Filha de um alemão e de uma portuguesa, Catarina dos Santos-Wintz nasceu em Lisboa, mas cresceu em Aachen, no estado alemão da Renânia do Norte-Vestefália, junto à fronteira com a Bélgica e os Países Baixos. Eleita para o Bundestag em 2021 e reeleita em 2025, a deputada da União Democrata-Cristã (CDU, o partido de centro-direita do chanceler Friedrich Merz) falou ao DN no final de uma visita a Portugal, onde já não vinha há dois anos. Sentada no alpendre da residência da embaixadora da Alemanha (atualmente Daniela Schlegel), no Restelo, Catarina recordou como a invasão russa da Ucrânia mudou a política de defesa alemã e destacou a necessidade de mais independência - e maior cooperação - na Europa nessa área. A deputada destaca ainda a necessidade de os partidos tradicionais, como a CDU, travarem o avanço da extrema-direita da AfD. Aos 31 anos, a luso-alemã garante ainda que a comunidade portuguesa está bem integrada na Alemanha e recorda os verões passados em Ferragudo, terra da sua família materna. E confessa as saudades da comida portuguesa. Nos últimos anos, sobretudo desde a guerra na Ucrânia, vimos a Alemanha mais disposta a assumir o seu papel em termos de defesa europeia. Na Alemanha, a invasão russa da Ucrânia em 2022 foi um ponto de viragem que fez os líderes - na altura o chanceler social-democrata Olaf Scholz com o seu discurso Zeitenwende - perceberem que o mundo não seria o mesmo e só uma Alemanha mais forte, também militarmente, o pode enfrentar?Claro que sim. Não só desde essa altura, mas sobretudo depois de 2022 houve uma mudança na política de defesa da Alemanha. Há muitos anos que a Europa - e Alemanha também, claro, tinha a certeza que os Estados Unidos estariam lá para nos proteger. E a Alemanha há muito dependia da energia barata vinda da Rússia. Então, agora, o que é importante para mim é que o apoio à Ucrânia não é apenas solidariedade com Kiev, é também uma questão de segurança europeia. E essa é uma sensação que temos muito na Alemanha - de que se a Ucrânia perder a guerra, a Europa ficará mais vulnerável, política, militar e economicamente. Portanto, para nós, obviamente, é muito importante investimos mais em defesa agora.Com a guerra no Médio Oriente a impactar na economia e sobretudo na questão energética, como é que a Alemanha está a lidar com este desafio? O debate sobre o nuclear está encerrado de vez?Desde o ataque russo à Ucrânia, a Alemanha teve de rapidamente reavaliar a sua política energética; tomámos decisões para nos tornarmos mais independentes. É claro que o fecho das centrais nucleares foi novamente discutido, mas este passo é irreversível. Já no acordo de coligação [entre CDU e SPD] em 2025 estabelecemos que o nosso abastecimento energético deve voltar a ser concebido de forma mais aberta às diferentes tecnologias. Isso inclui os pequenos reatores modulares, que também estão a ser discutidos a nível europeu, como uma parte da alternativa, bem como a decisão política de investir na investigação sobre fusão. Queremos que a primeira central de fusão seja construída na Alemanha. A guerra no Irão confirma a orientação do Governo federal de apostar em diferentes tecnologias.Há pouco mais de um ano assistimos à eleição de Friedrich Merz como chanceler. Mas hoje vemos o governo da CDU a lidar com algumas dificuldades - desde a fraca recuperação da economia, agravada pelos efeitos da guerra no Médio Oriente até às tensões com os EUA. Apesar dos desafios, a Alemanha continua firme no seu papel de motor da UE?Sim, queremos ver a Alemanha assumir mais responsabilidade em termos não só de política externa, mas também dentro da Europa, no enquadramento europeu. Mas liderança não significa imposição. Isso é muito importante para nós, significa criar confiança, procurar consensos e avançar com os nossos parceiros e não contra eles. Portanto, queremos mais liderança, sim, mas no enquadramento europeu. E sei que para o chanceler Merz também é importante que seja assim.A Catarina também é membro da Assembleia Parlamentar Franco-Alemã, num