Um mês depois do início da guerra do Irão, os Houthis juntaram-se ao conflito, tendo lançado pelo menos dois ataques com mísseis desde o Iémen na direção de Israel e drones - foram todos intercetados. A entrada em cena dos Houthis abre uma nova frente de guerra para Israel e ameaça ainda mais a economia mundial, caso a milícia iemenita opte por voltar a atacar os navios que passam o estreito Bab-el-Mandeb e cruzam o Mar Vermelho. Além disso, dificulta a situação humanitária no Iémen, abalado por anos de guerra civil.“Ao contrário do Hezbollah, os Houthis evitaram entrar no conflito nas suas fases iniciais. Mas o seu envolvimento posterior era previsto por muitos. A estratégia mais ampla do Irão de ativar grupos aliados em toda a região parece estar a concretizar-se”, lê-se numa análise de Farea Al-Muslimi, investigador associado do Programa para o Médio Oriente e Norte de África da Chatham House. A dúvida é se os alvos serão apenas em Israel ou vão incluir outros países da região do Golfo.“Os Houthis estão em melhor posição do que o Irão para ameaçar as infraestruturas sauditas e as bases militares ocidentais no Golfo”, acrescentou Al-Muslimi, que diz que “estas ações desencadeariam provavelmente um conflito de grande escala, incluindo um novo confronto direto entre a Arábia Saudita e os Houthis”. Isto além do facto de que “uma nova escalada do conflito poderá agravar o sofrimento de milhões de civis [iemenitas] que já enfrentam uma grave insegurança alimentar, estão deslocados e têm acesso limitado a cuidados de saúde”. Os Houthis, com um número estimado de 20 mil combatentes, representam uma corrente dissidente do xiismo - o zaidismo (descendentes de Zaide ibne Ali, filho do quarto imã xiita, que liderou uma revolta contra a primeira dinastia hereditária islâmica no século VIII). Enquanto minoria dentro de outra minoria (mas sendo maioria no norte do Iémen), ganharam força como um grupo que lutava contra a corrupção do regime de Ali Abdullah Saleh, que estava no poder desde a unificação do Iémen em 1990. A invasão norte-americana do Iraque, em 2003, radicalizou os Houthis - batizados em homenagem ao fundador carismático Hussein al-Houthi que foi morto em 2004 - que começaram a olhar para o Hezbollah libanês como inspiração e a contar com o apoio do Irão. Isto devido ao inimigo mútuo, a Arábia Saudita, que apoiava o regime de Saleh que só cairia na Primavera Árabe em 2011. Em 2014, os Houthis liderados por Abdul-Malik al-Houthi capturaram a capital do Iémen, Sana, alargando os laços com o Hezbollah e o Irão e derrubando um ano depois o presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi (o antigo número dois de Saleh, tornado seu inimigo, que tinha o apoio do Ocidente). Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos vieram em defesa do presidente durante a guerra civil (com o apoio dos EUA e do Reino Unido), acabando por ser assinada em 2022 uma trégua negociada pelas Nações Unidas. Depois dos ataques terroristas do Hamas a 7 de outubro de 2023 e de Israel ter lançado a guerra na Faixa de Gaza, os Houthis saíram em apoio dos palestinianos e começaram a atacar os israelitas e os navios no Mar Vermelho, causando o caos no comércio mundial - muitos navios optaram por fazer a viagem mais longa pelo Cabo da Boa Esperança em vez de seguir pelo Canal do Suez. Entre novembro de 2023 e janeiro de 2025 foram atacados mais de uma centena de navios mercantes, temendo-se que esse cenário se possa repetir agora. Israel respondeu com vários bombardeamentos no Iémen, sendo que os ataques contra os navios só terminaram após um acordo alcançado com os EUA. Mas os ataques com mísseis contra Israel (a maioria intercetados, sem causar grandes danos) só pararam depois do cessar-fogo em Gaza, em outubro de 2025. Embora sejam aliados do Irão, os Houthis não estão dependentes de Teerão e privilegiam frequentemente os seus próprios interesses. E embora o Irão tenha fornecido tecnologia sofisticada de mísseis balísticos, o grupo também desenvolveu a capacidade de montar e fabricar o seu próprio armamento dentro do Iémen..Ataque israelita no Iémen matou primeiro-ministro dos Houthis, confirmou grupo rebelde que prometeu vingança.Médio Oriente: Huthis reivindicam ataque contra aeroporto de Telavive