O internamento de Jair Bolsonaro no Hospital DF Star, em Brasília, fez aumentar a pressão de familiares e aliados sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) pela concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente, preso desde novembro por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Sob fogo cerrado da opinião pública por envolvimento indireto de juízes num escândalo de corrupção em torno da falência de um banco, a corte avalia concedê-la. E, por cálculo eleitoral, até o governo de Lula da Silva tende a concordar. Bolsonaro está hospitalizado desde sexta-feira, 13, após apresentar mal-estar na cela do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”, onde cumpre pena de 27 anos de prisão. O político foi atendido com febre, vómitos e baixa saturação de oxigénio e os exames diagnosticaram pneumonia bacteriana bilateral decorrente de broncoaspiração.Segundo o último boletim médico, Bolsonaro evoluiu positivamente mas permanece internado nas urgências, a efetuar sessões de fisioterapia respiratória e motora e sob antibióticos. Nos últimos dias, chegou a ser considerada a possibilidade de transferência para um estágio de menor complexidade mas a medida foi descartada diante da necessidade de manutenção do suporte intensivo e da vigilância médica rigorosa.“A cada episódio de pneumonia, mesmo com melhora, ficam marcas no sistema respiratório. As cicatrizes se acumulam, e isso, naturalmente, é muito delicado”, escreveu o vereador Carlos Bolsonaro, segundo filho de Bolsonaro, nas redes sociais.O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência contra Lula em outubro, reuniu-se com Alexandre de Moraes, o juiz relator do caso do golpe, cujo nome vem sendo citado no tal escândalo em torno de um banco, o Master. Segundo o filho mais velho de Bolsonaro, “a conversa foi objetiva e serviu para reforçar aquilo que estava na petição sobre a preocupação da piora do estado de saúde dele por ocasião do local onde se encontra, apesar de ser bem tratado e atendido prontamente quando passou mal da última vez e trazido para o hospital”. “Há risco à saúde dele se continuar em diversos momentos do dia sozinho, principalmente durante a noite”, concluiu Flávio.Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, também marcaram encontros com Moraes. Além disso, 179 deputados federais do partido de Bolsonaro e não só solicitaram a domiciliar oficialmente ao STF, quarta-feira, 18.E a corte, contra as expectativas, avalia agora aliviar os termos da detenção, contrariando a posição recente anterior. Quatro dos 10 juízes do STF acreditam que a prisão domiciliar pode funcionar como “uma forma de proteção institucional ao próprio tribunal”, escreve reportagem do jornal O Globo.Para esses magistrados, a manutenção da prisão na Papudinha pode aumentar a pressão sobre o tribunal caso haja uma evolução negativa no estado de saúde do ex-presidente. A concessão da prisão domiciliar, pelo contrário, reduziria tensões por afastar o Supremo do centro de uma possível crise ainda maior.Não é porém uma posição consensual: outros integrantes do STF defendem que a perícia da Polícia Federal não indicou necessidade de tratamento em casa e recordam que o incumprimento de medidas cautelares, como a violação do uso de tornozeleira eletrónica, inviabilizam o abrandamento da prisão. Paradoxalmente, o Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, também vê como negativa para os seus interesses eleitorais a permanência do ex-presidente na Papudinha. Bolsonaro doente e preso pode sensibilizar os eleitores indecisos, assim como a facada de setembro de 2018 sensibilizou o eleitorado nas eleições que o líder da extrema-direita venceu. Em casa, defendem off the record membros do partido, essa comoção diminui, mesmo que represente mais facilidade de comunicação e maior influência de Bolsonaro na campanha presidencial do filho e nas demais eleições para cargos no Congresso. O jornal Gazeta do Povo, conotado com a direita brasileira, escreveu em editorial que, em coerência, Moraes deve conceder a prisão domiciliar. “Em abril do ano passado, Moraes concedeu prisão domiciliar a Chiquinho Brazão (depois condenado como mandante do assassinato de Marielle Franco), que tem diabetes e problemas cardíacos e renais; no mês seguinte, fez o mesmo em relação ao ex-presidente Fernando Collor, portador de doença de Parkinson, apneia do sono grave e transtorno afetivo bipolar. Não é, portanto, apenas em obediência à letra da lei que Bolsonaro teria direito à prisão domiciliar, mas também em consonância com a prática do próprio Alexandre de Moraes”.A Procuradoria-Geral da República (PGR), entretanto, mantém-se inflexível na recomendação de manutenção da prisão na Papudinha. Para Paulo Gonet, o PGR, a situação não justifica a concessão de domiciliar, reservada a casos em que o tratamento médico indispensável não possa ser oferecido na unidade de custódia, o que, segundo a perícia oficial, não ocorre neste caso..Jair e Flávio Bolsonaro. Descubra as diferenças entre os candidatos