O ministro da Saúde britânico, Wes Streeting, anunciou esta quinta-feira (14 de maio) a sua demissão, dizendo ter “perdido a confiança” no primeiro-ministro, Keir Starmer. Mas, ao contrário do que os seus aliados previam, não se lançou na corrida à liderança do Partido Trabalhista, havendo quem suspeite que não tem os 81 apoios necessários entre os deputados do partido. Por outro lado, a ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner livrou-se dos problemas que tinha com o fisco, abrindo a porta a poder ser ela a desafiar Starmer. Mas tudo indica que não será a primeira a fazê-lo. No meio da luta que se adivinha fratricida no Labour, o chefe de governo continua firme no número 10 de Downing Street, prometendo lutar. Quem vai afinal ter a coragem de avançar? Será o ambicioso ex-ministro, que nunca escondeu querer um dia liderar o governo? Ou aquela que alguns apelidam de “rainha vermelha”, não só pelos cabelos ruivos, mas também por ser da ala mais à esquerda do partido? Ou será o mayor da Grande Manchester, Andy Burnham, conhecido como “rei do Norte”, que ainda antes de desafiar Starmer tem que conseguir ser eleito para o Parlamento - tendo já um lugar em vista após a demissão de um aliado? O (ex-)ministro ambicioso.Streeting, de 43 anos, nunca escondeu o desejo de liderar o partido (e o governo), apesar de ter uma visão mais centrista - próxima da Terceira Via de Tony Blair - do que a maioria dos companheiros. O deputado por Ilforth North desde 2015 anunciou ontem a demissão do cargo de ministro da Saúde, mas ficou aquém de lançar a corrida à liderança dos trabalhistas. Visto como um dos melhores comunicadores dentro do governo, Streeting citou na carta de demissão os maus resultados eleitorais e o crescimento do Reform UK, mas também erros de política que “deixaram o país sem saber quem somos ou o que realmente defendemos”. E arrasou a liderança de Starmer: “Onde precisamos de visão, temos um vácuo. Onde precisamos de direção, temos deriva.” Mas o ex-ministro não desafiou o primeiro-ministro, apesar de dizer que “é claro” que ele não vai liderar os trabalhistas nas próximas eleições. Parece antes apostar na pressão para o forçar a desistir. Os deputados, escreveu, querem que “o debate sobre o futuro seja uma batalha de ideias, não de personalidades ou de faciosismo mesquinho”. E defendeu um debate “amplo” entre “o melhor grupo de candidatos”, pedindo a Starmer que apoie essa abordagem - ou seja, que anuncie que vai sair. Os seus aliados acreditavam que iria lançar-se diretamente na corrida, levantando dúvidas sobre se tem os 81 apoios necessários. Os aliados insistem que tem. Mas há outro número importante: uma sondagem entre militantes trabalhistas revelou ontem que num frente-a-frente só com Starmer, Streeting perderia a votação (53% contra 23%). O primeiro-ministro britânico lamentou a sua demissão. Mas afinal quem é o ex-ministro da Saúde? O político cresceu no seio de uma família da classe trabalhadora, com avós que tinham passado pela prisão por roubo à mão armada. Os pais eram adolescentes quando nasceu, tendo a mãe recusado fazer um aborto, e o político cresceu com o pai. Estudou em Cambridge, assumindo a sua homossexualidade no segundo ano, sendo eleito no último ano para liderar a associação de estudantes.Em 2015, seria eleito pela primeira vez para o Parlamento, com as portas a abrirem-se com a liderança de Starmer. Ocupou vários cargos nos governos sombra, acabando por se tornar ministro da Saúde. A sua experiência enquanto doente de cancro - aos 38 anos foi diagnosticado, tendo que tirar um rim- ajudou-o a perceber o que faltava ao Sistema Nacional de Saúde. Mas esteve à beira de nem sequer ser eleito em 2024, vencendo por apenas 528 votos - o que o deixa em risco na próxima ida às urnas. Esse é um dos obstáculos na corrida à liderança do Labour, assim como a relação que tinha com Peter Mandelson (o ex-embaixador nos EUA que foi demitido pela ligação ao falecido pedófilo Jeffrey