Com o preço da gasolina e do gasóleo a continuar a subir por causa da guerra no Irão, o presidente norte-americano, Donald Trump, apelou no sábado (14 de março) à criação de uma coligação naval para proteger os petroleiros que cruzam o estreito de Ormuz - por onde passa 20% do petróleo mundial e que Teerão mantém praticamente fechado. Mas os países que mencionou diretamente (China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido) não parecem ter pressa ou entusiasmo para responder a Trump, que diz ainda não estar preparado para um acordo para acabar a guerra. O Irão alega que não pediu um cessar-fogo e não vê razão para dialogar com os EUA. “Muitos países, especialmente os afetados pela tentativa do Irão de fechar o estreito de Ormuz, enviarão navios de guerra, em conjunto com os EUA, para manter o estreito aberto e seguro”, indicou Trump numa primeira mensagem na Truth Social, parecendo dar esta “coligação naval” como certa. Mas, depois, acrescentava: “Esperamos que a China, a França, o Japão, a Coreia do Sul, o Reino Unido e outros países afetados por esta restrição artificial enviem navios para a região”, explicando que os EUA vão continuar a bombardear o Irão. Os países que mencionou - nenhum deles envolvido diretamente na guerra no Irão - mostraram-se cautelosos. O Reino Unido afirmou estar a “analisar intensamente” como ajudar a reabrir o estreito, com o ministro da Energia, Ed Miliband, a dizer à Sky News que a forma “melhor e mais simples” era através da desescalada do conflito. Já o líder dos liberais-democratas, Ed Davey, defendeu que os britânicos não devem estar “às ordens” de Trump. E lembrou que ainda há uma semana o presidente dos EUA tinha dito que não precisava dos porta-aviões britânicos para ganhar a guerra, criticando o apoio tardio do Reino Unido.Os japoneses lembram a sua Constituição pacifista, que limita a participação militar, com um responsável do Partido Liberal Democrático (no poder) a falar em “grandes obstáculos” para participar nesta “coligação naval”. O caso deverá ser discutido quando Trump receber, na quinta-feira (19 de março), a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, em Washington. Já a Coreia do Sul prometeu “manter uma comunicação estreita” com os EUA. Pequim não respondeu ainda diretamente a Trump, mas responsáveis do Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmaram que a China está a apelar ao fim das hostilidades e que “todas as partes têm a responsabilidade de garantir um fornecimento de energia estável e sem entraves”. O Irão já disse, entretanto, que vai permitir aos navios chineses cruzarem o estreito, sendo a China um dos seus principais parceiros. No sábado (14 de março), já tinha autorizado a passagem de dois petroleiros indianos (outro dos seus maiores compradores). Teerão alega que os seus alvos são só os navios norte-americanos, israelitas e dos aliados. Os navios iranianos também continuam a passar, com os EUA a bombardearem a ilha Kharg (centro nevrálgico das exportações de petróleo do Irão), mas não as infraestruturas petrolíferas. Trump ameaça, contudo, fazê-lo “por diversão”, disse à NBC.A França também não respondeu ao pedido dos EUA, mas o presidente Emmanuel Macron já tinha dito que Paris e os aliados estavam a preparar uma “missão puramente defensiva” para escoltar petroleiros e outros navios pelo estreito. Mas também defendeu que era preciso que o conflito estabilizasse. De acordo com o Financial Times, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia vão discutir esta segunda-feira (16 de março) a possível ampliação da missão Aspides (missão defensiva europeia em resposta aos ataques dos Houthis contra navios no Mar Vermelho). O chefe da diplomacia alemão, Johann Wadephul, mostrou-se ontem cético em relação a isso, dizendo que a Aspides “não foi eficaz”.GuerraO preço do petróleo continua entretanto a subir e os bombardeamentos não param. No 16.º dia de conflito, EUA e Israel atacaram a cidade iraniana de Isfahan, matando pelo menos 15 pessoas, com o governador da região de Teerão a dizer que pelo menos dez mil casas já foram “danificadas ou completamente destruídas”. As sirenes soaram também no centro de Israel, depois de o Irão ter lançado vários mísseis.A Guarda Revolucionária Islâmica afirmou ter lançado a sua “50ª vaga” de operações contra bases americanas nos Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait. Este último país disse também que três drones atingiram o aeroporto internacional (cinco outros foram intercetados), causando danos no sistema de radar. Trump alegou, em declarações à NBC, que o Irão “quer chegar a acordo”, mas que ele não está pronto para um “porque as condições não são suficientemente boas”. Mas o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, diz que Teerão “nunca pediu um cessar-fogo, nunca pediu sequer uma negociação” alegando à CBS que não há razão para falar com os norte-americanos. “Esta é uma guerra de escolha do presidente Trump e dos EUA, e vamos continuar a nossa autodefesa”, disse.As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) dizem que têm preparadas mais três semanas de operações, apesar de o plano estar a avançar mais rapidamente do que o previsto. E pode até continuar mais seis semanas. Entretanto, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, publicou um vídeo a confirmar que estava vivo, depois de vídeos falsos circularem nas redes sociais a dizer que estaria morto. Mas os Guardas da Revolução ameaçam “caçar e matar” Netanyahu..Teerão ameaça fazer de Ormuz um estreito intransitável