Alguns dos seus livros anteriores estiveram disponíveis discretamente na China em chinês, em edições de Hong Kong ou Taiwan, ou até circularam em edições piratas. Mas hoje é quase impossível que este novo Voai, Cisnes Selvagens, publicado em Portugal pela Quetzal, esteja disponível na China?Bem, os meus livros nunca foram publicados na China. Nenhum dos meus livros está publicado na China. Existiam edições piratas antes, mas agora é impossível fazer edições piratas porque o controlo é muito mais rigoroso do que antes. E a tecnologia moderna forneceu às ditaduras ferramentas muito eficazes, permitindo-lhes exercer um controlo praticamente imperceptível na China. Por isso, não vejo nenhuma edição pirata dos livros na China.Mesmo em Hong Kong, apesar da fórmula "um país, dois sistemas", atualmente será difícil imprimir um livro considerado crítico, como o seu último?É muito difícil. Foi impossível publicar este livro em Hong Kong. Assim, transferi a publicação para Taiwan. De facto, a partir de 2019, quando a China retomou efetivamente o controlo sobre Hong Kong, percebi que se tornou simplesmente impossível publicar livros como os meus. Assim, nessa altura, transferi a publicação de todos os meus outros livros em chinês para Taiwan.Relembrando esses tempos diferentes na China, quando publicou Cisnes Selvagens - Três Filhas da China, conta agora que durante as suas visitas para pesquisar para a biografia de Mao Tsé-tung oferecia o livro às pessoas e elas ficavam muito curiosas. O Cisnes Selvagens era sobre a sua avó, a sua mãe e sobre si. Qual foi o impacto desse livro de 1991 na China?Penso que na década de 1990 a China viveu provavelmente o período mais livre sob o regime comunista. O meu marido, Jon Halliday, e eu tivemos muita sorte em aproveitar essa janela de oportunidade e, assim, pudemos investigar para a biografia de Mao. Quando pesquisei para a biografia de Mao, dava sempre às pessoas que queria entrevistar um exemplar de Cisnes Selvagens, para que conhecessem os meus pontos de vista, e para que soubessem que tipo de escritora eu era. Acredito que perceberam que sou uma escritora honesta. Não sigo orientações partidárias, e por isso falaram comigo. Na década de 1990, Cisnes Selvagens foi muito importante para mim, pois abriu portas à minha investigação. Além disso, fora da China, entrevistámos muitas pessoas que tinham tido experiências interessantes com Mao, e nós dávamos-lhes sempre um exemplar de Cisnes Selvagens e também nesse caso o livro abria muitas portas. Num sentido mais amplo, Cisnes Selvagens fez com que muitos chineses sentissem que também tinham uma história familiar que valia a pena contar, e depois acho que muitas pessoas começaram a escrever as suas memórias familiares.Acha que a sua história familiar, o entusiasmo pelo comunismo dos seus pais no início, as dificuldades da Revolução Cultural, até mesmo a violência sofrida, fez com que as pessoas na China se identificassem com Cisnes Selvagens por ser algo semelhante ao que muitas famílias viveram?Talvez os meus pais fossem mais de esquerda do que a maioria, jovens mais radicais quando se juntaram aos comunistas na adolescência. Mas penso que muitas pessoas partilharam experiências semelhantes e tornaram-se vítimas das incessantes perseguições políticas sob Mao. Se não foi vítima ontem, será vítima hoje ou no futuro. Penso que, nesse sentido, as pessoas partilharam muitas experiências. E também, para as pessoas da minha geração, vivemos sob um regime totalitário. Vimos as nossas escolas serem encerradas e fomos enviados, de certa forma exilados, para as aldeias para trabalharmos como camponeses. E este tipo de experiência houve muitas pessoas na China que também a viveram.A sua biografia de Mao Tsé-Tung, publicada em 2005 com o título Mao - A História Desconhecida, é muito crítica em relação ao fundador da República Popular da China. Conversou com muitas pessoas que o conheceram pessoalmente. Mas, ao ler este seu último livro, é evidente, pelo contrário, que tem uma opinião positiva sobre Deng Xiaoping. O líder pós-Mao, o promotor da reformas económicas de finais dos anos 1970. Deng nunca foi um projeto seu para uma biografia?Não. Como conto neste meu último livro, na altura, a madrasta e a irmã de Deng queriam que eu escrevesse algo sobre ele. Claro que, naquela altura, na década de 1980, eu estava muito entusiasmada com Deng, porque ele era como um libertador. Pôs fim à tirania da era Mao e iniciou reformas. E a abertura ao exterior, a amizade com os países do Ocidente. E tudo isso me beneficiou. E então fiquei tentada. E aí percebi que ele cometeu o maior erro, na minha opinião: recusou-se a denunciar Mao. Porque queria que o Partido tivesse poder absoluto, mesmo sem Mao. Essa foi a razão pela qual não se quis dissociar de Mao. E não era isso que eu queria. Estava apreensiva com as reformas feitas sob a liderança do Partido, porque é muito, muito difícil para uma tirania comunista transformar-se numa democracia e numa sociedade livre, que eu tanto desejava. E por isso decidi não escrever uma biografia, porque sei que a família dele não iria gostar, e não quero magoar a Tia Deng, como lhe chamávamos, e a Avó Deng, que eu adorava.Mas esta prosperidade que vemos hoje na China, muito diferente da pobreza da época de Mao, é, na sua opinião, o resultado direto das reformas de Deng, das suas reformas económicas, não políticas?Sim, acho que Deng Xiaoping iniciou as reformas que levaram à prosperidade atual. E sim, não se tratou de uma reforma política, mas qualquer reforma económica conduz inevitavelmente à liberalização, ao relaxamento do controlo político. E enquanto estas mudanças não ameaçarem o domínio absoluto do Partido sobre a China, o poder absoluto, o Partido tolera ou tolerou estas mudanças. Como me disse uma das pessoas que entrevistei, “nós permitiremos que vocês, ou seja, a população, tenham tudo, mas nunca permitiremos que tenham o nosso trono”. Trono significa poder absoluto. E é por isso que a China de hoje vive um período muito frustrante. É uma época frustrante ver a sociedade a transbordar de energia para continuar a liberalizar-se e a tornar-se uma sociedade livre, enquanto o Partido se esforça ao máximo para reprimir e manter o seu poder..Voltarei mais ao tema Partido Comunista, mas gostaria de lhe perguntar sobre Cixi, a famosa imperatriz viúva, da qual escreveu também a biografia. É interessante porque o seu livro sobre ela oferece-nos uma visão mais benevolente dos últimos anos da Dinastia Qing do que é habitual. A fundação da República da China por Sun Yat-sen em 1912 era algo óbvio devido a uma Dinastia Qing decadente? Ou, se Cixi tivesse sido mais bem-sucedida nas reformas, talvez o sistema imperial tivesse sobrevivido?Bem, a questão é a seguinte: penso que Cixi, nos seus últimos anos, na última década do século XIX e na primeira década do século XX, antes de morrer em 1908, desejava transformar a China numa monarquia constitucional democrática. No entanto, ela enfrentou um obstáculo fatal: o governo Qing era como um governo estrangeiro. A Dinastia Qing não era governada pelos chineses Han, que eram a maioria. Era manchu, e os manchus representavam apenas 1% da população chinesa. Assim, uma vez se se tornasse numa monarquia constitucional, inevitavelmente a Dinastia Qing não poderia durar. Creio que Cixi, como líder muito sábia, apercebeu-se disso. E, de facto, como escrevi na biografia, como descobri, ela tomou medidas e garantiu que a Dinastia Qing entregasse o poder pacificamente aos republicanos. E, claro, isso significou o fim da sua própria dinastia. Mas admiro-a muito porque colocou os interesses da China acima dos da sua própria dinastia. Isso foi extraordinário.Mas a ideia do século de humilhação após a Guerra do Ópio é ainda muito importante na mentalidade chinesa. Ainda faz parte do discurso oficial. Foi realmente um período muito difícil para a China, este período após a guerra com a Grã-Bretanha em 1839-1842, com as potências ocidentais a aproveitar para ganhar esferas de influência?Bem, acho que essa ideia da humilhação de 100 anos se deve em grande parte à propaganda. A Guerra do Ópio, claro, ninguém pode negar que foi horrível. Aconteceu antes de Cixi nascer. Aliás, o ópio acabou durante o seu governo. Mas ela também percebeu que a comunicação com o Ocidente poderia trazer benefícios para a China e para o povo chinês. Portanto, ela iniciou a modernização e tudo o que era moderno estava sob o seu controlo, o que trouxe enormes vantagens para a população chinesa. E foi ela a primeira a proibir o enfaixar dos pés. A minha avó sofreu muito por os pés serem esmagados e atados. Cixi começou a ser contra enfaixar os pés, influenciada por missionários e diplomatas ocidentais, entre outras pessoas na China. Ela conseguia ver todos os benefícios que o contacto com o Ocidente