Epstein). Streeting divulgou as mensagens privadas que ambos trocaram, para mostrar que a relação não era próxima e tentar desarmar esse argumento. Mas irá sempre aparecer.”Rainha Vermelha”.Angela Rayner, que também tem origens na classe trabalhadora, era uma estrela dentro do partido e do governo quando em setembro do ano passado foi obrigada a demitir-se de vice-primeira-ministra e de número dois do Labour por problemas com o fisco. Esta quinta-feira (14 de maio) revelou contudo que foi ilibada de qualquer irregularidade deliberada ou negligência.As autoridades concluíram que Rayner não pagou o que devia quando comprou uma segunda casa (ela já acertou as contas entretanto), mas que o fez depois de ter sido mais aconselhada. A deputada achava que estava a comprar a primeira casa, depois de ter transferido a sua parte (25%) de uma casa da família para um fundo criado para um dos três filhos, que nasceu prematuro e tem problemas de aprendizagem. Isso abre-lhe a porta para concorrer à liderança do Labour. Numa entrevista ao The Guardian, Rayner, de 46 anos, disse contudo que não será a primeira a fazê-lo. Mas a “rainha vermelha”, como alguns a apelidam pelo seu cabelo e por representar a ala mais à esquerda do partido, não afastou a possibilidade de ser candidata caso Streeting (da ala mais à direita) desencadeie esse processo. “O partido tem que fazer melhor”, disse à ITV quando questionada sobre se queria liderar o Labour. Tudo indica que esteja à espera de Burnham (também da ala esquerda), tendo dito que foi um erro que ele tenha sido impedido de tentar voltar ao Parlamento numas eleições intercalares no início do ano.“Rei do Norte”.O mayor da Grande Manchester, de 56 anos, já tentou por duas vezes ser líder do Partido Trabalhista, tendo falhado tanto em 2010 como em 2015. Mas a sua popularidade pelo seu trabalho como autarca no norte de Inglaterra faz com que agora seja apontado como um favorito - apesar de ainda não ser deputado. Algo que poderá ficar resolvido em breve.Esta quinta-feira (14 de maio), o deputado Josh Simons, eleito por Makerfield com cerca de cinco mil votos de vantagem, anunciou a sua demissão para permitir que Burnham possa candidatar-se às eleições para o substituir. “Vou retirar-me para que Andy Burnham possa regressar a casa, lutar para voltar ao Parlamento e, se for eleito, promover a mudança que o nosso país tanto necessita”, revelou Simons, surpreendendo muitos já que era visto como próximo de Starmer. O Partido Trabalhista, depois de ter travado já uma tentativa, terá poucos argumentos para o travar agora - arriscando uma revolta interna. E Burnham já confirmou que vai querer candidatar-se. “Vamos mudar o Partido Trabalhista para melhor e torná-lo num partido em que se possa voltar a acreditar”, disse. Mas onde o Labour pode falhar em travar Burnham, o Reform UK de Nigel Farage ou até os Verdes de Zack Polanski podem ter sucesso, depois dos resultados das eleições locais da semana passada. E, no meio da crise, o Labour perder também em Grande Manchester (que só ia a votos em 2028). Numa eventual disputa com Starmer, Burnham tem a vantagem nas sondagens, conseguindo 61% frente a apenas 28% do primeiro-ministro. Há uma piada que, segundo o The Independent, resume o perfil flexível do autarca (que pode ser um entrave se chegar a chefe de Governo): “Um apoiante de Blair, um apoiante de [Gordon] Brown e um apoiante de [Jeremy] Corbyn entram num bar. O barman pergunta: ‘O que bebes, Andy?’”.OutrosEstes nomes são os que mais se falam, mas pode haver uma surpresa. O secretário de Estado para as Forças Armadas, Al Carns, um veterano de cinco missões no Afeganistão mas novato na política, tendo sido eleito deputado apenas em 2024, também estará a pensar concorrer, segundo os aliados. A dúvida é saber se conseguirá os 81 apoios necessários. Outro nome que se fala é o de Ed Miliband, que já foi líder do partido e perdeu as eleições de 2015 para David Cameron. Podia surgir como candidato do consenso.