Despejo de Maricarmen, de 87 anos, causa indignação em Espanha e leva milhares a manifestarem-se em Madrid
O despejo de uma idosa de 87 anos está a desencadear agitação social e política em Espanha. Milhares de pessoas bloquearam as ruas de Madrid numa manifestação espontânea poucos minutos depois de Maricarmen ter sido retirada à força da casa que habitou durante mais de 70 anos, nesta quarta-feira (23 de setembro).
O protesto foi convocado para as 19 horas locais (18 horas em Lisboa) em frente a um luxuoso e polémico imóvel de 485 metros quadrados recentemente adquirido pela Comunidade de Madrid, liderada por Isabel Ayuso, por mais de seis milhões de euros, no último andar de um edifício no bairro de Chamberí.
Enquanto a manifestação acontecia, o primeiro-ministro comentou a situação de Maricarmen a partir de Nova Iorque, onde participou na Assembleia Geral da ONU. "É uma tragédia social que não podemos aceitar como país", afirmou, atribuindo a culpa diretamente à atuação do Ayuntamiento e da Comunidade de Madrid, geridos pelo PP.
Horas antes, a ministra da Habitação, Isabel Rodríguez García, afirmou que “as consequências da especulação desenfreada e da passadeira vermelha para os abutres e especuladores são evidentes”.
O ministro da Cultura, Ernest Urtasun, instou o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) a aprovar na próxima semana, em Conselho de Ministros, o decreto que inclui o alargamento do prazo para o pagamento das rendas e a moratória sobre os despejos.
A manifestação, que juntou cerca de dez mil pessoas, foi crescendo gradualmente ao longo do dia, obrigando a polícia a fechar a rua. “O ático [último piso de um edifício] de Ayuso para Maricarmen”, “Ayuso, demite-te” e “Vergonha, vergonha” fora algumas das palavras de ordem, visando sobretudo a governante da capital espanhola, Isabel Díaz Ayuso.
Mudou-se para o apartamento com os pais aos 17 anos
Maricarmen vivia há 71 anos na Rua Alcalde Sainz de Baranda, em Madrid, num prédio entretanto comprado por um fundo imobiliário que fez subir o preço das rendas. A octogenária deixou de poder pagar a renda com a sua reforma, tendo sido agora retirada do apartamento, à quarta tentativa. O fundo proprietário do imóvel exigia um aluguer de 2.650 euros por mês, enquanto a mulher, com uma reforma de cerca de 1400 euros, continuava a pagar o aluguer mensal de 500 euros, correspondente a um contrato de renda antiga.
Foi em 1957 que Maricarmen se mudou para este apartamento, com os pais. Após a morte do pai, nos anos 1960, continuou a morar com a mãe e depois da morte desta, em 20025, passou a viver ali sozinha, ficando responsável pelo pagamento do aluguer.
Segundo o Supremo Tribunal, Maricarmen perdeu o direito de permanecer no imóvel porque a sub-rogação que lhe permitia manter a renda ao abrigo da antiga lei de controlo de alugueres já tinha expirado.
A lei permite que apenas o inquilino original e a primeira pessoa a assumir o contrato permaneçam indefinidamente. Como Maricarmen foi a segunda pessoa a beneficiar da sub-rogação, depois da mãe, o seu direito estava limitado a dois anos, salvo em casos de incapacidade superior a 65%, que não se aplicava ao seu caso (tem uma incapacidade avaliada em apenas 50%).
Esta quarta-feira, durante mais de 16 horas, centenas de manifestantes imploraram, em vão, para que o despejo fosse interrompido ou adiado.
A Federação Regional das Associações de Moradores de Madrid (FRAVM) apoiou o protesto e criticou não só Ayuso como o trabalho das três últimas administrações municipais, falando em “fracasso profundo”.
A plataforma #Niundesahuciomás (Nem Mais Um Despejo) convocou manifestações simultâneas em cidades como Ávila, Barcelona, Cádiz, Oviedo, Sevilha e Valência, tendo a maioria delas ocorrido em frente a delegações governamentais.
Entretanto, soube-se que Maricarmen recusou a vaga de emergência gratuita num lar de idosos oferecida pelo Ayuntamiento de Madrid e vai ficar temporariamente na casa de familiares, depois de ter sido levada de casa em maca numa ambulância rumo ao Hospital Gregorio Marañón, no meio de um turbilhão de lágrimas e gritos.

