Que perspetivas para a guerra no Irão?A guerra vai continuar porque tem de haver uma vitória política para que haja um término do ataque. E as campanhas aéreas não demonstraram qualquer vitória política de lado a lado, mas essencialmente por parte daqueles proponentes do ataque. Historicamente, as campanhas aéreas nunca favoreceram mudanças de regime. As campanhas aéreas dos aliados contra o Japão e contra a Alemanha e não mudaram o regime. Quais eram os objetivos políticos de Donald Trump e de Israel? Mudança de regime; terminar com o programa de mísseis balísticos; terminar com o apoio aos proxies na região; e, claro, impedir que o Irão tivesse armamento nuclear. Nenhum deles, até ao momento, está a ser cumprido. A probabilidade de o regime endurecer é maior. Até porque estamos a falar do Irão, não é a Venezuela, não é o Iraque, não é a Líbia, não é a Síria. Estamos a falar de uma estrutura profundamente resiliente, que está preparada e que tem uma capacidade de substituição significativa, perfeitamente disseminada entre a sociedade e pelo país. Ou seja, a alteração do regime é pouco provável. Das duas uma, ou se abdicam dos objetivos políticos e há uma derrota política para Donald Trump; ou então passa por uma fase seguinte. Que será?Será eventualmente uma ação militar terrestre. O primeiro cenário será uma intervenção de forças especiais, com um número reduzido, umas poucas dezenas, que farão assassínios políticos, atacarão infraestruturas militares, o complexo industrial iraniano, os lugares onde estarão a fazer desenvolver capacidade nuclear. Só que isso será pouco efetivo devido à capacidade de resistência do complexo industrial iraniano, significativa, além de que a probabilidade de serem apanhados ou bloqueados por parte dos Guardas da Revolução é muito grande. Logo, seria é uma derrota política para Trump. Ainda dentro desta lógica do pequeno comando militar, podem apoiar os tais proxies, como fizeram com os mujahideen no Afeganistão, e apoiarem os curdos. Só que até haver resultados, se os houver, o processo é muito, muito lento e desgastante. Portanto, esta questão das pequenas unidades servirá de pouco. O outro cenário, o mais provável de todos, mas que é complexo, é que em vez de serem dezenas já serão milhares de militares numa intervenção anfíbia ou aerotransportada, tomarão infraestruturas, portos, as ilhas do estreito de Ormuz para permitir a navegabilidade e ao mesmo tempo utilizar essas ilhas para projeção de força. Iria asfixiar a capacidade económica do Irão, fechar ainda mais o Irão, porque ao controlar esses portos e essas saídas, não dá qualquer probabilidade do Irão para ter estabilidade económica.Quais os entraves a esse cenário?O primeiro é que precisa de apoio diplomático regional para que isso aconteça e temos de perceber se os estados árabes têm vontade que isso aconteça. O segundo entrave é que este tipo de campanhas são extremamente complexas. E a história demonstra-nos que os Estados Unidos, a última vez que tiveram uma campanha deste género de anfíbia aerotransportada com resistência foi na Coreia. Portanto, pode não correr necessariamente bem.E os houthis estão a guardar-se.Exato. Este cenário é aquele que terá mais impacto político e militar e maior probabilidade de sucesso, mas depende de apoio diplomático e também militar, regional. Também não é à toa que [Pete] Hegseth [secretário da Guerra dos EUA] deu autorização para que o USS Tripoli avançasse. Por último, que acho ser o menos provável, é uma invasão em grande escala. Mas isso implica meses e meses de preparação e apoio diplomático total da vizinhança E era um atoleiro onde os Estados Unidos se meteriam para garantir a possibilidade de uma mudança de regime que dificilmente poderia acontecer.Mas estamos a falar de Trump, que é um ator político diferente da norma. Não poderá encontrar forma de declarar vitória?Trump habituou-nos a uma espécie de geometria variável da sua política externa para que, parece, não depender de uma estratégia política ou o resultado de políticas públicas, mas, essencialmente, de um estado de espírito ou de uma personalidade do líder. Ora, sofisticando um bocado mais o pensamento da administração norte-americana, quero crer que isso é pouco