O Departamento de Justiça dos Estados Unidos é liderado por Pam Bondi.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos é liderado por Pam Bondi.JIM LO SCALZO / EPA

Caso Epstein. Democratas exigem investigação a “espionagem” pelo Departamento de Justiça

O porta-voz da Câmara dos Representantes, o republicano Mike Johnson, considera não ser "apropriado" que o DOJ monitorize as buscas dos congressistas, mas disse acreditar que tenha sido um "lapso".
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Congressistas democratas norte-americanos exigiram na quinta-feira, 12 de fevereiro, ao inspetor-geral do Departamento de Justiça (DOJ) que investigue o que consideram ser “espionagem” pelo governo das suas pesquisas do caso Epstein.

Fotografias de uma acesa sessão da Comissão Judiciária da Câmara de Representantes na quarta-feira mostram a procuradora-geral Pam Bondi com uma pasta aberta numa página com o título "Histórico de Busca de Jayapal Pramila", listando uma série de documentos do caso Epstein que aparentemente foram revistos por esta congressista democrata. 

Jayapal foi um dos membros da Comissão Judiciária que, esta semana, reviram num anexo e em computadores do Departamento de Justiça versões menos censuradas dos ficheiros sobre Jeffrey Epstein, criminoso sexual que durante décadas manteve uma relação próxima com Donald Trump, de quem Bondi é feroz defensora, tendo chegado a referir-se a este na audição como “o melhor Presidente da história dos Estados Unidos”.

Em comunicado, o congressista Jamie Raskin afirmou que o Departamento de Justiça não só reteve registos dos legisladores, "mas agora Bondi e a sua equipa estão a espiar membros do Congresso que exercem funções de fiscalização, em mais uma tentativa flagrante de interferir nos processos de supervisão do Congresso".

"O Departamento de Justiça deve cessar imediatamente o rastreio de quaisquer buscas feitas pelos membros do Congresso, abrir a altos funcionários do Congresso a investigação sobre Epstein e divulgar publicamente todos os ficheiros — com todas as informações das vítimas, e apenas as informações das vítimas, devidamente rasuradas — conforme exigido pela lei federal", adiantou o principal democrata na Comissão Judiciária da Câmara.

O porta-voz da Câmara dos Representantes, o republicano Mike Johnson, disse também na quinta-feira que considera não ser "apropriado" que o DOJ monitorize as buscas feitas por membros do Congresso em arquivos não editados de Jeffrey Epstein, mas que acreditar que qualquer vigilância deste tipo tenha sido um "lapso".

"Pelo que percebi, existem computadores configurados onde o DOJ permitia o acesso aos ficheiros. E penso que os membros do Congresso devem ter o direito de os examinar ao seu próprio ritmo e com o seu próprio critério", disse Johnson, um aliado de Donald Trump. "Não acho apropriado que ninguém esteja a monitorizar isto", prosseguiu o líder republicano. "Portanto, reitero isto a qualquer pessoa envolvida com o DOJ. E tenho a certeza de que foi um lapso. É esse o meu palpite, ok?"

Já a congressista Nancy Mace, um dos quatro eleitos republicanos que se juntaram aos democratas para forçar uma votação sobre a divulgação dos ficheiros, disse nas nas redes sociais que podia confirmar que o DOJ está realmente a monitorizar a atividade dos congressistas. Mais tarde, em declarações aos jornalistas, sobre esta monitorização, disse: "É assustador".

Rasurando dados que pudessem permitir a identificação de vítimas de Epstein, muitas menores à altura dos factos, o Departamento de Justiça anunciou no mês passado a divulgação de mais de três milhões de páginas, além de mais de 2.000 vídeos e 180.000 imagens relacionadas com as investigações. 

Alguns dos congressistas que viram os documentos queixaram-se de que muitas informações sobre os parceiros de Epstein permanecem ocultas. 

A congressista Pramila Jayapal, um dos membros da comissão que mais pressionaram Bondi durante a audição de quarta-feira sobre como o departamento lidou com os ficheiros de Epstein, classificou a alegada espionagem como "totalmente inaceitável" e afirmou que os legisladores "vão exigir uma prestação de contas completa" sobre a forma como o departamento está a utilizar o histórico de pesquisas.

"Bondi tem tempo de sobra para espiar membros do Congresso, mas não consegue pedir desculpa às vítimas dos abusos horríveis de Epstein?", disse Jayapal no X.

Durante a audiência de quarta-feira, Pramila Jayapal pediu às vítimas de Epstein sentadas na sala que levantassem a mão caso não tivessem reunido em nenhum momento com o Departamento de Justiça: todas levantaram a mão.

O procurador-geral adjunto Todd Blanche, ex-advogado pessoal de Donald Trump, defendeu que a administração Trump cumpriu a obrigação, imposta por uma lei aprovada em novembro pelo Congresso, de garantir total transparência sobre este assunto.

Trump defende Bondi

Donald Trump elogiou a procuradora-geral, Pam Bondi, pelo desempenho na audiência no Congresso, onde defendeu o Presidente dos Estados Unidos ao responder agressivamente às críticas de republicanos e democratas sobre a condução do caso Epstein.

"A procuradora-geral Pam Bondi, sob intensa pressão dos lunáticos delirantes e radicais de esquerda que apoiam Trump, foi fantástica na audiência [de quarta-feira] sobre a interminável saga de Jeffrey Epstein", escreveu o presidente norte-americano na Truth Social.

Durante a acesa discussão, na qual foi pressionada por vários membros do Congresso, a procuradora-geral insistiu que Trump não tinha conhecimento dos crimes do seu antigo amigo e defendeu as ações do seu gabinete, que divulgou milhões de documentos relacionados com o caso após a aprovação de uma lei de transparência no Congresso.

"Não há provas de que Donald Trump tenha cometido qualquer crime", referiu Bondi às perguntas do democrata Ted Lieu sobre a presença de raparigas menores de idade em alguma festa frequentada pelo presidente e pelo falecido agressor sexual.

Na audição, Bondi lançou ainda ataques pessoais contra congressistas como o republicano Thomas Massie, coautor da lei que obrigou o Departamento de Justiça a divulgar os ficheiros de Epstein e um dos mais veementes defensores da transparência no caso, a quem chamou "político falhado".

Massie criticou duramente a procuradora pela divulgação inadvertida, por parte da justiça, da identidade das vítimas e pelo encobrimento da identidade de alegados cúmplices.

Na Truth Social, Trump reiterou as suas críticas a Massie, chamando-lhe "perdedor e hipócrita", que, segundo ele, "se fez de tolo [na quarta-feira], lutando sem rumo por uma agenda desesperada de ódio e estupidez, como claramente demonstrado pela queda vertiginosa dos seus índices de aprovação em relação ao seu trabalho na grande comunidade do Kentucky".

"Ninguém se preocupava com Epstein enquanto ele era vivo. Só se preocuparam quando pensaram que ele poderia causar danos políticos a um presidente muito popular que salvou o nosso país da beira da extinção — e muito rapidamente!", acrescentou o presidente dos EUA, realçando que, "na verdade, esta tentativa dos democratas de desviar a atenção do tremendo sucesso republicano está a falhar espetacularmente".

com Lusa

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