É falso que vídeo mostre quatro migrantes ilegais no Algarve e que mais 100 mil estão a caminho de Marrocos

É falso que vídeo mostre quatro migrantes ilegais no Algarve e que mais 100 mil estão a caminho de Marrocos

Desinformação sobre migrações continua, como as narrativas falsas dos migrantes encontrados num camião português no Reino Unido e o vídeo dos 100 mil invasores subsaarianos a caminho de Marrocos.
Publicado a
Atualizado a

A desinformação sobre a crise migratória em Ceuta continua, como as narrativas falsas dos migrantes encontrados num camião português no Reino Unido, que não partiram do Algarve, e o vídeo dos 100 mil invasores subsaarianos a caminho de Marrocos.

Alegações: “imigrantes ilegais chegam ao Algarve”, “mais de 100 mil imigrantes subsaarianos na Argélia a caminho de Marrocos” e “migrante com Apple Watch”

A recente entrada em massa de migrantes nos enclaves espanhóis de Ceuta e de Melilla, situados no norte de Marrocos, continua a dar azo a dezenas de publicações nas redes sociais, algumas a denunciar a alegada chegada de alguns desses migrantes ao Algarve.

Nesta terça-feira, 4 de agosto, a deputada do Chega Rita Matias partilhou em várias redes sociais um vídeo em que denunciou que “imigrantes Ilegais chegam ao Algarve” e ao qual juntou imagens de um alegado incidente recente onde se veem quatro homens a saltar de um camião com uma galera de uma empresa chamada “Algarve Removals” e um trator da Mota&Silva: https://archive.ph/YJi4o.

Na mensagem que partilha, Rita Matias afirma que as imagens mostram “o resultado da inação de Luís Montenegro neste vídeo que já foi partilhado por um parlamentar do Reino Unido” e que “Portugal está a ser a chacota da Europa graças à irresponsabilidade de Pedro Sánchez em Espanha e de Luís Montenegro em Portugal.”

Outra narrativa que circula num “alerta vermelho” partilhado nas últimas horas em várias redes sociais é a de que estão “mais de 100 mil imigrantes subsaarianos na Argélia a caminho de Marrocos”, alegadamente empurrados pelo exército argelino: https://archive.ph/epoJo, https://archive.ph/KhoUW e https://archive.ph/QvBv0. (exemplos).

No domingo, 02 de agosto, outro deputado do Chega, Pedro Frazão, também questionou no X, antigo Twitter, se “uma imigrante ilegal muçulmana é tão pobre que atravessa a fronteira de Apple Watch?”, alegando que “isto não passa de uma grande invasão orquestrada como ataque à Europa!”: https://archive.ph/fZYWB.

Factos: vídeo do camião foi filmado no Reino Unido, imagens dos ‘100 mil migrantes’ são do Mali e relógio da migrante não é um Apple Watch

À semelhança de conteúdos desinformativos anteriores já verificados pela Lusa Verifica (https://archive.ph/tyBPr), simples pesquisas reversas pelas fotos ou vídeos permitiram encontrar rapidamente os seus contextos factuais.

No caso do vídeo partilhado por Rita Matias, a pesquisa de um fotograma no Google Lens, por exemplo, revelou em segundos que as imagens diziam respeito a um incidente registado no condado de Essex, nos arredores de Londres, e não no Algarve.

Durante o processo de verificação foi possível constatar que a deputada alterou o texto das publicações para “imigrantes Ilegais passam pelo Algarve” em vez da versão inicial que dizia “chegam ao Algarve”: https://archive.ph/t7cnQ e https://archive.ph/zMnFb.

A fonte da deputada será um post com mais de 1,3 milhões de visualizações do ex-conservador Robert Jenrick, atualmente deputado do Reform UK, de extrema-direita, que questiona se “serão estes os primeiros migrantes de Ceuta a chegar às costas” britânicas saídos “da traseira de um camião vindo do sul de Portugal, que terá passado por Espanha” e pede a sua deportação: https://archive.ph/ZlBFU.

Através dos media britânicos, que explicam que o incidente ocorreu junto à localidade de Maldon, após uma viagem entre Málaga, no sul de Espanha, e o Reino Unido, apenas com uma paragem no norte de França (https://archive.ph/q1XYM, https://archive.ph/oPlur, https://archive.ph/bezQP e https://archive.ph/AP8M5), é possível geolocalizar o local do vídeo a poucas centenas de metros do armazém da empresa em Essex: https://archive.ph/oV149.

A consulta das páginas da Algarve Removals, que tem delegações no Algarve, Málaga e Inglaterra, também permitiu encontrar pelo menos dois esclarecimentos, um deles publicado quase duas horas antes das publicações de Rita Matias, nos quais a administração explicou estar “profundamente perturbada e frustrada” com o sucedido e “a colaborar com a polícia na sua investigação”: https://archive.ph/jI05T.

