Uma semana depois de mais de 72 mil migrantes terem entrado ilegalmente em Ceuta a partir de Marrocos, numa onda humana que também causou mais de uma centena de mortos, as autoridades calculam que três mil a cinco mil permaneçam na cidade autónoma espanhola. Incluindo mais de mil menores não acompanhados, cuja redistribuição por outras comunidades está a testar as alianças entre PP e Vox. O autarca de Ceuta, Juan Jesús Vivas, fala numa “emergência humanitária de grande envergadura”, quando nas redes sociais continuam a espalhar-se os rumores sobre uma nova entrada maciça. “É verdade que a fronteira vai estar aberta no dia 15?”, perguntava-se numa das três comunidades do Facebook (que somam 210 mil pessoas) e cinco grupos de WhatsApp (com 400 membros) analisados pela RTVE. Essa é a data mais falada, mas após terem vindo a público esses planos, já se começa a falar noutros dias, segundo a televisão pública espanhola, que diz que estão a ser convocadas concentrações em duas dezenas de locais e que as mensagens incluem possíveis rotas de entrada e conselhos. “O risco de tal se concretizar é real, mas a sua magnitude é incerta”, diz um documento oficial da Guardia Civil, citado também pela RTVE, concluindo que não é certo que haverá um novo “assalto” a 15 de agosto, mas “há uma convocatória digital ativa” e o movimento de pessoas “é possível”. As ações “preventivas” de Marrocos “serão determinantes”, tal como “o reforço espanhol”, conclui o documento. MenoresÀ espera do que possa acontecer, o foco vira-se para a resposta ao que já aconteceu nos dias 30 e 31 de julho. Não só para a emergência nas ruas de Ceuta, onde ainda continuam milhares de migrantes, mas também para o problema dos menores não acompanhados.A cidade autónoma acolhia 1017 destes jovens, segundo os números oficiais, muito acima da capacidade máxima de acolhimento (que é apenas de 29). A lei exige a redistribuição obrigatória e baseada na solidariedade entre comunidades autónomas destes menores quando um território ultrapassa em três vezes essa capacidade máxima.Em julho de 2024, o tema da redistribuição de menores não acompanhados levou à rutura dos acordos entre o Partido Popular (PP) e o Vox, quando Alberto Núñez Feijóo aceitou que as comunidades governadas pelo seu partido acolhessem esses migrantes. As quatro últimas eleições autonómicas (Extremadura, Aragão, Castela e Leão e Andaluzia) deixaram o PP novamente dependente do Vox, com os conservadores a assinarem pactos de governo onde se lê “chega de menores não acompanhados”. O Vox insiste em “opor-se” à redistribuição, mas o PP admitiu que “vai cumprir a lei” e que isso está nos pactos – fontes dos diferentes governos autonómicas disseram contudo ao El País que vão colocar todo o tipo de entraves, esgotando os recursos nos tribunais.“As conversações que tivemos com os governos indicam que se vão opor a isso”, insistiu o porta-voz do Vox, José María Figaredo, referindo-se aos líderes dos governos autonómicos. O partido da extrema-direita alega que “cumprir a lei” é devolver os menores a Marrocos e afasta a hipótese de romper os acordos.Os dois partidos insistem em culpar o governo de Pedro Sánchez pelo sucedido, devido ao processo de legalização de 1,2 milhões de migrantes em situação ilegal, com o PP a querer manter a pressão sobre o executivo, solicitando que vários ministros vão ao Congresso para dar explicações. .Agustín Galán Machío: “Tantos jovens morrem no mar e até parece que a culpa é deles ou das máfias”.Crise migratória: milhares de imigrantes cruzam ilegalmente fronteira entre Marrocos e Ceuta.Bruxelas: regularização de migrantes “não é um bom sinal”, mas não teve ligação à crise de Ceuta