João Gomes Cravinho
João Gomes CravinhoLeonardo Negrão/Global Imagens

Com convite do Brasil para G20 "Portugal terá uma voz na procura das soluções de que o mundo precisa"

Para o ministro dos Negócios Estrangeiros, a construção de pontes é uma vocação portuguesa, que “muito nos valoriza”. João Gomes Cravinho defende totalmente o apoio à Ucrânia contra a Rússia, elogia o sucesso da NATO, mas considera “imperativo absoluto” a UE desenvolver capacidade própria em matéria de defesa.
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Qual a importância do convite do Brasil, que tem a presidência do G20, para Portugal participar nos trabalhos da organização que junta as maiores economias mundiais?

Este convite só pode ser lido como um importante e público reconhecimento daquilo que Portugal representa no mundo hoje. É verdade que o G20 tal como agora o conhecemos foi concebido essencialmente para tratar das consequências da grande crise financeira de 2008, mas evoluiu ao ponto de ser hoje um dos mais importantes locais de concertação internacional sobre todas as questões relevantes da ordem internacional. Ora, a realidade é que a política externa portuguesa tem atualmente um alcance e uma influência que vão muito além daquilo que poderíamos imaginar olhando apenas para o PIB, a população ou o território. O convite brasileiro significa que Portugal estará ao longo de 2024 presente em cerca de 150 reuniões temáticas, 20 ministeriais e 25 grupos de trabalho, o que nos permite projetar as nossas ideias e contribuir para a difícil concertação internacional num momento particularmente delicado da vida internacional. Em suma, Portugal terá uma voz na procura das soluções de que o mundo precisa. 

É igualmente a confirmação da força da lusofonia e nomeadamente do trabalho feito no quadro da CPLP e também bilateral com o Brasil?

É natural que o Brasil tenha particular sensibilidade em relação à CPLP, mas enquanto presidência do G20 fez convites a países, incluindo Portugal e Angola, que considera poderem contribuir de forma significativa para os trabalhos, atendendo às suas especificidades e qualidades. Temos uma relação fraterna com o Brasil, mas não teria surgido o convite se não tivéssemos também uma capacidade de interlocução significativa no quadro do G20 e fora dele. 

O seu antecessor no cargo, Augusto Santos Silva, publicou recentemente Ligar, um livro sobre a política externa portuguesa em que salienta o papel do país como construtor de pontes. Revê-se nessa visão e no título de uma entrevista ao DN de que "somos um país que vive mal com uma lógica de ou estás por nós ou estás contra nós"?

Revejo-me plenamente nas ideias expressas pelo meu antecessor no livro Ligar e na entrevista que concedeu ao DN, incluindo na frase escolhida para título, que resume bem a forma como recusamos os maniqueísmos que por vezes se desenvolvem na política internacional. A construção de pontes entre diferentes visões e vivências internacionais é precisamente uma vocação nacional e que muito nos valoriza internacionalmente. Mais importante ainda, com poucas nuances podemos verificar que esta vocação tem sido trabalhada de forma consistente ao longo das décadas pela nossa política externa, levando a que, hoje em dia, seja um atributo conhecido e apreciado da nossa atuação internacional.

No atual conflito entre Israel e o Hamas as posições tendem a extremar-se. Como consegue Portugal manter uma posição que seja construtiva e não aliene nem israelitas nem palestinianos?

Portugal mantém uma interlocução com israelitas e palestinianos, sempre construtiva, mas sem receio de condenar aquilo que é inaceitável, como foram as atrocidades cometidas pelo Hamas e como é também o absoluto desrespeito pelo direito internacional humanitário que se traduz em tantos milhares de inocentes mortos em Gaza, num conflito em que todos sabemos que não existe solução militar - apenas uma solução política. É essencial que os moderados de ambos os lados tenham força política e capacidade para forjar o caminho para a solução de dois Estados, e para isso é inevitável e salutar alienar os radicais que são hoje tão influentes tanto entre israelitas como entre palestinianos.

Esteve em Israel e na Cisjordânia, também no Egito e na Jordânia, já depois do conflito se iniciar, com o ataque do Hamas a território israelita a 7 de outubro. A diplomacia portuguesa é escutada no Médio Oriente?

E além disso tenho mantido múltiplos e sistemáticos contactos com homólogos de Israel, da Palestina e de vários países árabes. Creio que a nossa posição de lealdade, baseada em princípios e também numa compreensão dos traumas sofridos por ambos os lados, é apreciada. Aliás, isso tem-me sido dito. Entre os europeus, não vejo que haja muitos com semelhante capacidade, e penso que devemos continuar a desempenhar um papel neste tema que se manterá de grande atualidade e acuidade em 2024.