provável. Porque terá de haver uma lógica por trás de toda esta aparente irracionalidade. A lógica é a China. E, portanto, se fizermos uma timeline das ações de Trump, foram sempre num posicionamento em relação ao grande desafiador global dos Estados Unidos, que é a China. Começamos no Panamá, passamos pelo Ártico e pela Gronelândia, olhamos para a costa oriental africana, o caso da Sudão e o caso da Somália, olhamos para a Venezuela e olhamos para o Irão. Se houver uma racionalidade por trás, há uma progressiva tentativa de drenar a fonte chinesa para que, em termos negociais, se coloque em vantagem. A haver uma racionalidade. Quero crer que sim, que isto não seja resultado de um capricho ou de um wag the dog [distração] por causa do caso de Epstein. Quer dizer, pode ser também um wag the dog.O diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos demitiu-se na terça-feira. Alegou que Israel e o seu lobby arrastaram os Estados Unidos para a guerra, quando não havia uma ameaça iminente por parte do Irão. No entanto, há dias o FBI avisou que a Califórnia podia ser alvo de drones iranianos. Em que é que ficamos?A questão é que a forma de atuação do Irão, particularmente utilizando a ação híbrida a dois níveis, considerando por um lado a ação narrativa, ou a ação física cinética, não é nova. Mas pode aumentar naturalmente com a guerra. E portanto, se por um lado, mesmo a ameaça que o Irão representaria, utilizando estas ameaças cinéticas, não for suficiente para ser considerada uma ameaça que justificasse a ação de guerra, o facto de ter havido o ataque militar, claramente vai espoletar este tipo de atuação. Não só vai espoletar, como já espoletou. Nós podemos olhar para o que tem acontecido nas últimas duas semanas, desde que a guerra começou, e há um aumento significativo de ações que poderão ser atribuídas com relativa facilidade ao Irão, de uma forma direta ou indireta. Quais são as ameaças cinéticas? Não só de ação terrorista, mas também do uso de grupos de criminalidade organizada para atuar de uma forma indireta em nome do Irão. Ou seja, o que é que o Irão está a fazer, além das proxies habituais que nós conhecemos, o Hezbollah, o Hamas, os grupos no Iraque, os Houthis no Iémen, através, particularmente de uma unidade dos Guardas da Revolução, a unidade 840, está a utilizar grupos de criminalidade organizada para atuar de uma forma indireta em nome do Irão. Uma espécie de plausible denial, uma negação plausível do Irão, que dificulta a retaliação. Portanto, dito isto, a ameaça, ainda que latente e utilizando este tipo de modus operandi, não justificaria a guerra, como é óbvio. Não justificaria a guerra, mas naturalmente, com o ataque, isto espoletou. Portanto, vai continuar e aumentar. O aviso do FBI tem credibilidade? Quando o Centro de Contraterrorismo dizia não haver ameaça, parece que há narrativas em conflito. Há narrativas em conflito. As instituições também competem entre elas. Mas eu acho que há uma forte probabilidade da narrativa do FBI ter alguma credibilidade. Cá está, por um padrão a que o Irão já nos habituou. Tomemos como exemplo a Europa. Desde 1979 até ao final de 2024, houve mais de 200 planos para utilizar a violência em nome do Irão. Metade desses planos, foi na Europa. E 50, ou mais de 50, aproximadamente um quarto, aconteceu entre 2021 e 2024. Portanto, o que temos estado a assistir é um aumento significativo do número de planos, concretizados ou não, de ações indiretas por parte do Irão. Estamos a falar de vigilância, assassínios, coerção, perseguição, em que são muito dificilmente identificados como sendo ação direta do Irão, mas vários serviços de inteligência têm-nos ligado ao Irão. Basta ver as declarações feitas pelo MI5, pelos serviços de informações suecos, noruegueses, dinamarqueses. Há um indício deste modus operandi. O que, naturalmente, a guerra vai acelerar e exponenciar este tipo de situação. Por consequência, a probabilidade de haver uma situação semelhante nos Estados Unidos é muito grande. Agora, parece-me que talvez o alvo predileto seja a Europa e não tanto os Estados Unidos, por uma questão de capacidade e uma questão numérica. Em relação a esses mais de 200 planos, inclui contra iranianos?Exato, contra