Cidália Vargas Pecegueiro e M. Margarida Pereira-Muller
Cidália Vargas Pecegueiro e M. Margarida Pereira-MullerPaulo Spranger

"Estes testemunhos trazem-nos o relato do que sentiram e viveram enquanto mulheres em missões de paz"

M. Margarida Pereira-Müller e Cidália Vargas Pecegueiro contam no livro 'Portuguesas em missões de paz' a experiência de 20 mulheres militares e de forças de segurança além fronteiras.
Publicado a
Atualizado a

Mulheres nas forças armadas ou de segurança em missões portuguesas no exterior é uma realidade que começa quando?

M. Margarida Pereira-Müller (MMPM): As primeiras militares portuguesas foram integradas em missões de paz nos Balcãs, na Bósnia-Herzegovina, no âmbito da IFOR da NATO em 1995/1996.  Muitas das pioneiras pertenciam a áreas de apoio, como saúde (enfermeiras e médicas) e transmissões, mas rapidamente passaram a ocupar funções em unidades de linha da frente e de liderança.

Cidália Vargas Pecegueiro (CVP): A participação de mulheres portuguesas em missões no exterior é o culminar de um processo de abertura das Forças Armadas que se iniciou no início da década de 90. Embora a Força Aérea tenha sido pioneira na incorporação feminina em 1988, foi apenas com a revisão da Lei do Serviço Militar, em 1991, que o Exército e a Marinha abriram as suas portas, permitindo que, poucos anos depois, as primeiras militares fossem projetadas para cenários de conflito.

Nos testemunhos que recolheram, o que mais motivou essas mulheres a avançar para missões distantes?

MMPM: O que leva uma mulher a trocar a segurança de casa pela incerteza de uma missão? Os motivos são tão diversos quanto os teatros de operações: desde o desejo natural de crescimento profissional e a vontade de testar capacidades em ambientes internacionais, até ao impulso humano de salvar vidas e ajudar quem mais precisa. Para muitas, partir é a forma mais pura de sair da zona de conforto, trocando a rotina pela oportunidade de conhecer novas culturas e contribuir, ativamente, para a segurança global.

CVP: Para além do patriotismo e do dever militar comum a todas as entrevistadas, muitas referem que o desejo de mostrar que são capazes de cumprir as mesmas exigências físicas e psicológicas que os seus pares masculinos é um motor potente. Há também quem destaque o impulso de proteger os mais vulneráveis como uma motivação central, pois em muitos teatros de operações, como no Afeganistão ou em África, as mulheres militares têm acesso a espaços e conversas com mulheres e crianças locais que são vedados aos homens. Outros testemunhos recolhidos referem a gratificação de ver o impacto imediato da sua presença na reconstrução de comunidades, seja na prestação de cuidados de saúde ou na garantia de segurança.

Há testemunhos de experiências no Kosovo ou na República Centro-Africana, também na Colômbia e no Líbano. Houve diferenças de adaptação consoante o contexto cultural do país onde estavam em missão?

MMPM: As missões no exterior não são uma realidade uniforme; são mundos opostos. Se em Espanha, ao serviço da FRONTEX, a liberdade de movimentos permitia uma vida quase normal, no Afeganistão ou na RCA, o quartel era o único refúgio seguro. Já no mar, o desafio era outro: a missão vive-se abaixo da linha de água, em espaços partilhados por oito pessoas, onde a luz do sol é um privilégio raro e a privacidade um conceito inexistente.

CVP: A adaptação cultural exige uma resposta constante das militares e polícias. No Kosovo, a liberdade de movimentos é superior e a interação com a população civil é mais fluida, mas na República Centro Africana ou no Afeganistão, o choque é profundo pois para além de se tratar de sociedades profundamente patriarcais e conservadoras, há ainda o problema da liberdade ser sacrificada em prol da sobrevivência, já que o risco de emboscada ou ataques a colunas militares dita que a vida se resuma ao perímetro do campo, o que cria uma pressão psicológica enorme. Na Colômbia, no âmbito da monitorização do processo de paz, a necessidade de adaptação é enorme pois as militares vivem frequentemente em acampamentos remotos na selva, num clima tropical extremo, com a enorme responsabilidade de mediar conflitos entre ex-guerrilheiros e o governo.

No caso das missões em países de língua oficial portuguesa, relatam uma maior facilidade em lidar com as populações?

MMPM: Sim, eficácia das missões portuguesas deve muito a esta capacidade de comunicar 'olhos nos olhos'. Sem a barreira de intermediários, as mulheres em missão conseguiram uma aceitação e uma confiança por parte das comunidades locais que foi determinante. É uma competência que não vem nos manuais de tática, mas que decide o sucesso de uma missão de paz.

