Lula da Silva criticou a qualidade dos adversários na corrida presidencial.
Lula da Silva criticou a qualidade dos adversários na corrida presidencial.EPA / Andre Borges

Debate sem Lula e Bolsonaro foi cancelado. "São infrutíferos", diz o presidente do Brasil

Globo anunciou o cancelamento após duas decisões judiciais sobre o formato do debate. Decisões foram contestadas pelos candidatos. Esta é a primeira vez em 20 anos, que os favoritos não se enfrentam.
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O presidente brasileiro, Lula da Silva, considerou “infrutíferos” os debates promovidos pela TV brasileira na primeira volta, ao justificar a ausência para todos os convites que recebeu, e criticou a qualidade dos adversários na corrida presidencial.

“Eu acho que esses debates estão infrutíferos, não produzem nada. Não dá sequência. Então o pessoal começa a fazer gracinha, a fazer pegadinha”, declarou em entrevista ao Flow Podcast na noite de quinta-feira, 1 de outubro.

Lula explicou ainda a razão que o levou a recusar participar do debate organizado pela TV Globo, a três dias das eleições gerais, que acabou cancelado pela própria emissora poucas horas antes, após uma polémica com o Tribunal Superior Eleitoral e com a ausência de Flávio Bolsonaro.

Lula chegou a sugerir uma espécie de divisão, em que os líderes das sondagens debatem entre si e aqueles com índices menores se juntam para debater.

“Eu gostaria que uma televisão fizesse a mesma pergunta para candidatos em condições de disputar. Não pode pegar uma pessoa que tem 49% e levar para disputar com quem tem 1%. É desproporcional até para o eleitor", criticou.

Pelas regras do sistema eleitoral brasileiro, a imprensa fica obrigada a convidar para participar dos debates a presidente ou governador aquele político cujo partido tem no mínimo cinco eleitos na Câmara dos Deputados. Os demais casos, ficam a critério do meio de comunicação.

Ainda na entrevista, Lula voltou a repetir estar confiante que vencerá as eleições na primeira volta, e voltou a atacar o seu principal adversário ao chamar “desqualificado” e “menino” a Flávio Bolsonaro.

As sondagens de intenção de voto no Brasil mostram um cenário apertado numa eventual segunda volta, em que Lula, que a busca reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, estão estatisticamente empatados.

Durante entrevista, Lula foi questionado sobre o facto de ter encerrado o segundo mandato, em 2010, com mais de 80% de aprovação e, agora, ter 45% de rejeição segundo as sondagens.

“Eu fico imaginando por que a pessoa sairia de casa para votar em Flávio Bolsonaro. Pensando no quê? O que ele tem para oferecer? O passado dele é tenebroso. A única coisa que tem é o anti-Lula, o anti-PT, o anti-esquerda”, respondeu.

“Porquê? Por conta dos avanços sociais que a sociedade brasileira teve”, completou ao dizer que sempre vai “respeitar a decisão do povo”, mas que é preciso “trabalhar para politizar a sociedade” ao referir-se, mais uma vez a Flávio como desqualificado.

Ainda na entrevista, Lula da Silva foi questionado sobre a razão pela qual é candidato depois de declarar, há alguns anos, que não seria candidato à reeleição. “Eu sei qual é a responsabilidade política. Se não fosse eu para enfrentar esses fascistas, eles ganhariam as eleições com facilidade”, respondeu. “Então, eu sou um entrave para eles. Enquanto eu estiver vivo, eu vou trabalhar para que o fascismo não volte para este país”, concluiu.

Instantes antes de encerrar a entrevista de quase duas horas, Lula fez um apelo aos eleitores acima dos 70 anos, que não são obrigados a votar, e aos mais jovens, a quem chamou “rebeldes”, para que eles saiam de casa para votar. “É o seguinte, o Brasil não parou porque você fez 70 anos, e as suas necessidades não pararam, porque você tem filhos, neto, bisnetos, então vá votar pelo Brasil que você quer para os seus filhos e seus netos”, declarou ao lembrar que ele mesmo tem 80 anos.

“A juventude é muito rebelde, indignada, xinga todo mundo, todo mundo é ladrão. Não é assim, por isso [Jair] Bolsonaro cresceu, porque a ignorância leva a gente a fazer coisas erradas”, declarou ao convidar a juventude a entrar na política e na vida pública do país.

Inédito desde 2006

A TV Globo cancelou o debate eleitoral de quinta-feira depois da desistência de última hora do senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro e depois de imposições judiciais feitas pouco antes do início do debate.

