Chipre assumiu esta quinta-feira, 1 de janeiro, a presidência rotativa da presidência do Conselho da União Europeia, sucedendo à Dinamarca, e que ocupará nos próximos seis meses, tendo como lema “uma União autónoma. Aberta ao mundo”. E não será um semestre fácil para Nicósia, que herda o fardo de um ano terrível para o bloco dos 27, que, além da guerra tarifária com os Estados Unidos e da relação com a China, terminou com o falhanço em aprovar um empréstimo de reparações à Ucrânia baseado nos ativos russos congelados e com o adiamento da assinatura do acordo com o Mercosul (que se espera que aconteça ainda este mês).“A nossa presidência surge num momento de desafios geopolíticos e geoeconómicos. Desafios que põem à prova a resiliência dos Estados-membros, a resiliência da UE, a nossa unidade. A nossa história mostrou-nos que a UE encarou os seus desafios não com medo, mas como uma oportunidade”, afirmou o presidente Nikos Christodoulides na apresentação das prioridades de Nicósia para o semestre.O apoio à Ucrânia vai continuar a ser um dos temas-chave dentro do bloco dos 27, mas a presidência cipriota pretende também implementar de forma célere o Livro Branco da Defesa e todas as principais iniciativas de defesa, como o SAFE ou a estratégia para a indústria de defesa europeia. Paralelamente, Chipre pretende dar continuidade a uma gestão eficaz da questão migratória impulsionada pela Dinamarca, centrada na implementação do novo Pacto sobre Migração e Asilo, que deverá começar a ser aplicado em junho, mas também no primeiro ciclo de solidariedade, que prevê que Chipre, Itália, Espanha e Grécia beneficiem da recolocação de migrantes ou da assistência financeira de outros Estados-membros.Pensando na sua geografia, Nicósia tenciona também implementar o Pacto para o Mediterrâneo e reforçar “as nossas relações com organizações regionais como o Conselho de Cooperação do Golfo e a Liga Árabe”, que Christodoulides descreveu como “uma prioridade estratégica”.“Durante a nossa presidência, pretendemos trabalhar para obter um orçamento forte, ambicioso e equilibrado para o futuro da Europa”, referiu ainda o chefe de Estado cipriota, referindo-se a um dos temas mais delicados do semestre, a negociação para o Quadro Financeiro Plurianual da UE, que estará em vigor entre 2028 e 2034. Tensão com a TurquiaChipre tem uma situação muito particular dentro da União Europeia, pois aderiu ao bloco em 2004, mas apenas o sul greco-cipriota, onde se encontra o governo internacionalmente reconhecido, usufrui de todos os benefícios. No norte, existe um Estado turco-cipriota - ocupando menos de um terço desta ilha no Mediterrâneo -, ação que continua a ser reconhecida apenas pela Turquia, que mantém lá cerca de 35.000 soldados, numa disputa que continua até aos dias de hoje.Face a este cenário, analistas pró-Ancara dizem que a presidência greco-cipriota poderá aumentar as tensões diplomáticas com a Turquia. Para Emete Gözügüzelli, professora associada de Ciências Sociais na Universidade de Ancara, Nicósia tem mostrado que deseja neste semestre fortalecer a sua posição geopolítica no Mediterrâneo Oriental. “Para o lado grego, os recursos de hidrocarbonetos não são apenas uma perspetiva económica, mas também uma ferramenta para reforçar as reivindicações de soberania e a legitimidade internacional, com o objetivo a curto prazo de incorporar a sua autoproclamada zona económica exclusiva em documentos oficiais da UE sobre energia e segurança, uma medida que marginalizaria as reivindicações marítimas da Turquia e os direitos da República Turca do Norte de Chipre”, referiu a académica ao jornal turco pró-governo Daily Sabah. Na opinião do cientista político Ali Fuat Gökçe, em declarações ao mesmo jornal, depois de Atenas e Nicósia terem vetado a participação da Turquia no programa de defesa Ação de Segurança para a Europa (SAFE) da UE, este semestre poderá ser usado pela presidência cipriota para “adotar políticas mais intransigentes com o objetivo de alterar o status quo na ilha a seu favor e pressionar para a retirada das tropas turcas.”.O balanço de CopenhagaNos últimos seis meses de 2025, a presidência do Conselho da União Europeia foi ocupada pela Dinamarca. Uma das suas prioridades era combater a “burocracia” e o “excesso de regulamentação” de forma a recuperar a vantagem competitiva do bloco face à China e aos EUA, conforme explicou recentemente a ministra dinamarquesa dos Assuntos Europeus, Marie Bjerre, em entrevista à Euronews. “Dissemos desde o início que queríamos uma Europa mais forte em termos de segurança e defesa, e também de competitividade, que era o segundo tema. E conseguimos alcançar resultados também neste aspeto”, afirmou Bjerre, recordando que nestes seis meses “conseguimos chegar a acordo com o Parlamento Europeu sobre três dos pacotes Omnibus”. Nomeadamente o que prevê a redução dos requisitos de relatórios de sustentabilidade e de due diligence, o que permitirá aliviar os encargos sobre as empresas. A imigração foi outro dos pontos que marcou este semestre da Dinamarca, país que, embora governado pelo executivo socialista de Mette Frederiksen, tem uma política de “linha dura” neste tema, que tem vindo a ser adotada por Bruxelas. Copenhaga conseguiu um acordo sobre o conceito de “país terceiro seguro” para permitir o processamento externo em “centros de retorno”, mas também a aceleração dos retornos. “Precisamos de ter um melhor controlo dos migrantes que chegam à Europa e precisamos de ser mais eficazes no repatriamento dos migrantes em situação irregular”, notou a ministra dinamarquesa, sublinhando que o bloco precisa de fazer mais para obter estes resultados. .Presidência do Conselho da UE. Dinamarca quer trabalhar para uma Europa mais segura e competitiva