Dennis Redmont: “Nestes últimos dias de campanha nos EUA instalou-se a ‘pornografia do medo’”
Os americanos vão esta terça-feira a votos para eleger os 435 membros da Câmara dos Representantes, um terço do Senado e 36 dos 50 governadores. Que novidades viu nesta campanha em relação a outras anteriores?
Eu destacaria quatro pontos. Nos últimos dias da campanha instalou-se a chamada “pornografia do medo”. Isto quer dizer que candidatos dos dois lados têm feito acusações absolutamente fantasmagóricas. Por exemplo, os republicanos têm questionado os eleitores se querem uma situação como a que se vive França, onde temos protestos nas ruas e impostos que aumentam. Isso é feito para causar medo nos eleitores.
Que consequências é que essa “pornografia do medo” pode ter nos eleitores. Será suficiente para fazer mudar o sentido de voto de alguns?
Eu acho que só os mais indecisos vão mudar de ideia. Esses são 4 ou 5%. Porque a maior parte dos eleitores já votou, 50 milhões já votaram. Desta vez o voto antecipado por foi muito mais elevado do que noutras intercalares. Mas esses 4% ou 5% são chave em alguns estados. Se quisermos ter uma ideia do que se passa com os eleitores de Trump, basta olhar para a rede FOX. É por lá que têm passado vários membros da Administração. Mas a FOX viu a sua audiência cair 27%. A FOX só fez a cobertura de nove dos 24 discursos de Trump nesta campanha. O resto não cobriu. E nas sondagens, a aprovação dos espectadores da FOX ao trabalho feito pelo presidente era de apenas 36%. Portanto, nesta “pornografia do medo” instala-se a incerteza. E nessa incerteza, 8% das pessoas usa a Inteligência Artificial para responder às perguntas que lhes são feitas. É a primeira vez que tal acontece numas eleições. Esta é a primeira eleição em que a IA tem um papel. Também os métodos das sondagens mudaram, a sequência de perguntas está mais sofisticada quando ligam para as pessoas. E encontrou-se um método para ligar para os telemóveis, porque antes as sondagens eram feitas apenas através dos telefones fixos. Outra coisa que surgiu agora pela primeira vez é o prediction market. Há agora sites como o Polymarket, outro chamado Kalshi e ainda o Predictit, onde as pessoas agora podem apostar e que depois apresentam as estatísticas sobre quem é mais provável ser o vencedor numa corrida. Estes sites têm batido recordes de visitas, mas é a primeira vez numas eleições em que se utiliza esse mercado das previsões. E, por fim, outro aspeto que também é interessante é o voto católico nos EUA, com o papa a ter votado. E toda a gente sabe que o papa Leão XIV não é exatamente amigo de Trump. Portanto, estas são as quatro novidades desta eleição um pouco atípica.
A acreditar nas sondagens - e já se sabe que estas por vezes falham - podemos esperar que os democratas recuperem o controlo da Câmara dos Representantes. O Senado parece mais difícil. A confirmar-se esta maioria democrata pelo menos na Câmara, vamos ter um Donald Trump mais limitado nestes dois últimos anos de mandato, sobretudo na política interna?
Trump geralmente faz o contrário. Ele redobra sempre os esforços. Portanto, é preciso termos em conta que as pessoas que forem eleitas nestas intercalares só vão tomar posse em janeiro. E muitas coisas podem mudar nos próximos três meses. Temos ainda novembro, dezembro, janeiro. Em janeiro vamos ter as eleições dentro do próprio Congresso para as várias comissões. Por exemplo, as Comissões da Defesa ou das Apropriações [que regula as despesas em dinheiro do governo dos EUA], etc. São comissões-chave. Portanto, mesmo que os democratas queiram acelerar, não podem porque não existe nada até início de janeiro. Portanto, vão ser uns meses loucos.
Um dos momentos que marcou este último fim de semana de campanha foi quando Haley Stevens, a candidata derrotada nas primárias democratas para o Senado no Michigan, decidiu apoiar o candidato republicano em vez do democrata Abdul el-Sayed. Estas divisões no campo democrata e esta escolha de candidatos mais radicais, podem prejudicar o partido nas urnas, sobretudo junto dos eleitores mais moderados?
O que temos de perceber é que as eleições nos EUA são muito diferentes da Europa. Por exemplo, Haley Stevens no Michigan diz que vai votar democrata em todos os candidatos, menos no candidato para o Senado. Portanto, é possível que alguns eleitores sofisticados queiram fazer um voto cruzado. Ou seja, votarem em alguns candidatos democratas e noutros republicanos, sobretudo nas eleições locais. Portanto, essa é uma grande incógnita. Quantas pessoas vão fazer um voto cruzado como Stevens? Naturalmente, os trumpistas disseram logo que era um grande golpe a seu favor. Mas, na verdade, só vai afetar o Senado que é, naturalmente, a coisa mais importante.
Na reta final desta campanha, vimos Barack Obama ao lado dos candidatos democratas em vários estados. O que vale o apoio de um ex-presidente como ele?
Pode ter influência em alguns estados-chaves. Sobretudo naqueles que tiverem uma população afro-americana mais significativa. No resto, acho que não. Porque muitas pessoas já decidiram como vão votar.
Passadas as intercalares, todos os olhares se vão virar rapidamente para as presidenciais de 2028. Nesta terça-feira vamos ter candidatos a senador, candidatos a governador, etc., a votos. Sobretudo do lado democrata, estas intercalares são uma oportunidade para alguns candidatos a 2028 se posicionarem?
Naturalmente que sim. Mas neste momento ainda não há uma figura que se imponha. Nem de um lado, nem de outro. Vamos ter de esperar. Sobretudo se houver mais guerras, se houver mais desenvolvimentos políticos.
