Enquanto nos Estados Unidos a revelação de mais três milhões de ficheiros do criminoso sexual Jeffrey Epstein continua sem fazer baixas políticas, apesar da evidente relação de amizade com o presidente Donald Trump e as crescentes contradições entre o que o secretário do Comércio, Howard Lutnick, diz e o que os documentos mostram, na Europa o impacto tem causado abanões (e quedas) em vários países, desde políticos à realeza. Para Grégoire Roos, diretor do programa para a Europa da Chatham House, os arquivos revelam a extensa rede de contactos europeus de Epstein, “e o nível de acesso não só entre aqueles que já estavam no poder, mas também entre aqueles que estavam a caminho dele”. “Será interessante verificar se, através da correspondência, ele exerceu alguma influência na formulação de políticas”, disse Roos à AP.O maior sismo foi registado, até agora, no Reino Unido. A nomeação de Peter Mandelson como embaixador nos EUA apesar das suas ligações a Epstein causaram ao primeiro-ministro Keir Starmer um início de semana negro, com muitos apelos à sua demissão, da oposição e de trabalhistas, e a saída de dois dos seus principais conselheiros. Uma sondagem divulgada na quarta-feira pelo Politico mostrava que 52% dos britânicos acham que o primeiro-ministro deveria demitir-se, enquanto 19% disseram que deveria manter-se no cargo, mas que os seus conselheiros deveriam sair. O fim do governo Starmer parece ter sido evitado, pelo menos para já, com o primeiro-ministro a pedir desculpa “pelos erros que cometi” com Mandelson e garantindo que “nunca abandonarei o mandato que me foi dado para mudar este país”. Peter Mandelson está a ser investigado por alegada má conduta em cargos públicos, por suspeita de ter transmitido ao americano informações sensíveis enquanto era ministro durante a crise financeira, em 2019 e 2010. Na sequência do escândalo, e depois de ter sido afastado do cargo diplomático em setembro, abandonou entretanto o Partido Trabalhista e a Câmara dos Lordes.Mas o grande rosto no Reino Unido das ligações a Jeffrey Epstein é Andrew Mountbatten-Windsor, irmão de Carlos III, tendo o seu nome sido relacionado com o recrutamento de raparigas menores para fins sexuais.Sempre negou ter cometido qualquer ilegalidade, mas o testemunho de alegadas vítimas e as informações contidas nas primeiras tranches dos ficheiros Epstein levaram o rei a destituir Andrew de todas a regalias e títulos reais, passando a ser conhecido apenas pelos apelidos Mountbatten-Windsor. O mais recente pacote de documentos revelado pelo Departamento de Justiça dos EUA mostrou que Andrew, além dos negócios sexuais, poderá ter também enviado relatórios comerciais a Epstein em 2010. A casa real britânica garantiu na terça-feira estar preparada para apoiar qualquer investigação policial sobre Andrew. .Do antigo PM à futura rainhaOutra casa real tocada pelo caso Epstein é a norueguesa. Os documentos mais recentes revelaram que a princesa Mette-Marit, casada desde 2001 com o príncipe herdeiro Haakon, trocou emails com o criminoso sexual em 2012, nos quais este referiu estar em Paris “à procura de uma esposa”, mas que “preferia as escandinavas”, tendo recebido como resposta que a capital francesa era “boa para o adultério”, mas que as “escandinavas” eram “melhores candidatas a esposa”. Um ano depois, Mette-Marit usufruiu durante alguns dias de uma propriedade de Epstein em Palm Beach, na Florida. Estas interações ocorreram após a primeira condenação de Epstein, em 2008, por aliciar uma criança para prostituição e solicitar os serviços de uma prostituta. A futura rainha da Noruega já pediu desculpa pela “situação em que coloquei a família real”. “Parte do conteúdo das mensagens entre Epstein e eu não representa a pessoa que quero ser”.Outro nome norueguês com ligações a Epstein é o do antigo primeiro-ministro Thorbjørn Jagland, tendo na quarta-feira o Conselho da Europa anunciado que, em resposta às autoridades de Oslo, iria levantar a imunidade parlamentar de que gozava o seu antigo secretário-geral. Esta quinta-feira, 12 de fevereiro, a polícia fez buscas em propriedades de Jagland.Com base nas revelações dos arquivos de Epstein - que indicam que planeou visitar a ilha do criminoso norte-americano com a sua família em 2014 - as autoridades norueguesas abriram uma investigação por corrupção agravada envolvendo Jagland. O também ex-presidente do Comité Norueguês do Nobel não foi acusado de qualquer crime, sendo objetivo apurar se foram recebidos presentes, viagens e empréstimos em função do seu cargo no Conselho da Europa. De acordo com os ficheiros, num email de 2014, Jagland pediu a ajuda de Epstein para financiar um apartamento em Oslo, enquanto que outras comunicações de 2018 mostram o criminoso sexual a pedir ao norueguês que arranjasse um encontro entre ele