cenário de instabilidade global a UE precisa mais do que nunca do “casal” franco-alemão. Podemos dizer que a relação Merz-Macron tem funcionado?Sim, acho que está a funcionar e tem de funcionar. Afinal, por razões históricas, temos sempre um grande interesse em manter as relações entre a Alemanha e a França muito estáveis e fortes. Nos últimos tempos, temos também reforçado a relação com a Polónia. Estamos a tentar reativar e reforçar o Triângulo de Weimar. Mas, no fim de contas, claramente é verdade que a relação com França para nós é muito importante. E acho que estamos num bom caminho..Ao longo dos anos, habituámo-nos a ver Adenauer e De Gaulle, Willy Brandt e Pompidou, Mitterrand e Kohl, Schroeder e Chirac, a chanceler Merkel e Chirac, Sarkozy, Hollande e Macron. Agora temos o chanceler Merz e o presidente Macron. Como vê a relação entre os dois?Bem, houve outros momentos na história em que as relações franco-alemãs ficavam muito bem nas fotografias. Mas daquilo que eu sei do chanceler Merz, ele diz que tem uma grande admiração por Macron, que têm boas conversas. É uma relação muito ao nível do trabalho e se calhar um bocadinho menos para as fotografias.A Catarina cresceu em e foi eleita por Aachen, cidade ligada a Carlos Magno e símbolo de unidade e concórdia europeia. Hoje os líderes europeus deveriam aprender com a História e trabalhar para essa unidade?Sim, sem dúvida! Isso fica mais evidente no exemplo da defesa europeia. É claro para todos os envolvidos que uma defesa europeia só poderá ser eficaz se deixarmos de adquirir tudo individualmente, enquanto Estados-nação, e de tentar depois encaixar as competências individuais como se fossem peças de um puzzle. Uma aquisição conjunta com normas uniformes e mais cooperação seria muito mais eficaz nesse sentido. Isto pode ser aplicado a quase todas as áreas. Mesmo que as relações com os EUA enfrentem atualmente alguns desafios, isso tem também o aspeto positivo de nos fazer perceber: somos tão fortes quanto estamos unidos.Foi eleita pela primeira vez para o Bundestag em 2021 e reeleita no ano passado. Como tem sido essa experiência? Eu nunca planeei ir para a política, nem seguir esta carreira. Portanto não tinha uma ideia muito definida do que podia acontecer no Parlamento. E até agora considero um grande privilégio poder trabalhar para um dos meus dois países. Entrei no Parlamento na fase da covid e foi uma experiência diferente da que qualquer deputado já tinha tido, Mas, claro, nestes anos aconteceram muitas coisas. No início de 2022 começou a guerra na Ucrânia, mas já antes disso, na campanha para 2021 tivemos as cheias na Alemanha. Depois o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, a situação com os Estados Unidos, etc. Vai sempre haver coisas novas a acontecer e novos desafios, portanto o melhor a fazer é trabalhar sempre em políticas que sejam positivas para as pessoas e para o nosso país. Uma das diferenças hoje em relação a quando entrou para o Parlamento é o grande aumento da bancada do partido de extrema-direita AfD. Isso também colocou desafios novos?O fenómeno da extrema-direita é um que vemos em quase todos os países da Europa e em muitas partes do mundo, portanto, não é um problema só alemão, ou só português, ou só europeu. Mas é verdade que na Alemanha vimos a bancada da AfD duplicar em número de 2021 para 2025. É uma coisa assustadora. Mas nós temos eleições democráticas na Alemanha, é o eleitorado a votar, e temos de nos preocupar sobretudo com as razões que levam as pessoas a votar neles. Temos de nos focar no nosso trabalho, que devia ser resolver os problemas das pessoas e falar de uma maneira que crie confiança. Obviamente, temos tido problemas com isso, mas tenho a certeza que a maioria das pessoas não é da extrema-direita. É frustração, é também ainda um pouco um voto de protesto, mas também é a perda de confiança nos outros partidos. É isso que temos de discutir e trabalhar é que é a solução.Quando olhamos para o mapa dos resultados eleitorais, a AfD é muito