Horas antes de o presidente da República da Coreia partir na viagem de quatro dias para a China, os vizinhos do norte voltaram a violar as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas com o lançamento de vários mísseis balísticos para o mar, como que a sinalizar aos mais distraídos que as tensões na região não se limitam ao estreito da Formosa ou às desinteligências entre Pequim e a primeira-ministra japonesa. A paz na península da Coreia foi um dos temas centrais da cimeira de hora e meia entre Lee Jae Myung e Xi Jinping, tendo ambos concordado em tentar reavivar o diálogo da Coreia do Sul com a Coreia do Norte. Segundo o sul-coreano Wi Sung-lac, conselheiro de segurança nacional, Lee e Xi vão explorar “medidas criativas para estabelecer a paz” na península da Coreia, embora não tenha detalhado que iniciativas seriam. A visita de Lee — a primeira ao estrangeiro — inscreve-se numa política de realinhamento diplomático baseado no pragmatismo e que tem como objetivo fazer de 2026 o início de uma “restauração total” das relações com a China, como o próprio disse no início do encontro com o homólogo. Um propósito que o anterior presidente Yoon Suk Yeol não teve tempo de prosseguir — foi destituído após ter declarado a lei marcial — depois de ter tentado corrigir uma linha dura face a Pequim, ao convidar Xi a visitar o seu país. A visita acabou por acontecer há dois meses, mas integrada na cimeira da Cooperação Ásia-Pacífico (APEC), e já com Lee no poder. .Novo presidente sul-coreano quer diálogo com Pyongyang e renovação democrática.O referido pragmatismo convida Lee a um equilibrismo entre a aliança de Seul com os Estados Unidos e a construção de uma relação equilibrada com o seu maior parceiro comercial, a China. À estação CCTV, Lee reiterou o princípio de “uma só China”, afastando-se das declarações de apoio de Tóquio a Taiwan, e disse que a visita serviria para pôr fim a eventuais desentendimentos. Aliás, ambos os líderes deixaram uma nota de otimismo quanto às relações bilaterais fazendo um contraponto com o Japão. Xi apelou para se “unirem esforços na defesa dos frutos da vitória na Segunda Guerra Mundial e na salvaguarda da paz e da estabilidade no nordeste asiático”, enquanto Lee afirmou que os dois países mantêm laços de amizade há milhares de anos e que partilham uma história de perda de soberania e de luta pela independência, numa aparente referência à ocupação japonesa no início do século XX.No final do encontro, os dois líderes participaram numa cerimónia de assinatura de 14 memorandos de entendimento sobre cooperação em áreas como a tecnologia, comércio ou ambiente. Antes, Lee esteve presente numa reunião empresarial que juntou algumas das maiores empresas de ambos os países, a qual também foi coroada com a assinatura de mais acordos. Tempos houve em que a China recebia a maioria do investimento sul-coreano no estrangeiro. Mas desde 2012, perante a tensão sino-japonesa devido à disputa das ilhas Senkaku, que afetou a indústria automóvel nipónica, Seul achou por bem começar a diversificar o investimento para outros países e em 2023 os EUA passaram a ser o principal destino. Apesar de ser um gigante comercial e industrial, a China depende da Coreia do Sul ao nível dos semicondutores e de outras tecnologias de ponta. Na reunião também se tratou de assuntos mais delicados, caso das estruturas de aço que a China instalou na chamada Zona Marítima Provisória no Mar Amarelo. Ficou decidido continuar a discutir o tema ao nível ministerial sobre uma fronteira marítima não demarcada e ambos os lados disseram querer que o Amarelo seja um “mar pacífico e de prosperidade conjunta”.