CVP: Portugal partilha com estes países não só a língua, mas certos códigos culturais e, por vezes, laços familiares. A ausência de intérpretes e a partilha da língua transformam a dinâmica da missão, pois quando uma militar portuguesa aborda uma comunidade local na sua própria língua, ocorre uma mudança imediata na perceção de segurança. Por outro lado, como muitas mulheres locais se sentem mais confortáveis para relatar abusos a outra mulher, quando essa conversa acontece em português, a fluidez permite detetar nuances emocionais e entrelinhas que seriam perdidas numa tradução.

Foi complicado convencer estas mulheres de armas a falarem da sua experiência militar no estrangeiro, mas também daquilo daquilo que as levou a uma carreira militar?

MMPM: Muitas vezes, a experiência militar é reduzida a números e missões cumpridas. No entanto, estas mulheres trazem-nos algo mais precioso: o relato do que sentiram e viveram enquanto mulheres. São aspetos que nunca entram nos arquivos do Estado, mas que são fundamentais para compreendermos o que significa, de facto, servir.

CVP: Senti da parte da maioria das entrevistadas um grande interesse e disponibilidade em contar as suas vivências, desafios, problemas e vitórias pois disseram-nos que valorizam poder relatar em primeira pessoa a importância do que fazem e a razão pela qual decidiram, muitas vezes, abandonar filhos pequenos para participar nestas missões.

O prefácio é assinado pela atual reitora do ISCTE, socióloga que estudou muito as mulheres nas Forças Armadas e foi ministra da Defesa. A própria Helena Carreiras, pelas responsabilidades governamentais que teve e também como  antiga diretora do IDN, é a prova de que já não há limites para as mulheres nesta área?

MMPM: Estas histórias provam que as mulheres podem ocupar qualquer lugar. É aqui que reside a força pedagógica do livro: mostrar aos jovens que as únicas barreiras que restam são as das mentalidades e que têm de ser derrubadas.

CVP: A ausência de limites legais ou formais não significa a ausência de obstáculos práticos. Embora as mulheres já ocupem cargos políticos de topo, Portugal ainda aguarda por uma maior massa crítica de mulheres nos postos de Oficial General (Generais e Almirantes). Acho que a realidade com que nos deparamos atualmente demonstra que como a progressão na carreira militar é estritamente vertical e demora cerca de 30 anos a chegar ao topo, as mulheres pioneiras da década de 90 só agora é que estão a aproximar-se desses postos - O objetivo é que uma mulher no topo deixe de ser uma exceção. Neste momento, o grande obstáculo não é a entrada, mas a permanência, pois a vida militar exige uma disponibilidade/mobilidade geográfica difíceis de conciliar com a vida familiar. Neste sentido, falta aprofundar políticas de apoio à família que permitam que as militares não tenham de escolher entre a progressão na carreira e a vida pessoal. Outro problema que nos foi referido por algumas entrevistadas prende-se com o fardamento e as infraestruturas, pois em muitas unidades, o fardamento, o equipamento de proteção (coletes balísticos adaptados à fisionomia feminina) e as infraestruturas de alojamento ainda estão em processo de atualização para uma realidade mista.

Uma questão mais pessoal para ambas as autoras. O que as inspirou a escrever este livro? Têm familiares militares? Alguma vez sentiram que poderiam seguir uma carreira nesse campo? Ou é principalmente o desejo de narrar histórias de vida, especialmente focadas nas mulheres?

MMPM: Em 1974, quando bati à porta da Academia Militar com uma amiga, o que recebemos foi um riso de incredulidade. Filha de oficial e vinda do Instituto de Odivelas, o rigor militar era a minha casa, mas o sistema ainda não previa mulheres nas suas fileiras. Este livro nasce desse passado de portas fechadas para garantir que as novas gerações saibam que, hoje, não há barreiras que não possam derrubar. O caminho para a paridade continua, mas a visão já se abriu.

CVP: Pessoalmente, não foi a atração pela carreira militar ou nas Forças de Segurança que me motivou para este livro. O meu objetivo é dar visibilidade a mulheres que ocupam papeis de liderança e que tradicionalmente estavam reservados aos homens.  Atualmente, no nosso país, a percentagem de mulheres nas Forças Armadas ronda os 15%, enquanto nas Forças de Segurança é ainda mais baixa - apesar desta percentagem ter vindo a crescer nos últimos anos, é ainda muito residual. Nesse sentido, considero que são importantes obras como esta pois mostram exemplos de resiliência e coragem que podem motivar outras jovens a seguir o mesmo caminho das retratadas.

Cidália Vargas Pecegueiro e M. Margarida Pereira-Muller
"Ato histórico". Força Aérea promove primeira mulher ao posto de major-general
Cidália Vargas Pecegueiro e M. Margarida Pereira-Muller
Paraquedista Liane Ruivaco "faz história" no Exército português

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt