Cinco anos após regresso ao poder, talibãs mantêm mão firme e mulheres são principais vítimas
Paz, ordem e amnistia foram as três promessas dos talibãs a 15 de agosto de 2021 quando voltaram ao poder em Cabul, dias antes da saída das últimas tropas dos EUA do Afeganistão. Mas cinco anos depois, o país está mergulhado no que a Human Rights Watch diz ser uma das maiores crises de direitos humanos do mundo. E as principais afetadas são as mulheres e raparigas.
Pouco depois do seu regresso ao poder - já haviam governado o país entre 1996 e 2001 -, os “estudantes de teologia” decretaram que as meninas são banidas dos ensinos secundário e superior, forçando-as a deixar a escola aos 12 anos. Mas as restrições não se ficaram por aqui, estendendo-se ao acesso ao emprego, à liberdade de movimentos, muitas passando semanas confinadas em casa de onde só podem sair com autorização do guardião legal (o mahram, que pode ser o marido, o pai ou um irmão), ou à liberdade de expressão.
Os talibãs impuseram, por exemplo, leis que proíbem as mulheres de falar, cantar ou ler em voz alta em espaços públicos. Segundo o Ministério para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício, a voz de uma mulher é legalmente classificada como uma parte íntima do seu corpo que deve ser ocultada.
Os números da ONU Mulheres mostram até que ponto os talibãs limitarem os direitos fundamentais da população feminina do Afeganistão. Já este ano, um decreto aboliu a igualdade entre homens e mulheres perante a lei. Este não só dá aos maridos vantagem legal como apenas criminaliza a violência no casamento se esta provocar danos físicos graves e visíveis. Outro decreto tornou ainda mais difícil para as mulheres deixar os maridos, mantendo só para os homens ao direito ao divórcio unilateral.
Esta repressão está a ter consequências na saúde das mulheres. O Afeganistão tem uma das piores taxas de mortalidade materna do mundo: 638 mulheres morrem por cem mil nascimentos. Além, claro, do declínio da saúde mental - um relatório da ONU Mulheres revela que sete em cada dez afegãs dizem que a sua saúde mental é “má” ou “muito má”.
Ao limitarem o ensino das meninas, os talibãs estão não só a afetar as gerações atuais, mas também a minar o futuro do Afeganistão. As Nações Unidas estimam que até 2030 o país perca 25 mil professoras e trabalhadoras da área da saúde.
Com o acesso ao mercado de trabalho limitado - os números oficiais falam em apenas 7% das mulheres empregadas, contra 84% dos homens -, algumas afegãs desenvolveram formas de continuar a contribuir para a economia, passando a trabalhar de casa. Mas são a minoria.
Há pouco mais de um ano, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de captura contra Hibatullah Akhundzada, o líder supremo dos talibãs, e contra Abdul Hakim Haqqani, presidente do Supremo Tribunal. Ambos são suspeitos de “ordenar, induzir ou solicitar a prática do crime contra a humanidade de perseguição […] por razões de género contra raparigas, mulheres e outras pessoas que não estejam em conformidade com a política dos talibãs em matéria de género.”
Isolamento político e economia em crise
Mas não são só as mulheres a sofrer as consequências do regresso dos talibãs ao poder. Com apenas a Rússia a reconhecer o regime talibã, o Afeganistão confronta-se com o isolamento internacional. O que, para a população, se traduziu no fim dos apoios e financiamentos de que muitos dependiam.
Apesar de os restantes países terem recusado estabelecer relações com o novo regime talibã, alegando preocupações com a violação dos direitos humanos, os dirigentes afegãos conseguiram aproximar-se de alguns Estados. De acordo com a France 24, os talibãs já receberam em Cabul delegações da China, Japão, Turquia, Arábia Saudita e também do Reino Unido.
Desde o início do ano, representantes do Tajiquistão, Turquemenistão, Quirguistão, Usbequistão e Cazaquistão, todas antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, foram a Cabul em busca de rotas comerciais através do Afeganistão.
E uma delegação talibã foi mesmo recebida em Bruxelas em junho para um diálogo com 15 países da União Europeia sobre o retorno de requerentes de asilo afegãos ao seu país natal.
Em outubro de 2025, o Afeganistão envolveu-se numa série de disputas fronteiriças com o vizinho Paquistão. Islamabad falou em “guerra aberta”, tendo bombardeado as forças afegãs em Cabul e Kandahar. O conflito teve início quando o Paquistão atacou supostos refúgios do grupo insurgente TTP (movimento talibã do Paquistão) em solo afegão. O presidente dos EUA, Donald Trump, não tardou a vir a público dizer que esta era uma guerra “fácil de resolver”, mas em abril foi a China a servir de mediadora entre as duas partes.
Apesar do isolamento e sanções, a economia afegã não entrou em colapso total nos últimos cinco anos, como muitos temiam com o regresso dos talibãs. Mas Cabul não conseguiu resolver a corrupção estrutura, desenvolver uma política económica sustentável ou desenvolver fontes de crescimento a longo prazo. O crescimento de 4,8% do PIB previsto para este ano pelo Banco Mundial não se reflete na melhoria das condições de vida. E o regresso de milhões de refugiados expulsos do Paquistão e Irão (a população aumentou 11% em 2025, segundo a mesma fonte) levou ao declínio de 5,6% do PIB per capita.
Destruidores de budas, protetores de Bin Laden
Para muitos, a primeira vez que ouviram falar nos talibãs terá sido quando os “estudantes de teologia” que governavam o Afeganistão desde 1996 fizeram explodir os Budas de Bamyian. Estávamos em março de 2001 e o grupo - que aproveitara o caos da guerra civil que se seguiu à retirada dos soviéticos do Afeganistão, em 1989 - e o seu líder, o mullah Mohammed Omar, voltariam a ser notícia meses depois, na sequência do 11 de Setembro, quando recusaram entregar aos EUA Osama bin Laden, o líder da Al-Qaeda e cérebro dos ataques.
A invasão americana, e dos seus aliados, acabou por levar à queda do regime talibã (e à fuga mítica do mullah Omar, de mota, pelas montanhas), mas a insurgência manteve-se. Com talibãs a atravessarem a fronteira para as zonas tribais do Paquistão, de maioria pastune, como os talibãs afegãos, foi a partir dali que o grupo se reorganizou. Nas décadas seguintes multiplicariam ataques contra o governo de Cabul, aliado dos EUA, e contra as tropas internacionais no Afeganistão.
Aproveitando a retirada dessas tropas, os talibãs protagonizaram em 2021 um surpreendente regresso ao poder.
Hoje, sob a liderança de Hibatullah Akhundzada, e apesar das críticas e sanções internacionais, os talibãs parecem manter uma mão firme sobre o Afeganistão. A oposição armada, composta por vários grupos, como a Frente de Resistência Nacional, está fragmentada. E se a larga maioria dos países criticam o desrespeito pelos direitos humanos dos “estudantes de teologia”, nenhum parece disposto a intervir para os tirar do poder.
Tudo indica portanto que o futuro - próximo, pelo menos - do Afeganistão continue a passar pelos talibãs, enquanto as mulheres vão perdendo direitos e cada vez mais afegãos educados, entre académicos, profissionais de saúde e empresários, escolhem deixar o país. “Quanto mais talentos partem, mais difícil se torna para o Afeganistão reconstruir as suas instituições e a sua economia”, explicou à revista Nikkei Asia Nigara Mirdad, antiga diplomata afegã e especialista em direito internacional.