iranianos dissidentes, curdos, israelitas... Em 2023, deu-se a tentativa de assassínio em Espanha do fundador do Vox [com ligações á opisição iraniana]. Tudo isto tem o objetivo de ser uma forma de coação contra as decisões políticas e, ao mesmo tempo, também de vingança e de punição. Se por um lado há esta orquestração indireta por parte do Estado, utilizando redes terroristas, por outro há a criminalidade organizada e também pequenos criminosos a atuar. Há indícios de pagamentos, 1000 euros, 1500, 2000 euros, para atuarem. Há provas de que pessoas ligadas aos Guardas da Revolução coagiram criminosos para agir em nome do Irão e, portanto, poderem fazer ataques à comunidade judaica, a instalações diplomáticas israelitas. Portanto, há aqui esta forma muito subliminar e subversiva de atuar. E, portanto, se a escala está a aumentar na Europa, é uma questão racional poder acontecer nos Estados Unidos também. Há um novo grupo terrorista, Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia, que reclamou atentados recentes na Bélgica e Países Baixos contra alvos da comunidade judaica. Quais são os riscos na Europa?Vamos localizar isto em ações cinéticas. Isto é, ações que utilizam a violência. E há três segmentos que temos que considerar. O primeiro, os tais criminosos ou grupos de criminalidade organizada que têm ação, ou que estão a agir, em nome do Irão. Há três grupos suecos, ou com uma forte implantação sueca com ligações ao Irão: Foxtrot, Rumba e Hells Angels. Estão a ser utilizados como instrumentos por parte da intelligence iraniana. Outro segmento que nós temos que olhar são as células adormecidas. Poderão, com relativa facilidade, ser ativadas e desencadear ações terroristas ou ações de sabotagem com uma ligação mais direta ao Estado iraniano. E aqui parece-me que o exemplo deste grupo Ashab al-Yamin é um exemplo disso. Terceiro segmento que devemos ter em conta é a ação espontânea e individual, os chamados lobos solitários. Ao mesmo tempo, em paralelo, a própria jihad sunita pode tomar vantagem disto. Porquê?Há uma comunhão de interesses e uma inimizade comum. A jihad sunita pode tomar vantagem desta situação e explorar porque há uma alavancagem e uma legitimidade narrativa que pode ser utilizada para desencadear ataques. Em paralelo a isto, há toda uma construção de influência além da mera ação diplomática convencional que o Irão desde sempre tem vindo a fazer. Por um lado, utilizando gente infiltrada na diáspora, que é preciso ter em conta, nas instituições religiosas, em ONG, e, portanto, no fundo, há vários operacionais do Irão que estão progressivamente, nestes últimos anos, a disseminar cada vez mais a narrativa pró-República Islâmica. Alguns conseguiram até ter apoio de grupos de extrema-esquerda no espaço europeu, por uma questão de comunhão narrativa, particularmente em França..Antissemitismo.Antissemitismo, anti-imperialismo, anti-Israel, etc. O próprio Khomeini é um produto de uma certa intelectualidade ocidental que lhe deu margem para que pudesse avançar e que fosse visto quase uma espécie de homem novo a tomar conta de um Estado que estava corrupto. Depois é preciso perceber que tem havido uma incorporação desta narrativa na vida comunitária quotidiana da diáspora. E há também uma tentativa de disseminação religiosa através dos centros religiosos e dos centros de cultura, casos de Hamburgo e de Estocolmo. Além da dimensão religiosa, estavam a passar uma ideologia próxima ao regime, assente numa rede de clérigos formados na cidade de Qom. Em paralelo à rede de clérigos, há a propaganda digital. Nos últimos anos, o Irão tem tido alguma margem de crescimento através de grupos mediáticos controlados pelo Estado, como é o caso da PressTV e da HispanTV, para o mundo latino-americano e espanhol. Em paralelo a isto, temos as redes sociais. E há um caso muito interessante, um movimento chamado Letter for the Leader. uma espécie de campanha aberta, feita pelo falecido líder, Khamenei, sobretudo para a juventude ocidental. Para chegarmos aos atos, temos de partir das palavras. Esta dimensão narrativa é muito importante. A seu lado, temos a ação cinética, ambos componentes da guerra híbrida. Cinética é quando considera a possibilidade do uso da força de