A antiga prática militar de queimar pontes há muito ganhou dimensão metafórica no discurso popular, em especial na língua inglesa, como uma advertência para os perigos de uma ação irreversível. Mas as autoridades israelitas mover-se-ão por outra lógica: horas depois de terem cortado ao meio a ponte de Qasmiya com um novo bombardeamento, decidiram aceder a um cessar-fogo de 10 dias, e com isso abriram a via do diálogo com a liderança libanesa.Os Estados Unidos obtiveram uma importante vitória diplomática para consolidar o seu dossiê de negociações com o Irão ao pressionarem Israel para suspender as hostilidades no Líbano. Um cessar-fogo abrangente em toda a região fazia parte das reivindicações de Teerão. Na véspera, responsáveis políticos israelitas admitiam que o cessar-fogo estaria por horas, devido à pressão dos EUA, enquanto o gabinete de segurança do primeiro-ministro se reunia para avaliar o cenário. Já nesta quinta-feira, o presidente Donald Trump começou por anunciar uma conversa entre “líderes” de Israel e Líbano, tendo o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu confirmado a mesma, a qual se realizaria com o presidente Joseph Aoun. Este, no entanto, ao receber o secretário de Estado britânico responsável pelos Assuntos do Médio Oriente, Hamish Falconer, recordou que a cessação preliminar das hostilidades para então abrir negociações era uma reivindicação sua. Isso mesmo terá dito na conversa telefónica que manteve com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. E depois com o presidente norte-americano. Este, depois de ter falado também com Netanyahu, anunciou o cessar-fogo de dez dias, que deverá entrar em vigor à meia-noite local..Mediação aproxima posições de EUA e Irão antes de nova ronda negocial.Horas depois, o Departamento de Estado norte-americano informou que a pausa nos combates pode ser prolongada se houver progresso nas negociações para alcançar um acordo de paz duradouro, e se o Líbano “demonstrar efetivamente a sua capacidade de afirmar a sua soberania”. O departamento chefiado por Rubio disse ainda haver uma cláusula acordada por ambas as partes que permite a Israel defender-se contra quaisquer ataques adicionais. Mais tarde Trump voltou à sua rede, Truth Social, para informar que convidou o governante israelita e o chefe de Estado libanês para uma reunião na Casa Branca, com o fito de realizar “as primeiras discussões significativas entre Israel e o Líbano desde 1983, há muito tempo”, escreveu Trump. “Ambas as partes desejam ver a paz, e eu acredito que isso acontecerá, rapidamente!”, concluiu, sem indicar uma data. Antes e depois do anúncio, a guerra fez-se sentir no sul do Líbano, mas também no norte de Israel. A ponte de Qasmiya já tinha sido alvo das forças de Israel, juntamente com outras quatro que cruzam o rio Litani, desde 2 de março. Localizada a norte de Tiro, a infraestrutura rodoviária voltou a ser alvejada na quinta-feira, com o objetivo declarado de impedir que o Hezbollah mova homens e armas para o sul do Líbano. Desta vez, o ataque matou uma pessoa e feriu três, um deles militar. Além disso, um bombardeamento na vila de Ghazieh matou pelo menos oito pessoas. Já o Hezbollah anunciou ter atingido nove alvos dos dois lados da fronteira. O anúncio do cessar-fogo foi entre os dois países, mas o Líbano não está em guerra com Israel, mas sim o Hezbollah. À Reuters, o deputado da organização xiita Hassan Fadlallah disse que respeitar um cessar-fogo dependia de Israel cessar todas as formas de hostilidades. Na véspera, Fadlallah classificara de “vergonha” as negociações entre embaixadores do Líbano e Israel. À Al Jazeera, um dirigente da organização islamista considerou que Israel não pode ter liberdade de movimentos no Líbano durante a pausa, e que enquanto a ocupação permanecer, o “Líbano e o seu povo têm o direito a resistir”.O partido-milícia, apesar de enfraquecido nos últimos dois anos, mantém-se um ator influente e não quer perder o protagonismo, tendo o Irão enviado pessoal para substituir as baixas libanesas. Para Michael Young, do Carnegie Middle East Centre de Beirute, “os iranianos estão no controlo completo [do Hezbollah]. Eles não o veem como uma força autónoma”, disse ao Telegraph. Acrescentou: “Os iranianos simplesmente querem manter o Hezbollah como uma força de combate. Nem sequer reconhecem a soberania libanesa, por isso, basicamente, estamos num impasse.”Em Teerão, o presidente do Parlamento qualificou a aplicação do cessar-fogo no Líbano como uma “questão primordial”. Bagher Ghalibaf reuniu-se com o marechal paquistanês Asim Munir. O negociador é esperado nesta sexta-feira em Washington com o intuito de se chegar a um acordo sobre os termos da segunda ronda de negociações, a decorrer em Islamabad. Até lá, os EUA aumentam a pressão. Ao bloqueio naval aos portos iranianos junta-se a ameaça de sanções secundárias aos países compradores de petróleo do Irão..Mais de quatro décadas de conflitoGuerra civil e ocupaçãoO conflito entre Israel e o Hezbollah começou no contexto da guerra civil libanesa, no qual Telavive se aliou ao grupo armado cristão. Em 1982, Israel invadiu o Líbano para combater a Organização para a Libertação da Palestina, ocupando o sul do país. Um ano depois, ambos os países assinam o acordo de 17 de maio, para o fim das hostilidades e retirada israelita, mas sob pressão dos países vizinhos, Beirute rasgou o acordo. Foi nessa época que surgiu o Hezbollah, movimento xiita apoiado pelo Irão, com o objetivo de resistir à presença israelita. Vinhas da IraEm 1996, uma ofensiva israelita intitulada Operação Vinhas da Ira para expulsar o Hezbollah para lá do rio Litani culminou no massacre de Qana, com dezenas de civis mortos num complexo da ONU. RetiradaEm 2000, Israel retirou-se do sul do Líbano após 18 anos, num acontecimento celebrado pelo Hezbollah como uma vitória histórica.A Guerra dos 33 diasEm 2006, o sequestro de dois soldados israelitas desencadeou a guerra dos 33 dias, entre Israel e o Hezbollah. O conflito terminou sem vencedor claro, mas reforçou a dissuasão mútua. A partir de 2012, Israel vai aproveitar a participação do grupo, designado terrorista pela UE, na guerra da Síria, para o combater fora do Líbano. Apoio ao HamasUma nova fase começou após os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023, com o Hezbollah a atacar Israel em solidariedade com o Hamas durante a guerra de Gaza, seguidos de represálias israelitas. A escalada prolongou-se ao longo de 2024, atingindo níveis elevados com ataques inéditos em território libanês (explosão de pagers e walkie-talkies, por exemplo) e o assassínio de dirigentes de topo, incluindo Hassan Nasrallah. Em novembro entra em vigor um cessar-fogo, tendo o governo libanês chamado a si o desarmamento do partido-milícia xiita. Mas nem isso acontece nem Israel cumpre o acordo, continuando a bombardear posições do Hezbollah.Retaliação por KhameneiNo início de março, dois dias após Israel e os EUA atacarem o Irão, o Hezbollah lança mísseis em direção a Israel, justificando a medida pelo assassínio do guia supremo iraniano Ali Khamenei, e pelas “repetidas agressões israelitas” no Líbano. Em resposta, Israel inicia campanha de bombardeamentos de magnitude sem precedentes e invade de novo o sul do Líbano para expulsar o Hezbollah da região.