Segundo este e outro esclarecimento, bem como declarações aos media ingleses, a entrada dos migrantes terá ocorrido não em Espanha, nem no Algarve, mas sim perto de Rouen, em França, onde o camião de uma empresa subcontratada parou durante a noite.

“Nesta fase, acreditamos que os indivíduos tiveram acesso ao reboque através do tejadilho, onde foi aberto um grande buraco durante a pernoita perto de Rouen, duas horas a sul de Calais. Este é um posto de abastecimento de combustível/paragem para camiões seguro que utilizamos sempre” e onde “as portas traseiras e as cortinas laterais permaneceram seladas e trancadas com um dispositivo de segurança durante todo o tempo.”

A empresa assegura ainda que no dia seguinte o camião só parou junto ao armazém de destino, em Essex, não tendo sido detetadas irregularidades nas inspeções de segurança realizadas em Calais pelas autoridades francesas e britânicas.

Quanto à origem e identidade dos quatro migrantes ainda não existe informação uma vez que as autoridades britânicas ainda não os conseguiram capturar, mas o condutor do camião que chegou a estar detido já foi libertado e ilibado pelas autoridades inglesas, avança a empresa: https://archive.ph/ufkDC.

A narrativa sobre os alegados “100 mil imigrantes subsaarianos na Argélia a caminho de Marrocos” também não encontra suporte nos media regionais nem passou nas pesquisas reversas, que revelaram que as imagens são de facto recentes, mas foram gravadas no norte do Mali, na região de Azawad.

O vídeo que circula nas redes e outros mostram, na verdade, a fuga de alguns milhares de mineiros ilegais, muitos nigerianos, que tentam regressar a casa após ataques das forças Forças Armadas do Mali, apoiadas por mercenários russos, contra grupos rebeldes separatistas tuaregues e fações jihadistas que operam na região.

Essa versão pode ser confirmada nas redes sociais dos próprios mercenários ou da propaganda russa (https://archive.ph/4J891, https://archive.ph/B6gSE, https://archive.ph/yw4YA e https://archive.ph/iNt7d) e em páginas regionais e analistas da comunidade OSINT (investigações através de fontes abertas): https://archive.ph/ZnjFm , https://archive.ph/xA8iq e https://archive.ph/0IksJ (exemplos).

Quanto à migrante com o alegado Apple Watch, basta conhecer a marca ou comparar a foto (https://archive.ph/QAN1Q) com as várias séries do relógio para perceber que não se trata do alegado: o relógio da foto tem o botão lateral no centro da caixa enquanto todas as séries do Apple Watch, cujos preços começam atualmente nos 279 euros, têm o botão lateral descentrado na parte superior: https://archive.ph/gISfn.

Contraditório

A Lusa Verifica questionou o gabinete de comunicação do Chega sobre se a deputada Rita Matias tem alguma informação confirmada sobre a alegada relação dos migrantesno vídeo com a entrada irregular em Ceuta ou no Algarve, mas não obteve respostas.

Por seu lado, relativamente à foto da migrante com um ‘smartwatch’, o deputado Pedro Frazão explicou que se baseou “na identificação visual do aparelho através das imagens, nas quais o relógio apresenta um formato, uma bracelete e elementos visuais compatíveis com um Apple Watch”.

O também vice-presidente do Chega assegurou ainda que, “naturalmente, sem observar o equipamento de perto, não é possível confirmar com absoluta certeza a marca ou o modelo” e que corrigirá a publicação caso esteja errado.

“Caso se venha a demonstrar que é um smartwatch de outra marca, farei essa precisão. O ponto essencial da publicação mantém-se: as imagens levantam dúvidas legítimas sobre a narrativa de extrema pobreza que tem sido apresentada ao público”, disse em resposta escrita à Lusa Verifica.

Avaliação Lusa Verifica: Falso

As redes sociais continuam a ser invadidas por narrativas falsas e fotos e vídeos antigos ou descontextualizados sobre a vaga migratória registada recentemente nos territórios autónomos espanhóis de Ceuta e de Melilla, que fazem fronteira com Marrocos, e que em poucas horas viram entrar mais de 60 mil migrantes de forma irregular.

Nestes três casos, são falsas as narrativas em torno de um vídeo de um incidente com migrantes vistos a sair de um camião português em Essex, no Reino Unido, o “alerta” sobre uma alegada coluna de 100 mil migrantes que estariam a atravessar a Argélia para chegar a Marrocos e a denúncia de que uma migrante chegou a Ceuta com um Apple Watch.

É falso que vídeo mostre quatro migrantes ilegais no Algarve e que mais 100 mil estão a caminho de Marrocos
Saara Ocidental, Ceuta, Melilla e... Argélia. As razões das tensões entre Espanha e Marrocos
Diário de Notícias
www.dn.pt