O partido no poder na Geórgia anunciou na segunda-feira que pretende dar início a um processo de destituição contra a presidente do país, a pró-UE Salome Zurabishvili, se vencer as eleições de dia 26. Há um ano, o Sonho Georgiano tinha tentado fazer o mesmo, mas apenas obteve os votos de 86 deputados, precisando de 100 dos 150 eleitos para apresentar uma petição ao Tribunal Constitucional. .Este mês espera eleger 107, o que a confirmar-se permitirá avançar com o processo, que acabará por ser “simbólico, como o próprio partido conservador pró-russo admite, pois o mandato de seis anos da chefe de Estado termina em dezembro. Na quarta-feira, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução na qual é dito que “o atual retrocesso democrático na Geórgia coloca efetivamente em espera a integração do país na UE”..Zurabishvili é vista atualmente pelo Sonho Georgiano, partido que a apoiou nas presidenciais de 2018, como “a oposição radical” e alguém que “continua a violar as leis, tanto com visitas não autorizadas ao estrangeiro, como com a recusa em aprovar embaixadores georgianos nomeados pelo governo em diferentes países”, segundo explicou o líder do Parlamento, Shalva Papuashvili, ao anunciar a intenção de destituir a presidente, referindo-se às visitas feitas pela chefe de Estado na semana anterior a França, Alemanha e Polónia, onde se reuniu com os seus homólogos, e a Bruxelas, onde se encontrou com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen..Comentando recentemente as legislativas de 26, Salome Zurabishvili manifestou-se confiante numa vitória pró-europeia, classificando-as ainda como uma “eleição existencial” para o país. “Temos um quase referendo sobre a escolha entre a Europa ou o regresso a um passado russo incerto”, disse à AFP. .As legislativas deste mês são, de facto, cruciais para o rumo que o país pretende seguir, tendo o Parlamento Europeu referido na sua resolução que “serão decisivas para determinar o futuro desenvolvimento democrático e a escolha geopolítica da Geórgia, bem como a sua capacidade de progredir na sua candidatura como Estado-Membro da UE”. .O governo do Sonho Georgiano, partido que chegou ao poder há 12 anos com uma agenda pró-Ocidente, apresentou o pedido de adesão à UE em março de 2022, pouco depois de a Rússia invadir a Ucrânia, e tornou-se um país candidato em dezembro. Mas desde então, e como referiu Bruxelas em setembro, Tbilisi “perdeu o rumo” e “afastou-se” do bloco, com uma aproximação ao Kremlin e uma intensificação de políticas anti-europeístas e anti-liberais. “É evidente que, com a lei dos agentes estrangeiros e outras séries de acontecimentos, a Geórgia perdeu o rumo e afastou-se da União Europeia”, declarou o diretor-geral da Política de Vizinhança e Negociações de Alargamento, Gert Jan Koopman..A 28 de maio, apesar de semanas de protestos, o governo de Irakli Kobakhidze aprovou a chamada “lei russa” ou “lei dos agentes estrangeiros”, que exige que as organizações não-governamentais e os meios de comunicação social que recebam mais de 20% do seu financiamento de fontes estrangeiras se registem como organizações que “perseguem os interesses de uma potência estrangeira”..Este mês, o Parlamento promulgou a lei que proíbe a propaganda LGBT, dias depois de a presidente Salome Zurabishvili não a ter promulgado e devolvido o diploma aos deputados. Esta legislação, apelidada dos “Valores Familiares e Proteção de Menores”, proíbe a propaganda de relações não tradicionais, casamentos entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por casais homossexuais, estabelecendo ainda penas até quatro anos de prisão para cirurgias de mudança de sexo e uma multa para a difusão de propaganda sobre relações homossexuais em instituições de ensino. .Tal como em maio, Bruxelas recordou que a adoção deste diploma “colocará tensões adicionais na relação Geórgia-UE” e que “o processo de adesão da Geórgia está interrompido”, apelando às “autoridades a comprometerem-se novamente com o caminho da integração”. Já o Parlamento Europeu recomendou na quarta-feira o “congelamento de todo o financiamento da UE concedido ao governo georgiano até que as leis antidemocráticas sejam revogadas”..ana.meireles@dn.pt