poderia trazer para a China e para o povo chinês. A humilhação de 100 anos é muitas vezes um mito. Como o próprio Deng Xiaoping disse, falando da humilhação de 100 anos, na verdade, os países que realmente prejudicaram a China foram o Japão e a Rússia, incluindo a União Soviética. Quer dizer, na verdade, os outros países ocidentais, tirando a Guerra do Ópio, fizeram mais coisas boas à China do que coisas terríveis. A China nunca foi colonizada. Nunca foi uma colónia. .Voltemos então ao Partido Comunista, que já governa há mais de 75 anos. Xi Jinping é agora muito ambicioso em relação à ultrapassagem dos EUA como superpotência. Com base no que conhece das características do povo chinês e dos recursos do país, considerando a história plurimilenar, e um passado como grande potência, acha que a China voltará a ser um dia o país mais poderoso do mundo?Bem, não sei. Há quem diga que a China está certamente a tentar lá chegar. Essa é a ambição de Xi. Mas acho isso assustador. Quer dizer, eu de certa forma fugi do regime do Partido Comunista Chinês. E imagine se a China dominar o mundo. Para onde vou fugir? Para onde vamos fugir?Mas não imagina que a China, sendo economicamente bem-sucedida e com uma população altamente instruída, se tornará um dia um regime mais liberal do que é hoje?Durante muitos anos pensei que sim. Nas décadas de 1980, 1990 e durante alguns anos do século XXI, muitas pessoas acreditavam que a prosperidade traria mais liberdade e democracia. Mas estávamos enganados. O Partido Comunista Chinês tem os seus próprios planos. E esse plano é fazer com que a China se assemelhe mais à época de Mao do que à época liberal de Deng. Neste momento, o regime está a tentar levar a China de volta à era maoísta. Mas é claro que não teve muito sucesso. Mas não está a caminhar para um país mais liberal, que é o tipo de país em que queremos viver. É assustador só o facto de quererem construir uma China mais parecida com a de Mao. É assustador para o mundo inteiro se a China estiver a caminhar para uma sociedade mais parecida com a sociedade de Mao.Escreveu muito sobre a China, sobre a sua família, sobre si própria, a sua raízes chinesas e também sobre a sua paixão pelo Ocidente. Agora é cidadã britânica e tem orgulho nisso. Qual a importância da cultura chinesa, das suas memórias de infância e dos seus laços familiares na sua personalidade? Ser chinesa e ser britânica, é possível conciliar estas duas culturas?Penso que a Grã-Bretanha é um lugar maravilhoso, em parte porque não há problema nenhum em sentir-se tão chinesa ou chinês quanto se queira neste país, em viver como chinesa ou chinês, da forma que se desejar. É difícil dizer como dividir o quanto me sinto chinesa e o quanto me sinto britânica. Mas preocupo-me muito com a China, com o seu povo e com a sua civilização. A razão pela qual me sinto tão revoltada com o regime maoísta é que este representa uma destruição quase completa da civilização chinesa. Uma destruição horrível que aconteceu diante dos meus olhos quando era criança, por exemplo. A minha escola era a mais antiga da China, fundada em 141 a.C. Em 1966, quando eu tinha 14 anos, começou a Revolução Cultural e Mao apelou aos jovens para que destruíssem a cultura antiga. E vi a minha escola, as suas antiguidades, o seu templo de Confúcio, as suas grandes tábuas com os ensinamentos de Confúcio, as suas estátuas antigas e os seus belos jardins, tudo a ser destruído e pisado. E o jardineiro da minha escola foi espancado e morreu por causa disso. Eu vi esta destruição da cultura chinesa e é por isso que quero escrever sobre estas coisas, porque me preocupo muito com a destruição da civilização chinesa.Mas hoje em dia o regime preocupa-se muito mais com o realçar da história chinesa. Tem uma abordagem diferente.Acho que não se importam muito porque acreditam no marxismo, no leninismo e no maoísmo. Isso não é cultura chinesa. É cultura estrangeira. É uma cultura que foi rejeitada pelas pessoas dos seus próprios países. Na China vi pessoas destacadas para me vigiar, os agentes de segurança do Estado. Por amor de Deus, arranjem uma ideologia chinesa se realmente amam a China. Encontrem algo que esteja enraizado na civilização chinesa e venerem isso, a nossa própria cultura, e não herdem uma cultura estrangeira que foi desacreditada pelos próprios ocidentais..A China comunista celebra hoje 75 anos e a Revolução agora é ultrapassar os EUA