Centenas de pessoas acampam no centro de Madrid contra crise na habitação
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Centenas de pessoas acampam no centro de Madrid contra crise na habitação

Situação faz lembrar protesto de 2011 contra as medidas de austeridade. Sánchez já garantiu que o Governo está a trabalhar para apresentar na terça-feira o decreto-lei sobre habitação
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A praça Porta do Sol, no centro de Madrid, amanheceu este domingo, 27 de setembro, com centenas de pessoas acampadas para pedir medidas para responder à crise da habitação e a garantirem que o protesto não tem data para acabar.

As tendas na Porta do Sol, no coração turístico da capital espanhola, e em frente à presidência do governo regional de Madrid, começaram a ser colocadas no sábado à noite, no final de uma manifestação contra os despejos e a exigir medidas que protejam os inquilinos e facilitem o acesso a uma casa.

"Decidimos acampar na [Porta do] Sol para exigir medidas reais em relação à habitação. Não aguentamos mais este sistema rentista que nos espreme e nos expulsa dos nossos bairros. Toda a ajuda é bem-vinda. Se não puder vir acampar, pode trazer sacos-cama, colchões, comida ou água", publicou na rede social X o Sindicato de Inquilinos de Madrid, organizador da iniciativa.

"Precisamos de políticas corajosas, porque não aguentamos mais e já estamos há muito tempo invadidas pelos verdadeiros invasores: os investidores", declarou à emissora La Sexta a representante do Sindicato dos Inquilinos, Valeria Racu.

Os organizadores do protesto exigem ao Governo que inclua no decreto-lei sobre habitação, que poderá ser aprovado na terça-feira, a obrigação de os senhorios apresentarem uma justificação válida para não renovarem o contrato e, caso não o façam, serem obrigados a indemnizar o inquilino.

"Se não se pode fazer nada, então a pergunta que fica é: quem governa? Quem governa este país, afinal? Quem governa são os rentistas, os abutres, os empresários. É isso que nos estão a dizer na cara. Portanto, se na terça-feira não houver decreto-lei, estão a dizer-nos que é preciso escolher entre dois lados: ou cai o rentismo ou cai o governo", acrescentou.

A manifestação que antecedeu o acampamento contou, segundo a organização, com cerca de 300 mil pessoas, número significativamente superior às estimativas da Delegação do Governo, que ronda os 25 mil.

O protesto foi convocado com o lema "nem uma Maricarmen mais" depois do despejo, na quarta-feira, de Maricarmen Abascal, de 87 anos.

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Maricarmen foi despejada da casa onde viveu desde 1956 no centro de Madrid pela polícia, em cumprimento de uma ordem judicial que deu razão ao fundo de investimento que comprou o apartamento.

Centenas de pessoas acampam no centro de Madrid contra crise na habitação
Despejo de Maricarmen, de 87 anos, causa indignação em Espanha e leva milhares a manifestarem-se em Madrid

O Sindicato das Inquilinas e Inquilinos diz que o acampamento tem como primeiro objetivo que seja aprovado no próximo Conselho de Ministros do Governo de Espanha, na terça-feira, "o decreto Maricarmen", com medidas que impeçam despejos como o desta semana e outras para promover o acesso à habitação.

Mercedes Ortuño Lizarán/EPA

Logo na quarta-feira, o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, prometeu enviar ao parlamento "de maneira urgente" uma proposta de lei para a habitação, depois de classificar como "tragédia social" o ocorrido com Maricarmen Abascal.

Nas horas e dias seguintes, soube-se que os partidos do governo de esquerda (Partido Socialista e Somar) retomaram negociações com grupos parlamentares como o Juntos pela Catalunha (JxCat, conservador) para garantir a viabilização desta lei, reiteradamente prometida pelo Governo.

Os cinco ministros do Somar ameaçaram entretanto não entrar na sala do Conselho de Ministros na terça-feira se o decreto não estiver na agenda da reunião.

Já este domingo - dia em que aconteceram manifestações em defesa do ensino não universitário público e laico e contra os cortes -, Sánchez assegurou que o governo espanhol está a trabalhar para aprovar um decreto sobre habitação na terça-feira.

"Maricarmen, tenho uma mensagem para ti. O Governo está a trabalhar em contrarrelógio para apresentar na próxima terça-feira o decreto-lei sobre habitação, e peço aos grupos parlamentares um último esforço para que seja aprovado no parlamento", afirmou Pedro Sánchez.

O líder socialista acrescentou que este esforço deve ser feito "pela Maricarmen e pelos milhões de espanhóis que sofrem com a crise da habitação", uma vez que "não é uma questão de ideologia, é uma questão de humanidade".

A própria Maricarmen Abascal pediu no sábado, a partir do hospital onde está internada, que a manifestação sirva para que “mudem as leis que permitiram” o seu despejo e disse que “na terça-feira tem de ser aprovado o decreto-lei para dar um primeiro passo para acabar com este absurdo”.

Num vídeo divulgado na conta na rede social X do Sindicato das Inquilinas e Inquilinos, Maricarmen pediu a Pedro Sánchez para que aquilo que lhe aconteceu “não aconteça a outras pessoas”.

Estão acampadas na Porta do Sol entre 500 e 1.000 pessoas, segundo as autoridades e o Sindicato das Inquilinas e Inquilinos.

A imagem está já ser comparada em Espanha com a do Movimento dos Indignados, que em 2011 levou milhares de pessoas a acampar durante um mês no mesmo local em protesto contra as medidas de austeridade e as consequências no emprego e nível de vida.

"Continuamos em Sol e parece que não nos vamos embora, ficamos", disse hoje um porta-voz do Sindicato das Inquilinas, Gonzalo Álvrez, no início do dia a quem acordou na praça e antes de anunciar o pequeno-almoço e turnos de limpeza do espaço onde está montado o acampamento.

A associação disse que ao longo do dia de hoje haverá assembleia para decidir de forma mais concreta sobre o futuro do acampamento.

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