e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, e a dizer que tinha informações importantes para oferecer a Vladimir Putin. Também envolvidos na teia Epstein está o casal de diplomatas Terje Rød-Larsen e Mona Juul, figuras centrais na mediação dos Acordos de Oslo entre Israel e a Palestina na década de 1990. Juul foi suspensa do cargo de embaixadora da Noruega na Jordânia após revelações que incluem o facto de Epstein ter deixado 10 milhões de dólares aos filhos do casal num testamento redigido pouco antes da sua morte, na prisão, em 2019.A comissão parlamentar de supervisão da Noruega concordou na terça-feira nomear uma comissão de inquérito externa sobre as ligações do Ministério dos Negócios Estrangeiros a Epstein.Paris à espera de mais nomesEm França, o antigo ministro da Cultura Jack Lang demitiu-se no fim de semana da presidência do Instituto do Mundo Árabe, depois de o Ministério Público ter aberto uma investigação preliminar por suspeitas de “branqueamento de produto de fraude fiscal”, após uma reportagem ter divulgado ficheiros sobre um fundo offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, detido por Epstein e Caroline Lang, filha do ex-ministro, que é ainda beneficiária de cinco milhões de dólares no testamento do criminoso sexual.Lang é, até ao momento, a figura de maior destaque em França afetada pela divulgação dos ficheiros Epstein. No entanto, na quarta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês notificou os procuradores sobre Fabrice Aidan, um diplomata de nível médio suspeito de transferir documentos da ONU para Epstein, tendo aparecido em mais de 200 ficheiros, incluindo emails que enviou a Epstein entre 2010 e 2016, tanto da sua conta pessoal como da conta da ONU. Jean-Noël Barrot que “não descarta” a possibilidade de mais diplomatas franceses estarem nos arquivos de Epstein..Baixa na EslováquiaO conselheiro de Segurança Nacional do primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, Miroslav Lajcák, demitiu-se a 31 de janeiro devido a trocas de mensagens com Epstein, algumas das quais em que discutiam raparigas “lindas”. Lajcák, também antigo líder da diplomacia da Eslováquia e ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, negou qualquer irregularidade, afirmando ter-se demitido para evitar repercussões políticas. “Quando leio as mensagens hoje, sinto-me um idiota”, disse à rádio pública eslovaca. “Nada além de palavras resultou disto”.Joanna Rubinstein, presidente da Agência da ONU para os Refugiados na Suécia, demitiu-se do cargo a 2 de fevereiro, após a divulgação de documentos que revelam que, em 2012, Rubinstein visitou a ilha privada de Epstein com a sua família, tendo mais tarde, agradecido a estada por email. “Tive conhecimento do veredito [de Epstein] na altura da visita. O que veio a público posteriormente sobre a extensão dos abusos é estarrecedor e algo de que me distancio veementemente”, disse Rubinstein ao jornal Expressen.A Letónia, a Lituânia e a Polónia abriram investigações oficiais sobre os documentos, tendo o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, dito que uma equipa irá analisar os arquivos em busca de possíveis vítimas polacas e de quaisquer ligações entre Jeffrey Epstein e os serviços secretos russos.Aznar ameaça governoRecibos da FedEx constantes dos documentos revelados pela justiça dos EUA mostram que o antigo primeiro-ministro espanhol José María Aznar recebeu dois pacotes de Jeffrey Epstein em setembro de 2003 e maio de 2004, o primeiro enquanto ainda estava em funções. O antigo governante do Partido Popular é também mencionado num email separado enviado a Epstein pelo filho de Aznar, também chamado José María, em abril de 2004. O nome ‘José Maria Aznar’ aparece ainda uma quarta vez, não sendo claro se se refere ao ex-primeiro-ministro ou ao filho.No início deste mês, um porta-voz de José María Aznar disse ao El País que o ex-primeiro-ministro “não fazia ideia” do que eram os pacotes e “não conhece este homem [Epstein]”.Já esta terça-feira, Aznar avisou, através de um comunicado publicado pela sua fundação, a FAES, que tomará medidas legais caso algum membro do governo tente ligá-lo às atividades de Jeffrey Epstein. Comunicado que surge depois do ministro dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, ter mencionado recentemente a presença de Aznar nos ficheiros, algo que, segundo o antigo governante, é uma tentativa de “lançar insinuações caluniosas”. “Responder às perguntas da oposição com ‘Aznar também apareceu nos documentos de Epstein e não estou aqui para atrair acusações’ é elevar uma ofensa menor a um nível político”, é referido no mesmo comunicado. .Pam Bondi chama Epstein de “monstro” e enfrenta democratas em depoimento marcado por confrontos no Congresso.Documento do FBI refere que Trump terá dito que “todos sabiam” dos crimes de Epstein