O anuncio da estação de televisão foi feito cerca de uma hora antes do início do debate que iria decorrer às 21:30 locais (01:30 desta sexta-feira em Lisboa), com a TV Globo a indicar que a razão perdeu-se após a juíza do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Estela Aranha proibir um lugar reservado ao candidato vazio com nome de Lula e do juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes determinar a inclusão do candidato Renan Santos no debate.

A decisão de Estela Aranha, tomada a pedido da equipa de Lula da Silva, anulou a regra que previa a manutenção de um lugar vazio com o nome do candidato ausente e a possibilidade de os restantes participantes lhe dirigirem perguntas. Estas condições tinham sido previamente aceites por todos os partidos, incluindo o Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula.

Já a decisão de Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos, do partido Missão, no debate. A obrigação de convidar candidatos para debates na rádio e na televisão está prevista na lei e é regulamentada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Poucos minutos antes do anuncio da TV Globo, o senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro cancelou a participação no debate, numa decisão que surpreendeu os seus apoiantes que o aguardavam à chuva, constatou a Lusa no local.

“Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas. Em breve mais detalhes”, escreveu Flávio Bolsonaro nas redes sociais. O candidato do Partido Liberal (PL) tinha confirmado a participação no encontro, o segundo e último antes da primeira volta das presidenciais de domingo.

Esta é a primeira vez em 20 anos, ou seja, desde as eleições gerais de 2006, que os principais candidatos que lideram as sondagens de intenção de voto no Brasil para presidente não se enfrentam num debate organizado pela imprensa.

Sem Lula, e depois Flávio Bolsonaro, os participantes no debate teriam sido o escritor de livros de autoajuda Augusto Cury, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema. Além de Renan Santos, por imposição judicial.

Cancelamento contestado

Os candidatos da chamada terceira via nas eleições presidenciais brasileiras criticaram duramente o poder judicial, denunciando um ataque à democracia após o cancelamento, à última hora, do debate da TV Globo.

Os candidatos, que juntos têm pouco mais de 10% nas sondagens, falaram aos jornalistas nos estúdios da estação televisiva, onde aguardavam o início do debate, imediatamente após o anúncio do cancelamento.

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema acusou o poder judicial de voltar “a fazer política” no Brasil e de estar ao serviço de Lula da Silva, criticando uma decisão judicial que, a poucos minutos do início do debate, alterou as regras e levou Flávio Bolsonaro a desistir de participar.

Também o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado classificou o sucedido como um “atentado à democracia brasileira” e acusou o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal de desejarem uma “ditadura da toga”.

O candidato, que disse ter chegado três horas antes do debate, responsabilizou Lula da Silva pelo cancelamento, acusando-o de procurar, desde o primeiro momento, inviabilizar o debate: “Lula é o culpado de tudo isto”.

Já o psiquiatra e autor de livros de autoajuda Augusto Cury manifestou uma “frustração tremenda” e questionou: “Será que estamos precisando de um psiquiatra?”.

O candidato defendeu que o poder judicial, enquanto alicerce da democracia, deve “ser discreto” e acusou o STF de ter adquirido um protagonismo “completamente desproporcionado”, colocando a democracia à “beira colapso”.

Mais tarde, também Flávio Bolsonaro criticou as decisões, dizendo que "essa insegurança jurídica, que é óbvia, todos percebem que já vem acontecendo, não é de agora. E agora, nesse momento, chegou no seu ápice". "Poucos minutos antes de iniciar o debate da Globo, onde milhões de pessoas estavam aguardando ansiosamente para comparar as propostas dos candidatos e escolherem o seu candidato, para daqui a três dias comparecerem às urnas, na maior festa da democracia. E vem uma decisão, ou várias decisões, que corroboram com a censura", prosseguiu o senador.

As críticas estenderam-se para lá do espetro político, com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Associação Nacional de Editores de Revistas e a Associação Nacional de Jornais a emitirem uma declaração conjunta, citada pelo G1, onde manifestaram "profunda indignação com a intervenção judicial nas regras previamente definidas" no debate da Globo.

"As entidades entendem que a interferência não se trata apenas de uma imposição de obrigações, sem previsões em lei, contra uma emissora privada. É, sobretudo, uma agressão à liberdade de imprensa ao forçar a condução do debate em desrespeito a regras acordadas há meses entre a emissora e os partidos", refere o mesmo comunicado.

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