O Irão acusou esta terça-feira (26 de maio) os EUA de violarem o cessar-fogo e avisou que os bombardeamentos norte-americanos durante a noite, no sul do país, não vão ficar sem resposta. Os ataques que Washington alegou serem “de autodefesa”, contra duas embarcações que estariam a colocar minas no Estreito de Ormuz e alegados lançadores de mísseis, complicam mais as negociações para um acordo de paz. Mas, por enquanto, não travam o diálogo. Esta quarta-feira (27 de maio), o presidente Donald Trump faz uma reunião pouco comum da sua Administração em Camp David com o Irão na agenda.“Os EUA cometeram uma grave violação do cessar-fogo na região de Hormozgan nas últimas 48 horas”, indicou o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, após relatos de explosões ouvidas ao princípio da madrugada em Bandar Abbas. “O Irão responsabiliza o regime norte-americano por todas as consequências resultantes destas ações agressivas e injustificadas”, acrescentou num comunicado.A Guarda Revolucionária do Irão afirmou, por seu lado, que se reserva o direito de retaliar contra quaisquer violações do cessar-fogo - tendo, alegadamente, abatido um drone MQ-9 Reaper (um dos maiores do arsenal dos EUA). Anunciou ainda ter disparado contra um caça F-35 Lightning II e um drone de vigilância RQ-4, forçando-os a deixar o espaço aéreo iraniano.Estas alegações surgem depois de o Comando Central dos EUA (CENTCOM), responsável pelas operações no Irão, anunciar ter lançado “ataques de autodefesa” perto do Estreito de Ormuz para proteger as suas tropas “das ameaças representadas pelas forças iranianas”. O porta-voz do CENTCOM, o capitão Tim Hawkins, disse em comunicado que as forças norte-americanas atuaram “com moderação durante o cessar-fogo em vigor”. A Casa Branca também rejeitou a ideia de que houve uma violação do cessar-fogo. Mas o Irão considera que estes ataques são mais um sinal de “má-fé e falta de fiabilidade” por parte de Washington, numa altura em que prosseguem as negociações para um acordo de paz. E não é a primeira vez que o Irão fica debaixo de fogo quando está a dialogar com os EUA.Os dois lados estavam em processo de negociação quando, em junho do ano passado, os norte-americanos lançaram a Operação Martelo da Meia-Noite contra instalações nucleares iranianas (depois de os israelitas terem iniciado dias antes os seus ataques). E uma nova ronda de negociações estava prevista quando, a 28 de fevereiro, os EUA avançaram com a Operação Fúria Épica (junto com Israel) e começaram a guerra. Apesar de o cessar-fogo ter sido declarado a 7 de abril, Teerão já disse, em várias ocasiões, que não há confiança em Washington. Pouco depois dos ataques no sul do Irão, Trump partilhou na Truth Social uma imagem em que comparava a política do antecessor Barack Obama em relação a Teerão com a sua. Na imagem do ex-presidente democrata via-se um monte de dinheiro, na de Trump um navio a lançar mísseis e a abater aviões iranianos. .Um meme numa altura em que, segundo as fugas de informação sobre as negociações, a libertação dos fundos iranianos congelados (cerca de 12 mil milhões de dólares) é precisamente um dos obstáculos ao acordo - e sabendo-se como Trump foi critico desse gesto de Obama não se sabe como será ultrapassado. Mas o dinheiro não é o único entrave, com as discussões centradas na reabertura do Estreito de Ormuz - um trunfo que Teerão descobriu ser muito eficaz para prejudicar a economia mundial (por ali passava, antes da guerra, 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo). Esta terça-feira (26 de maio), o Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido disse que houve relato de uma “explosão externa” num petroleiro no Golfo de Omã, perto do estreito. O incidente, que não fez feridos mas provocou um pequeno derrame de combustível, está a ser investigado. Apesar da dificuldade do diálogo e da ameaça ao cessar-fogo, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, defendeu que um acordo ainda está ao alcance. “Acho que há muita conversa sobre a linguagem específica do documento inicial, por isso vai demorar alguns dias”, referiu. “O presidente expressou o seu desejo de chegar a um acordo. Vai fechar um bom acordo ou nenhum acordo”, referiu aos jornalistas que estão com ele na viagem oficial à Índia.Mas isso poderá mudar esta quarta-feira (27 de maio), com Trump a convocar a sua Administração para uma rara reunião em Camp David - incluindo a demissionária líder dos serviços de informação, Tulsi Gabbard, que sai no final de junho. O retiro presidencial em Maryland foi palco de importantes momentos políticos no passado, incluindo os acordos de 1978 que serviram de base para o tratado de paz entre Israel e o Egito ou a cimeira entre os líderes israelita e da Autoridade Palestiniana em 2000. Trump só visitou Camp David 15 vezes no primeiro mandato e uma outra já neste segundo, em junho do ano passado, dias antes do ataque ao nuclear iraniano. Segundo os media norte-americanos, o Irão vai dominar a agenda da reunião, onde também será discutida a situação económica.“Se a região entrar noutra ronda de guerra, a resposta do Irão estender-se-á para além das fronteiras regionais e será muito mais pesada e forte”, avisou entretanto um porta-voz das Forças Armadas iranianas, Abolfazl Shekarchi, citado pela agência de notícias semioficial Fars. Mais cedo, o líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, tinha quebrado o silêncio numa declaração escrita no X (ainda não foi visto em público desde que a guerra começou, o pai foi morto e ele foi eleito sucessor) deixando uma mensagem para os EUA e os países da região.“Os ponteiros do tempo não vão recuar e as terras da região já não servirão de escudo às bases americanas”, indicou na mensagem enviada por ocasião do início do Hajj (a peregrinação anual dos muçulmanos a Meca). “Os Estados Unidos deixarão de ter um refúgio seguro para as suas artimanhas e para o estabelecimento de bases militares no Médio Oriente”, acrescentou, terminando com uma mensagem para Israel: “O regime sionista abalado e o tumor cancerígeno de Israel estão a aproximar-se das fases finais da sua existência miserável.”