uso da violência. Movimentos como a Order of the Nine Angels, o 764 ou o No Lives Matter, por exemplo. O que é que estas quatro formas de extremismo violento têm em comum? É que cada vez mais exploram a subcultura online. Através de jogos, através do mundo digital. E, de facto, os menores são absorvidos pelo mundo digital de uma forma muito diferente do que os mais velhos. O menor, até em resultado do seu próprio desenvolvimento psicológico, social e intelectual, não tem uma capacidade tão crítica para poder separar aquilo que é importante daquilo que não é importante, tornando-se muito mais permeável a este tipo de narrativa. E daí, de facto, se apostar cada vez mais nos jovens, nos menores. Por outro lado, é preciso ver que estes menores têm uma lógica de “gamificação” da realidade, ou seja, ao “gamificarmos” a realidade, os limites que nós temos e a dimensão ética e moral, tudo é passível de ser feito. A morte tem um peso significativamente diferente para quem “gamifica” a realidade. E daí esta tendência para os menores. Neste caso, do jovem de 21 anos, acho que não se enquadra tanto aqui, não sei também qual é que é o percurso dele nem o da sua radicalização. Mas esta é uma tendência que depois se torna extremamente complicado para as autoridades.Porquê?Torna-se extremamente difícil distinguir aquilo que é um active shooter do que é um extremista violento. Se passarmos, sobretudo, para esta quarta forma de extremismo violento, as tais ideologias híbridas, o indivíduo que fez uma tentativa de ataque à Faculdade de Ciências era um terrorista ou era um psicopata que ia ser um active shooter? Torna-se cada vez mais difícil esta separação. Isto depois leva, em termos conceptuais e intelectuais, perceber até que ponto é que é determinante o fator ideológico no processo de radicalização e no uso da violência. Possivelmente, há uns anos, acharíamos que era um fator determinante na parte do extremismo violento, o pendor ideológico, hoje talvez não seja, hoje não sei se é tão determinante.Também está preocupado porque não há indicações, no discurso europeu, de que vai haver uma mudança de políticas?Exato. Além disso, e se calhar mais problemático, os vários programas de desradicalização. Os programas de radicalização, contrarradicalização, disengagement. enfim, todos os programas que contrariavam aqueles que já tinham sido radicalizados, não são assim tão bem-sucedidos quanto isso. Em França, cerca de 15% daqueles que tenham sido condenados por terrorismo jihadista, voltaram novamente à prisão por crimes relacionados com a mesma situação. É um número significativo. E, portanto, falhámos de certa forma aqui nisto. Ainda estamos a tentar acertar o passo.Em Berlim, no ano passado, houve um fogo posto que causou o maior apagão desde o fim da Segunda Guerra e o caso foi tratado como terrorismo. Os ativistas do clima estão catalogados como terrorismo de esquerda, certo?Sim. A parte de antissistema, de ativismo climático do que é o chamado ecoterrorismo. No cômputo geral, há quatro grandes silos que estão a disputar extremismo violento. A extrema-direita, que é uma nebulosa muito difícil de identificar porque tem os identitários, os skinheads, os neonazis... Temos a extrema-esquerda, que também é uma nebulosa que vai congregar desde ativistas climáticos até anarquistas, até ativistas pró-Palestina, que também estão a fazer ações diretas. Depois temos a jihad. E o tal quarto fator que eu referi é um extremismo violento de natureza híbrida. Eu não estou a falar de uma ameaça híbrida, estou a falar de uma natureza híbrida no sentido em que a dimensão ideológica é muito difícil de definir e que portanto estamos a falar de movimentos satânicos de pura violência. E isso, sim, tem sido uma atração cada vez mais dos jovens. Sobretudo através do mundo digital, que tem um papel fundamental no processo de radicalização de menores. O movimento No Lives Matter está a atrair muitos menores, que depois na tal realidade “gamificada”, para quem não tem a noção da morte, é muito mais fácil fazer uma ação violenta. Começa a haver uma fusão entre aquilo que eu estava a dizer há pouco, com o tal active shooter. Active Shooter é o modus operandi. Muitos deles resultaram deste apelo, deste...Niilismo?Era isso que eu ia dizer. A literatura chama isto de niilismo. Talvez pela minha formação de filosofia, acho que isto de facto não é niilismo. Eu prefiro a expressão britânica mixed, unclear and unstable ideologies (ideologias confusas, pouco claras e instáveis). Esta quarta tendência leva-nos a ponderar o impacto da ideologia no processo de radicalização. E até que ponto é que a ideologia é determinante. Porque quando se classificava o que era um extremista violento, separando-o da criminalidade organizada, era o pendor ideológico. Há uma transformação. Mas apesar desta transformação, os velhos estilos ainda existem, como é o caso do jihadismo.Perante os incêndios sem controlo, como os que de Espanha e França, há quem especule sobre a possível natureza terrorista de alguns por parte de atores estrangeiros. Conhece algum caso suspeito ou documentado desse tipo de ataques?Há casos em que se associam fogos postos a influência estrangeira. E aqui não é tanto terrorismo, mas resultado de uma intervenção híbrida. Há casos na Alemanha, no Reino Unido também, mas não tanto campo, mais infraestruturas, proximidade de infraestruturas que sejam consideradas críticas. Há uma especulação que seja resultado de influência estrangeira, neste caso, por exemplo, russa. Sobre estes fogos, não sei..Felipe Pathé Duarte: "A guerra no Irão vai continuar porque tem de haver uma vitória política".Extremismo: "Os esforços de prevenção são praticamente nulos. Exige vontade política"