Com a realização de eleições locais em França no próximo domingo, 15 de março, (estando prevista uma segunda volta no dia 22), o reinado de 12 anos de Anne Hidalgo à frente da Câmara de Paris chegará ao fim, depois da socialista ter anunciado em novembro de 2024 numa entrevista ao Le Monde que não iria recandidatar-se. A primeira mulher à frente da maior autarquia do país ficará para a história como alguém mal-amada em França, mas elogiada e admirada internacionalmente pela luta contra as alterações climáticas.“Não vou tentar um terceiro mandato. Essa decisão já foi tomada há muito tempo. Sempre acreditei que dois mandatos são suficientes para realizar mudanças significativas”, disse Hidalgo, garantindo que vai manter-se na política para “ajudar a construir uma força social-democrata e ambientalista. Continuarei a trabalhar em questões de justiça climática, tanto a nível nacional como internacional. Verei onde me encaixo, num lugar onde terei muita independência.”Hidalgo, de 66 anos, sai da autarquia de Paris com um ligeiro travo amargo, depois de ter sofrido duas derrotas no último ano e meio em objetivos a que se tinha proposto. Pressionou sem sucesso o Partido Socialista para que o candidato à sua sucessão fosse o senador Rémi Féraud e não o seu ex-vice Emmanuel Grégoire, a quem não perdoou ter trocado a autarquia pelo Parlamento nacional, e que acabou por anunciar a sua candidatura “para reconciliar os parisienses” mesmo antes de Hidalgo ter dito que ia fechar este capítulo. No ano passado, investiu numa campanha para a liderança do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados - chegou mesmo a encontrar-se em Nova Iorque com António Guterres, responsável por submeter um nome à votação da Assembleia Geral -, mas viu o iraquiano Barham Salih assumir o lugar a 1 de janeiro. Nesta lista de falhanços pode ainda juntar-se a candidatura de Hidalgo às presidenciais de 2022, depois de ter conseguido 72% dos votos nas primárias socialistas. Mas quando chegou a altura de os franceses escolherem quem queriam no Eliseu, ficou em 10.º lugar entre 12 candidatos com 1,75% dos votos.Nascida Ana María Hidalgo na cidade espanhola de San Fernando, na Andaluzia, a família emigrou para o país vizinho quando tinha apenas 2 anos, tendo-se naturalizado francesa aos 14 (em 2003 voltou a ter também a nacionalidade espanhola). Depois de terminar os estudos, em 1982 tornou-se numa das poucas mulheres a passar nos exames para inspetora do trabalho, passando para a política ativa nas autárquicas de 2001 - foi eleita pelo PS para o 15.º distrito de Paris, acabando como vice-presidente da autarquia da capital francesa.Em 2014, tornou-se na primeira mulher a presidir aos destinos de Paris, colocando a cidade na vanguarda da luta contra as alterações climáticas nas zonas urbanas, com políticas como a construção de centenas de quilómetros de ciclovias, a revitalização do rio Sena para banhos, a incorporação do conceito de cidade de 15 minutos ou a a reflorestação de Paris. No seu primeiro mandato, Paris venceu a candidatura para acolher os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2024, o que ajudou a acelerar ainda mais a sua transformação ecológica. Estas políticas, elogiadas principalmente a nível internacional (o antigo vice-presidente dos EUA Al Gore, que ganhou o Nobel da Paz pela sua luta contra as alterações climáticas, classificou Hidalgo de “visionária”), foram acompanhadas por críticas dos seus opositores sobre o aumento da dívida da cidade para um nível recorde e uma baixa aceitação em França - uma sondagem recente da YouGov dava a Hidalgo apenas 7% de popularidade. .Quem vai suceder a Hidalgo em Paris? Corrida aquece a mais de um ano das eleições.Anne Hidalgo é personalidade do ano da Vanity Fair