uma forma letal. Cinética não considera a possibilidade do uso da força meramente narrativo e encontrar espaços para que a narrativa funcione e depois legitime e justifique a ação violenta. As duas funcionam em conjunto. E o Irão, quer numa, quer noutra, está extremamente capacitado. Sendo que aqui a inovação é utilizar entidades de criminalidade organizada na parte cinética. Qual a mais-valia de usarem criminosos? É que, ao contrário dos terroristas, ao contrário dos proxies, é plausível a negação. Porque, no fundo, não deixam de ser apenas criminosos que estão a agir para a obtenção de lucro. E, portanto, no fundo é quase uma espécie de lumpemproletariado, utilizando aqui o termo trotskista. O Irão não tem a mesma capacidade bélica dos seus inimigos e não consegue reagir de uma forma equivalente. O que faz é utilizar este tipo de ação subversiva como uma forma de progressivamente minar quer a vontade, quer a capacidade do adversário. Que consequências é que a guerra no Irão poderá ter para a ordem internacional, tendo em conta que há quem alvitre que, tendo em conta o constante atropelo ao direito internacional, a multiplicação de guerras é mais provável? Há um revisionismo do sistema internacional e esse revisionismo implica uma ascensão dos poderes e essa ascensão dos poderes implica necessariamente uma quebra do direito internacional ou daquilo que o direito internacional vale. E perante essa situação de tornar o direito internacional como uma letra morta, a probabilidade do confronto de poderes torna-se muito mais verosímil. Ou seja, um dos elementos que equilibrava a dinâmica de poderes era de facto a dimensão institucional e o próprio direito internacional. A partir do momento em que isso é atropelado o desequilíbrio torna-se uma permanência. Ou temos uma perspetiva mais realista, uma permanente dissuasão que permita o equilíbrio de poderes, o que não existe, ou temos poderes desafiantes e revisionismo. E esse mesmo revisionismo vai causar desequilíbrio e esse desequilíbrio, por sua vez, irá causar conflito, invariavelmente.Como avalia o novo puzzle na Síria com as forças de Damasco a tomarem conta das prisões com membros do Estado Islâmico e a retirada das forças curdas? Há indicações de que o Estado Islâmico está numa tentativa de reagrupamento e de reorganização. Bashar al-Assad, quer queiramos, quer não, ainda que com atropelos significativos aos direitos humanos, estava na linha da frente ao crescendo da jihad na região. Golani, o atual líder sírio, pertenceu às estruturas jihadistas da al-Qaeda na Síria. E, portanto, passou da jihad a líder político recebido com tapete vermelho na Casa Branca. Agora temos que saber ler os sinais. E, portanto, os Estados Unidos estarão a contar com a estrutura síria para que contenha o avanço e o crescendo da jihad. Mas há aqui outra variável que se tem de equacionar: o apoio norte-americano aos curdos diminuiu significativamente. Por outro lado, há uma proximidade de Ancara a Jolani [nome de guerra de Ahmed al-Sharaa], que, por sua vez, olha para os curdos como terroristas e uma ameaça securitária ao Estado turco.Ainda há mais uma peça: as milícias patrocinadas pelo Irão não estão nas melhores condições para combater o Estado Islâmico. Exato. A questão aqui não é se Jolani pretende ou não fazê-lo. É se o consegue fazer. Temos dimensões identitárias que competem e que se atacam mutuamente. E, portanto, a instabilidade política na Síria é uma matriz. Será que Jolani consegue manter esse controlo? Ponto de interrogação. Outro ponto de interrogação: até que ponto os curdos, apesar da falta de apoio, são capazes de manter o controlo. Vamos imaginar que os curdos iranianos são armados pelos EUA e por Israel. A consequência disto seria muito complicada. Não só porque os curdos não se entendem, em termos de objetivos para o Irão, como há uma desconfiança para com os EUA, mas essencialmente aquela zona vai ficar muito mais complexa porque temos os tais proxies xiitas e as milícias iraquianas apoiadas pelo Irão que seguramente olharão para os curdos outra vez como sendo um alvo. E, portanto, o norte do Irão e o norte do Iraque passariam a ser mais uma zona de instabilidade. Vejo a situação como potencialmente dramática.