Outro conflito de grande dimensão é o que opõe a Ucrânia, com apoio do Ocidente, à Rússia. O senhor esteve em Kiev. Acredita que os ucranianos, se o apoio militar e financeiro ocidental se mantiver, têm condições para expulsar os russos?

Acredito, e acredito que se trata de algo essencial, não só para a Ucrânia como para a própria segurança de toda a Europa. No rescaldo desta terrível e injustificada invasão, haverá com toda a probabilidade uma nova arquitetura de segurança para o continente europeu. Com a vitória da Ucrânia, essa arquitetura será favorável para a paz e a estabilidade do conjunto de países que são nossos parceiros próximos, na UE e na NATO. A outra hipótese terá consequências opostas: instabilidade, incerteza e tensões, ou mesmo conflito no território de países com quem partilhamos destinos. 

Sente quebra do entusiasmo pela causa ucraniana entre os parceiros ocidentais, tanto europeus como norte-americanos?

É natural que passados quase dois anos haja fadiga por parte de alguns que se esquecem do que está em causa, e manifestamente a Rússia procura explorar esses sinais. Vemos também que na Europa haja quem se queira aproveitar das circunstâncias para extrair benefícios próprios. Mas essas manifestações são minoritárias. Temos de estar atentos a estes processos porque podem ser profundamente nocivos para o nosso futuro coletivo. Basta refletir um pouco para perceber que seria de grande miopia não dar à Ucrânia todo o apoio de que necessita. Estou convencido de que, se tiver esse apoio, a Ucrânia terá sucesso na sua luta pela soberania, pela dignidade, e também pela estabilidade de todo o continente europeu.

Fala-se de um eventual afastamento dos Estados Unidos em relação à Europa se Donald Trump voltar à Casa Branca. É favorável a uma política de segurança da União Europeia menos dependente dos Estados Unidos?

O desenvolvimento de capacidade própria europeia em matéria de segurança e defesa é um imperativo absoluto, e há consciência disso no plano europeu, embora insuficiente sentido de urgência. As conjunturas eleitorais nos Estados Unidos não afetam o imperativo, apenas afetarão o grau de urgência.

A NATO vai celebrar 75 anos. Quando se diz que é a aliança militar mais bem sucedida da história é uma realidade ou certo exagero?

É um facto, historicamente não há outra aliança que combine a longevidade com o sucesso para cumprir os seus objetivos. Agora, há que cuidar devidamente dela para que o sucesso e a longevidade se mantenham.

Como vê o eventual alargamento da UE, por um lado à Ucrânia e à Moldova e por outro aos Balcãs Ocidentais? Isso passa por abandonar a regra da unanimidade em algumas decisões?

É essencial que esses países tenham um futuro europeu, e que esse futuro seja concreto e não uma miragem. Do lado europeu há trabalho de casa a fazer, que passa seguramente por repensar a forma como funcionam as nossas instituições. Não se deve imaginar que acabar com a regra da unanimidade, em matéria de política externa e de segurança, representa uma panaceia para as dificuldades institucionais com que nos confrontamos. Além disso, entre países soberanos a regra da unanimidade tem relevância e utilidade quando estão em causa interesses vitais de algum país. Dito isto, e atendendo ao facto de ter havido uma grande degradação da prática política, na qual essa regra é invocada para se extorquirem ganhos por vezes em matérias não relacionadas, temos seguramente de repensar a forma e as circunstâncias para o uso do veto. Creio que há suficiente criatividade entre políticos e juristas para desenvolvermos processos muito mais restritivos do uso do veto. 

Como estão as nossas relações com a China? Sofremos pressão dos Estados Unidos para evitar demasiada proximidade?

As relações com a China são multisseculares e continuarão a pautar-se pelo respeito e pela defesa dos nossos interesses, que são variados consoante os domínios. Penso que aquilo que anteriormente referi, sobre a recusa de maniqueísmos, aplica-se a este caso. Quanto aos Estados Unidos, o relacionamento com este nosso importante aliado é também de respeito mútuo, não se aplicando conceitos como pressão.

Recebeu há pouco tempo em Lisboa o MNE indiano. A aproximação à Índia é uma forma de estar menos dependente da China?

O nosso relacionamento com a Índia tem muito potencial e elevado interesse, de ambas as partes, em realizar esse potencial, de uma forma que não depende da relação com países terceiros. Foi uma grande satisfação receber em Lisboa o meu colega indiano, não apenas por nos conhecermos há mais de uma década, mas sobretudo por constatar o forte empenho mútuo em darmos um impulso significativo ao relacionamento entre os nossos países, nos planos económico e institucional e nos múltiplos contactos entre os povos. 