forte no Leste da Alemanha. Mas o fenómeno é bastante mais geral? Em todas as áreas, a todos os níveis. Às vezes falamos só da Alemanha de Leste, onde obviamente é um tema e a AfD está muito bem nas sondagens, mas é a Alemanha como um todo que tem este problema.Desde 2022, é também Conselheira da Diáspora Portuguesa. Que retrato faz da comunidade portuguesa na Alemanha e quais os seus desafios?Eu digo sempre, com muito gosto, que também sou deputada dos portugueses na Alemanha. Porque sou a única. Portanto espero que mais colegas se venham juntar a mim neste desafio. Eu acho que a comunidade portuguesa na Alemanha é uma comunidade muito bem integrada, muito dedicada ao trabalho, à família, à vida no país, que tem ótimos empregos e que tem ainda uma boa dinâmica conjunta. É uma pena, por exemplo, que os centros portugueses sejam sempre menos do que deviam, mas isso não é um problema alemão, é um problema que temos em todas as partes onde há comunidade portuguesa. Eu, como Conselheira da Diáspora Portuguesa, tento sempre manter o contacto com a Embaixada, que faz um excelente trabalho em Berlim, mas também com a Embaixada da Alemanha aqui em Lisboa. E fico muito feliz ao ver isso. .Nasceu em Lisboa mas cresceu em Aachen, com um pai alemão e uma mãe portuguesa. Como foi lidar com essas duas culturas em casa?Sim, cresci ao pé de Aachen. Como sempre vivi na Alemanha, claramente falo melhor alemão do que português, andei na escola alemã, nunca fui à escola portuguesa. Para mim enquanto crescia, e sobretudo ali pelos 13, 14 anos, que é uma fase um bocadinho mais difícil, sempre tive de lidar com o tema da minha identidade - que percentagem de mim é portuguesa, que percentagem é alemã. E acho que muitas crianças que têm dupla nacionalidade conhecem estas questões. Não é que fosse uma questão que todos os dias me bloqueasse ou na qual pensasse a toda a hora, mas a verdade é que só quando entrei para o parlamento é que senti que resolvi a minha identidade. O que é impressionante. Aconteceu porque tive sempre o privilégio, desde o primeiro dia, de ser responsável para Portugal. O que é surpreendente numa primeira legislatura. Mas eles sabiam que eu era a única deputada que falava português e eu insisti que queria ser responsável e ter o privilégio de trabalhar com as instituições portuguesas, com a embaixada, viajar para Portugal. Para mim, resolveu completamente essa… não é uma crise identitária, mas foi sempre uma questão ao crescer na Alemanha. Portanto, hoje posso dizer que sou ambos - sou portuguesa e alemã. Mas obviamente, na parte da pontualidade, sou um bocado mais alemã [risos].A sua família materna é do Algarve, de Ferragudo, quando era pequena havia férias em família em PortugalAh, sempre, sempre. Passava sempre o verão em Portugal. Ainda hoje venho sempre que posso. Por isso estes dois anos que estive sem cá vir agora foram o período mais longo da minha vida sem visitar. Não vou repetir! Foi um privilégio poder passar os verões com a minha família, com primos da minha idade, a dormir na areia. E tive muitas saudades da comida portuguesa. Fico muito feliz de voltar.Para terminar, o que é que Portugal pode aprender com a Alemanha? E o que é que a Alemanha pode aprender com Portugal?Eu acho que há sempre possibilidade de aprender uns com os outros. O que a Alemanha pode aprender com Portugal tem talvez a ver com a mentalidade. Mas também em relação à forma como Portugal está a lidar, por exemplo, com a digitalização, em termos de modernização das estruturas de Estado. É uma área em que Portugal está muito avançado. Em tudo o que tem também a ver com inovação. O ambiente de startups em Portugal está muito avançado. Esses são alguns dos exemplos em que acho que a Alemanha pode aprender com Portugal. Quanto ao que Portugal pode aprender com a Alemanha, diria que é como se trabalha com estruturas muito estáveis, com eficácia, com eficiência, que é algo que temos na Alemanha. Mas há sempre muitos exemplos de sectores em que podemos aprender uns com os outros.