Escândalo em torno de banqueiro deixa Supremo do Brasil em crise
“Guerra nuclear no Supremo Tribunal Federal (STF)”, titulam os telejornais do Brasil. André Mendonça, juiz da corte nomeado por Jair Bolsonaro, decidiu tornar público na terça-feira, 1 de setembro, um inquérito sobre as relações de Daniel Vorcaro, banqueiro detido desde novembro de 2025 após protagonizar o maior escândalo financeiro do país, em que é citado em mensagens comprometedoras o colega Alexandre de Moraes, que conduziu o julgamento que levou à prisão do ex-presidente.
Nas mensagens, Vorcaro pede a Moraes que ele solicite a Paulo Gonet, Procurador-Geral da República (PGR), e a Andrei Passos, diretor da Polícia Federal, ajuda no momento da prisão. “Segunda tenho de estar fora?”, pergunta, num sábado, o banqueiro a Moraes a propósito do dia, 48 horas depois, em que acabaria preso quando embarcava de São Paulo para a ilha de Malta. Por outro lado, a advogada Viviani Barci de Moraes, mulher de Vorcaro, mantinha contratos milionários com o banqueiro.
Antes de serem divulgadas essas mensagens, Moraes pediu um encontro a Mendonça onde lembrou que para investigar um juiz do STF é necessária a concordância de todo o colegiado de 11 magistrados. A meio da conversa, segundo veículos de comunicação brasileiros, os dois quase chegaram a agredirem-se.
O inquérito revelado por Mendonça também atinge o PGR. Numa mensagem, Paulo Gonet, nomeado por Lula, pede que o filho, Pedro Gonet, acompanhe Vorcaro a um evento em Londres com despesas pagas pelo banqueiro. Por isso, causou indignação nalguns setores que o próprio Gonet tenha decidido anular a investigação horas depois da sua divulgação.
Já na manhã desta quarta-feira, 2 de setembro, o site ICL noticiou que o próprio Mendonça manteve contatos com Vorcaro. E divulgou mensagens em que um intermediário do banqueiro, também citado nas mensagens reveladas na véspera, parecia oferecer serviço de alfaiataria ao juiz. Mendonça disse em nota que recebeu Vorcaro “uma única vez”.
Edson Fachin, atual juiz presidente do STF, disse que “a realidade reclama uma manifestação excepcional”. “Os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional (..) esta presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias”.
Em plena campanha eleitoral, o caso contagiou a política. Enquanto Lula vai optar pela distância calculada de Moraes – os dois aproximaram-se após a depredação de 8 de janeiro e a propósito do julgamento de Bolsonaro mas o juiz foi nomeado por Michel Temer –, Flávio já pediu o impeachment do magistrado. “Davi Alcolumbre vai tapar os olhos a isto até quando?”, disse o candidato, referindo-se ao presidente do Senado, a quem cabe determinar impeachments de juízes do STF. “Eu tenho 109 pedidos de impeachment aos juízes do STF, isso não é normal” reagiu o senador,
Flávio, entretanto, está na mira de Mendonça noutro processo envolvendo Vorcaro: o do financiamento milionário ao filme Dark Horse sobre o pai, em que chama “irmãozão” ao banqueiro enquanto pede 61 milhões de reais [cerca de 10 milhões de euros] de patrocínio.
O escândalo em torno de Vorcaro já atingiu, além dos magistrados e de Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro, e Jaques Wagner, líder parlamentar do PT, partido de Lula, entre outros protagonistas da atualidade política de Brasília.
