Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco MasterFacebook do Banco Master

“Caso Epstein brasileiro” também já tem um suicídio na prisão

Luiz Mourão, responsável por vigiar e atacar rivais de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, cujas amizades influentes via festas luxuosas abalam as estruturas da República, está em morte cerebral.
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Comparado com o “caso Epstein”, que vem sacudindo a política dos Estados Unidos e do mundo, o escândalo no Brasil em torno da falência do Banco Master, que já atingiu os poderes político, económico e jurídico do país, teve como último desenvolvimento o suicídio de uma personagem chave. Luiz Mourão, conhecido como Sicário e responsável por vigiar e atacar rivais de Daniel Vorcaro, o poderoso banqueiro que é o epicentro do escândalo e também já está detido, matou-se na prisão, segundo a Polícia Federal (PF), na noite de quarta-feira, dia 4. O próprio Jeffrey Epstein suicidou-se, supostamente, em circunstâncias idênticas.

Mourão foi encontrado desmaiado na cela de uma prisão, em Belo Horizonte, para onde fora levado horas antes pela polícia, no âmbito de nova operação policial em torno do caso. A Secretaria de Saúde do estado de Minas Gerais declarou “morte cerebral”, já na madrugada, no horário de Portugal, de quinta-feira. 

Através de conversas de telemóvel obtidas pelas investigações, a PF afirma que Sicário, como se autodenominava, tinha papel central na organização criminosa liderada por Vorcaro. Era ele quem executava ordens de vigilância a alvos, extração ilegal de dados em sistemas sigilosos e ações de intimidação física e moral.

Por exemplo, Vorcaro e Sicário combinaram agressão ao colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, após reportagens consideradas negativas. Nos diálogos falam em vigiar o jornalista, levantar informações sobre ele e até atacá-lo fisicamente. "Quebrar todos os dentes. Num assalto", diz o banqueiro ao homem de mão num trecho.

Noutros, Sicário oferece o serviço da “turma” para intimidar um funcionário que teria feito uma gravação indesejada envolvendo Vorcaro. Os dois trocam ainda dados pessoais de alvos como um chef de cozinha. “O bom é dar um ‘sacode’ no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar", diz um dos trechos. 

Vorcaro relata ainda estar a ser ameaçado por uma empregada e ordena que Sicário obtenha a sua morada e demais dados. “Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda", disse Vorcaro. Sicário pergunta então o que deveria ser feito. E Vorcaro responde: “Puxa endereço, tudo".

Segundo a PF, Sicário recebia por mês um milhão de reais [mais de 160 mil euros] e distribuía uma parte pela “turma” responsável pelos ilícitos, da qual era o chefe.  

Semanas antes desta operação policial que resultou na prisão de Vorcaro, do cunhado e braço-direito Fabiano Zettel e de Sicário, o ministério público do Brasil solicitara ao Tribunal de Contas a abertura de um inquérito para identificar as autoridades do país que participaram em festas faustosas, com a presença de modelos estrangeiras contratadas, organizadas por Vorcaro, o que já suscitara comparações com o Caso Epstein. 

As festas, segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo que cita 13 executivos, empresários e integrantes de órgãos públicos como fontes sob anonimato, ocorreram sobretudo na estância balnear de Trancoso, na Bahia, mas também noutros pontos do Brasil e do mundo, como Lisboa.   

Nos encontros eram oferecidos caviar, vinhos, como Petrus, La Tâche e Armand Rousseau, e whisky Macallan Black de 12 anos, segundo a revista Liberta, com o serviço a cargo de modelos europeias – em idade legal, ao contrário dos crimes patrocinados por Epstein. 

A defesa de Vorcaro declarou serem “relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresário”. Após a detenção desta quarta-feira, 4, os advogados do banqueiro e do cunhado declararam que os seus clientes estão à disposição das autoridades.

Com uma estratégia de captação de recursos considerada suicida, o Banco Master, fundado por Vorcaro, 42 anos, natural de Belo Horizonte, cresceu imparável até um passivo multimilionário o obrigar a vender a instituição ao Banco de Brasília. Em setembro passado, porém, o Banco Central (BC) vetou a operação. 

Meses depois, a PF prendeu pela primeira vez Vorcaro, supostamente em fuga no aeroporto de Guarulhos, por fraudes em torno de quase dois mil milhões de euros.

Entre os muitos poderosos associados ao empresário, Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, e Dias Toffoli, juiz do Supremo Tribunal Federal (STF), foram os primeiros alvos: um e outro têm contra si pedidos de impeachment de parlamentares da esquerda à direita. 

Em causa, a tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília, instituição pública controlada por Ibaneis, e o sigilo decretado por Toffoli ao processo, antes de se saber que o magistrado viajou num jato de Vorcaro para Lima, no Peru, para assistir à final da Taça dos Libertadores e que dois irmãos seus são sócios num resort de um cunhado do banqueiro. Toffoli já deixou a relatoria do caso.

Nas últimas horas, mensagens a que a PF teve acesso revelam também que o senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Jair Bolsonaro e presidente do PP, de direita, é tratado por Vorcaro como “um dos grandes amigos de vida”. Em diálogo com a namorada, o banqueiro celebra um projeto de lei do senador que beneficiaria o Banco Master.

Nogueira e Antonio Rueda, presidente do União Brasil, também de direita, voaram em helicópteros de Vorcaro para o circuito automobilístico de Interlagos, em São Paulo. 

Nogueira disse à imprensa estar tranquilo.

Noutras conversas, Vorcaro fala em encontros com ”Hugo” e “Alexandre”, pelo teor das mensagens, supostamente Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, e Alexandre de Moraes, juiz do STF. 

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