Exército do Lula vs Tropa do Flávio. Guerra eleitoral aquece WhatsApp
Os comícios, as manifestações, os debates e os tempos de antena, todos analógicos ou quase, perderam o posto de principal cenário da guerra eleitoral no Brasil para o WhatsApp. E se, por acaso, achou a palavra “guerra” excessiva no contexto de um duelo pela presidência da República supostamente democrático e pacífico, aqui vão os nomes dos grupos favoráveis a cada um dos campos na aplicação de mensagens: o “Exército de Lula” e a “Tropa do Flávio”.
O Exército de Lula, com 3,8 milhões de membros até 12 de outubro, foi criado por André Janones, deputado aliado de Lula da Silva que trouxe agressividade digital à campanha do atual presidente na eleição de 2022 e também na deste ano. O grupo tem como objetivo mobilizar apoiantes para partilhar vídeos, divulgar mensagens e combater a abstenção, que chegou a 21% na primeira volta, equivalentes a 33,4 milhões de eleitores, um número que pode impactar uma eleição em que o senador Flávio Bolsonaro obteve uma vantagem de 2,2 milhões de votos, a 4 de outubro.
A Tropa de Flávio, com 1,4 milhões de inscritos no mesmo 12 de outubro, é um canal lançado pela campanha de Flávio, com a participação especial de Nikolas Ferreira, o deputado federal mais votado da história do Brasil e principal rival do citado Janones no estado de ambos, Minas Gerais. O objetivo principal da Tropa é difundir conteúdos de campanha e convocar apoiantes a reagir às mensagens do Exército.
A legislação eleitoral, através da resolução número 23.610/2019, permite que apoiantes se organizem em grupos e canais de WhatsApp para partilhar opiniões e materiais de campanha mas adverte para ações como disparo em massa de mensagens, envio sem consentimento de quem recebe, uso de ferramentas que desrespeitem as regras da plataforma e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e garantia de que a atuação é espontânea e não contratada, isto é, com pagamento envolvido.
Em paralelo, a publicação de informações falsas também pode gerar consequências, a depender do conteúdo, do contexto e dos efeitos: pela lei, o TSE deve diferenciar opinião de conteúdo comprovadamente falso ou manipulado, sendo que a divulgação de desinformação é punível, principalmente quando há risco de afetar o equilíbrio da disputa.
E, como seria de esperar, bastaram um ou dois dias de convivência para os grupos se digladiarem no TSE. Começou no sábado, 10 de outubro, quando integrantes da Tropa do Flávio apresentaram uma ação de investigação contra Janones, Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin, alegando disseminação coordenada de desinformação, propaganda negativa e eventual abuso de poder, pedindo, por isso, a suspensão do Exército do Lula.
No domingo, dia 11, Kássio Nunes Marques, presidente do TSE e membro do Supremo Tribunal Federal indicado por Jair Bolsonaro, determinou então que o WhatsApp retirasse do ar o Exército do Lula, invocando a alegada disseminação de conteúdos já considerados falsos pela Justiça Eleitoral: afirmações sobre suposto fim do programa social Bolsa Família e do estatuto de padroeira a Nossa Senhora Aparecida em caso de vitória de Flávio.
Depois de o campo de Lula se queixar da parcialidade de Kássio ainda no mesmo dia, Villas Bôas Cueva, corregedor-geral eleitoral, restabeleceu o canal, permitindo novas publicações e a entrada de seguidores até decisão do plenário do TSE. Segundo ele, a suspensão administrativa determinada por Kassio sobrepôs-se ao procedimento judicial em curso sem haver provas suficientes para justificar a retirada integral do canal naquele momento.
Na segunda-feira, 12, a área de combate à desinformação do TSE divulgou uma análise técnica das mensagens e vídeos publicados no Exército do Lula entre 2 e 11 de outubro e não encontrou reproduções das afirmações específicas contestadas pela campanha de Flávio. O relatório, porém, assinalou a existência de atuação coordenada e o uso recorrente de linguagem polarizadora.
Já na terça-feira, 13, Kássio voltou a suspender o canal, não por causa da suposta desinformação, mas até que o endereço eletrónico fosse formalmente registado no TSE. O juiz afirmou ainda que Cueva excedeu os limites das suas competências ao revogar a ordem dele. Na sequência, o Exército de Lula foi então registado.
A campanha de Lula, entretanto, também recorreu ao TSE contra conteúdos divulgados pela Tropa de Flávio. Entre os casos noticiados está a divulgação, pelos apoiantes do senador, entre os quais o próprio Flávio e Tarcísio de Freitas, governador reeleito de São Paulo, de uma fotografia de uma jovem associada falsamente a uma manifestação pró-Lula na Avenida Paulista. A imagem, em que ela consome cocaína, diz respeito, no entanto, a uma manifestação de junho no Chile.
A “guerra”, entretanto, começara logo na primeira volta, ainda antes do Exército de um e a Tropa do outro serem formados: do início da campanha eleitoral até 4 de outubro, os dois campos apresentaram 470 ações um contra o outro, 227 por Lula e 243 por Flávio.

