As cheias em Moçambique atingiram particularmente Chókwè, no sul, o celeiro do país, com o vale do Limpopo a ocupar em poucos dias 88% do território, engolindo meses de produção agrícola, nomeadamente arroz, ameaçando com fome. “Estas cheias tiveram uma característica especial, chegaram aos pontos onde, outrora, eram considerados pontos seguros. Onde eram pontos de segurança ou pontos seguros nas cheias do ano 2000, nas cheias do ano 2013, neste ano de 2026 as águas chegaram”, conta à Lusa o administrador de Chókwè, Narciso Nhamuco.“É uma tragédia nova que não se compara com outras”, sublinha ainda, enquanto coordena o apoio humanitário às mais de 55 mil pessoas colocadas nos três centros de abrigo criados do distrito, província de Gaza, 250 quilómetros para norte de Maputo. E no “celeiro do país”, admite, os dias são de apreensão com o futuro: “A atividade de agricultura foi completamente arrasada”.Chókwè, na província de Gaza, foi um dos mais afetados pelas cheias de janeiro, mudando a vida de 170 mil pessoas, explicou à Lusa o administrador Narciso Nhamuco, deixando inundado 88% do território. Ou seja, 2.258 quilómetros quadrados ficaram submersos desde 15 de janeiro.Na agricultura, são 44 mil produtores com atividade em causa, entre campos inundados, casas e vilas. “É aqui o celeiro de produção do grande arroz. E também o regadio foi afetado, porque sofreu vários rombos e isso também vai comprometer, por um lado, a nossa produção. Estamos a falar de uma área de 45.750 hectares que foram afetados completamente na produção”, detalha.O administrador de Chókwè reconhece a “necessidade urgente” de a população ter sementes para tentar retomar a produção, desde logo no arroz, para não perder “o autossustento” ou será a “dependência completa de assistência alimentar”. No terreno decorre a avaliação dos prejuízos e das condições para regresso da população a algumas zonas em segurança..“Esta população vai retornar aos seus bairros e os parceiros vão apoiando com os 'kits', neste caso de higiene, mas também os 'kits' de dignidade ou os 'kits' alimentares para a fase de recuperação. Este é um processo, é um trabalho que está a ser feito”, diz. Por todo o distrito, de arcas frigoríficas à cabeça, e água pela cintura, há quem ainda tente salvar o que ficou para trás no momento da fuga apressada, face à constante subida das águas.“As pessoas aqui estão em grande sofrimento, por causa das cheias”, explica Ursilo Muhovo, 49 anos, em cima da sua motorizada, que utiliza para o transporte de mototáxi, mesmo nas cheias. “É um risco, cair na água”, brinca, queixando-se: “Não tem apoio. As pessoas estão a receber lixo [das enxurradas]”. Ali ao lado, é vísivel documentos, alguns de ações judiciais e outros visivelmente oficiais, às centenas, aparentemente levados pelas águas de janeiro.Nada escapou às cheias.Uma situação “muito pior” que cheias anteriores, recorda o transportador, para de seguida lamentar: “as pessoas que morreram”. Enquanto isso, espera passageiros, poucos, para levar ao distrito vizinho de Guijá, também em Gaza, por uma estrada tomada pela água.Antes, o preço do serviço era de 100 meticais (13,30 euros), por poucos quilómetros, após as cheias já vai nos 150 meticais (dois euros) e continua a subir. “O combustível está muito duro, nas bombas não tem nada. Quando compra um litro é 300 meticais [quatro euros]”, atira.Centros de saúde, hospitais, edifícios públicos, além de milhares de casas, nada escapou às cheias em Chókwè, incluindo 84 escolas, sem previsão de retoma das atividades normais, algumas ocupadas como centros de abrigo, a cerca de duas semanas do início do ano letivo, adiado um mês, devido às cheias, para 27 de fevereiro.“Albergam 63 mil alunos”, explica o administrador de Chókwè, sobre os impactos das escolas afetadas, acrescentando: “Como o nosso ano letivo vai iniciar até o final deste mês, temos este espaço seguro em fevereiro para fazer o levantamento e buscar este apoio ao nível dos parceiros nossos na área de educação para podermos ver que soluções imediatas podem ser garantidas para que até aquele período possamos voltar”.E mesmo os professores não se sabe onde estão, entre os deslocados: “Estamos a fazer o levantamento, onde estão, porque nem todos estão no mesmo centro e nem todos estão no centro próximo ao local onde está a sua escola, porque a sua escola foi afetada”. É o caso de Apolinário Basílio, professor de matemática de 40 anos, desolado com o que vê na cidade, sede do distrito. “É o celeiro do país, mas as pessoas estão a chorar neste momento (…), estão a pedir um apoio”, conta à Lusa.“Houve muita destruição na cidade. Aqui no primeiro bairro não saíram com nada, perderam muita coisa, houve morte”, descreve, assumindo que a população “precisa de ajuda”. “O mais prioritário é alimentação”, afirma, lamentando que grupos estejam a entrar nas casas, inundadas, para levar o pouco que sobrou.“Dono da casa não está [deslocados], vandalizam, roubam coisas. Não é correto”, desabafa. O professor Basílio sabe que a escola está do outro lado, mas as águas do Limpopo destruíram a estrada, pelo que não sabe se vai conseguir ter trabalho a 27 de fevereiro, data prevista para o início do no escolar de 2026. “Não há ligação”, atira, apontando para o outro lado de uma via que só alguns tentam cruzar, a pé, tal é a força da água.O administrador Narciso Nhamuco reconhece as dificuldades e admite que só a cidade de Chókwè, na zona baixa, “sofreu muito”, com acessos cortados para norte e grande parte dos 139 mil habitantes em centros de deslocados. “A maior parte desta população, em quase todos os bairros de Chókwè, foram inundados, sofreram”, admite, reconhecendo que “grande parte das infraestruturas sofreram”, tanto do Estado como as casas ou as estradas.“Mas um elemento fundamental de grande preocupação é mesmo a questão do regadio, porque o regadio circunda a cidade e todo o distrito e é a base da subsistência da vida da nossa população. Este é o maior problema. E as vias de acesso. E, como sabe, isto vai piorar a situação também de drenagem”, desabafa. Por agora, no celeiro de Moçambique, o receio com os próximos meses é a fome, enquanto a água vai embora lentamente..Portugal e Moçambique “arrancam” juntos para um futuro a executar rápido, afirma Marcelo.Cheias em Moçambique obrigam a resgatar quase 20 mil pessoas