A América Latina é outra prioridade portuguesa, ou clivagens políticas dificultam aproximação?

Portugal tem grandes vantagens comparativas na relação com a América Latina, e temos sistematicamente testemunhado o enorme interesse de muitos países - como México, Colômbia, Chile, República Dominicana, Costa Rica, entre outros - em ter maior proximidade económica e política com Portugal. Quanto ao Brasil, as oportunidades são imensas. Fazemos de ponte entre a Europa e o Mercosul e temos uma grande facilidade de diálogo, bem como um elevado grau de boa-vontade por parte dos parceiros latino-americanos. Claro que a grande polarização política que se vê em diversos países, na América Latina e em outras geografias, não é uma questão que se coloque quanto ao relacionamento com Portugal, mas para a própria realização do potencial dessas sociedades.

Em 2024, celebramos os 250 anos do tratado de paz com Marrocos. Como olhamos para o Magrebe e para as tensões entre Marrocos e Argélia, sobretudo pela questão do Sara Ocidental? 

Tal como em qualquer outra parte do globo, quando existem tensões elas são um fator de disrupção no desenvolvimento dos países em causa, como para as regiões a que pertencem. A região do Magrebe em tudo beneficiaria de uma maior integração regional. Nós temos boas e históricas relações com Marrocos e Argélia. As novas dinâmicas da geoeconomia energética global também nos impelem para cada vez maior proximidade com ambos. E ambos têm um importante papel a desempenhar na estabilidade da complexa e delicada região do Sahel, assunto sobre o qual dialogamos com regularidade. Fruto das ligações históricas que temos na região, temos a oportunidade de, em 2024, aproveitar a efeméride que menciona para celebrar a nossa história partilhada com Marrocos e sobretudo as oportunidades que ainda podemos desenvolver no futuro próximo. O compromisso para fazermos a celebração conjunta foi assumido pelos dois primeiros-ministros, em maio, na Reunião de Alto Nível, e é com satisfação que me tenho vindo a aperceber do interesse de diversos municípios em associarem-se, precisamente porque os contactos a nível local são frequentes e profícuos.

Voltando à lusofonia, a África de língua portuguesa continua uma prioridade para a nossa diplomacia? Pode dar exemplos concretos de cooperação?

É uma prioridade e não podia deixar de o ser. Mantenho relações de contacto e concertação frequente com os meus colegas dos PALOP e de Timor-Leste. A cooperação é, sem dúvida, um elemento muito importante da nossa política externa, vivendo hoje um forte impulso. Estou a pensar por exemplo nos importantes projetos na área da Saúde, na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe (Saúde para Todos); na promoção da língua portuguesa em Timor-Leste, através das escolas CAFE; nos projetos de cooperação delegada de apoio à saúde alimentar em Angola (FRESAN), nas regiões mais afetadas pelas alterações climáticas; na criação de emprego (Projeto Mais Emprego), criando mais oportunidades para os jovens em Cabo Delgado; ou ainda no programa GESTDOC, que melhora a gestão documental e, por essa via, a segurança de Cabo Verde e da Guiné-Bissau. São exemplos, entre muitos outros, de projetos que têm um impacto palpável na melhoria de condições de vida nesses países irmãos.

Para finalizar: a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU foi vista como uma vitória também da diplomacia portuguesa. Como vê a ação do ex-primeiro-ministro português em relação a conflitos como o na Ucrânia e este agora no Médio Oriente?

António Guterres tem justificado amplamente a confiança que, por duas vezes, a comunidade internacional lhe concedeu, elegendo-o e reelegendo-o para o mais difícil cargo da diplomacia mundial. Guterres demonstrou sempre ter em abundância duas preocupações centrais: primeiro, a defesa do multilateralismo como método pacífico e estruturador para a resolução dos principais problemas internacionais - sejam os que resultam de fatores de conjuntura, sejam os mais profundos e de enorme alcance, como é o caso das alterações climáticas; segundo, verificamos que em tempos de turbulência internacional são poucos os que olham o horizonte e são mesmo capazes de imaginar outros horizontes, em vez de simplesmente navegar à bolina no quotidiano, procurando vantagens imediatas sem cuidar dos interesses coletivos. Guterres, pelo contrário, demonstrou sempre que a sua bússola moral funciona com grande acuidade. Sendo o mérito exclusivamente do próprio, obviamente que é motivo de orgulho que se veja em António Guterres algumas das melhores características da diplomacia portuguesa.

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