O presidente dos Estados Unidos concentrou em si todas a atenções da edição deste ano do Fórum Económico Mundial, mas o prémio de maior impacto do evento da semana passada coube ao primeiro-ministro do Canadá. Ou como refere o jornalista Ishaan Tharoor do Washington Post na sua opinião de sexta-feira “Trump dominou Davos. Mas o canadiano Carney foi a estrela”, sublinhando que “Carney fez um discurso que confrontou diretamente o mundo transformado pela presidência de Trump. Os participantes de Davos, incluindo Trump, prestaram atenção”.“Sabemos que a velha ordem não voltará. Não devemos lamentá-la. A nostalgia não é uma estratégia, mas acreditamos que, a partir da rutura, podemos construir algo maior, melhor, mais forte e mais justo. Esta é a tarefa das potências médias, os países que mais têm a perder com um mundo de fortalezas e que mais têm a ganhar com uma cooperação genuína”, disse, na terça-feira, o primeiro-ministro canadiano no seu discurso, que lhe valeu uma rara ovação de pé no final. Sem mencionar o nome de Trump, Mark Carney condenou a coação das grandes potências sobre os países mais pequenos, dizendo que “sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, que os mais fortes se isentariam quando lhes convinha, que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica”. “Esta ficção era útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de litígios”, prosseguiu. “Este acordo já não funciona. Deixem-me ser direto. Estamos no meio de uma rutura, não de uma transição”.Para Jordan Leichnitz, diretora do Programa do Canadá do gabinete de Washington da Fundação Friedrich Ebert, “há um ano, poucos no Canadá teriam previsto que o ex-banqueiro central - agora primeiro-ministro - Mark Carney faria aquele que é talvez o discurso de política externa canadiano mais importante numa geração. No entanto, foi exatamente isso que fez perante os líderes mundiais num dia frio em Davos, delineando com veemência a nova realidade enfrentada pelas potências médias no meio da instabilidade geopolítica provocada pelas ameaças do presidente Trump aos aliados da NATO, pela agressão russa e pela ascensão da China”. “Se o Canadá e a Europa estão preparados para fazer o que for necessário para enfrentar esse desafio juntos determinará se o discurso marcante do primeiro-ministro Carney será lembrado como um ponto de viragem ou como um aviso que não foi ouvido”, refere a mesma analista. Para já sabe-se que Trump ouviu o recado, tendo usado a sua intervenção em Davos, no dia seguinte, para dizer que “o Canadá vive graças aos EUA” e que, por isso, “deveria ser grato”. “Lembre-se disso, Mark, da próxima vez que fizer as suas declarações”, acrescentou.Já de regresso a casa, o primeiro-ministro respondeu a Trump, referindo que “o Canadá não vive por causa dos EUA. O Canadá prospera porque somos canadianos”, lembrando que os dois países “construíram uma parceria notável nas áreas de economia, segurança e rico intercâmbio cultural”, mas deixando claro que “somos donos da nossa casa, este é o nosso país, é o nosso futuro, a escolha é nossa”.Seguindo a sua habitual política de retaliação, o norte-americano anunciou que ia retirar o convite ao Canadá para fazer parte do seu Conselho de Paz. “Por favor, considere esta carta como uma notificação de que o Conselho da Paz está a retirar o convite feito a si para a adesão do Canadá ao que será o mais prestigiado Conselho de Líderes já reunido, em qualquer época”, escreveu Trump numa publicação na Truth Social dirigida a Carney.Ao longo do último ano, o Canadá tem sido um dos alvos preferenciais das agressões de Trump, sendo um dos primeiros países ao qual aplicou tarifas e o primeiro a ser alvo dos desejos expansionistas do presidente dos EUA, chamando-lhe o seu 51.º estado - há pouco mais de uma semana, publicou nas redes sociais uma imagem em que o Canadá e a Gronelândia surgiam cobertos pela bandeira norte-americana. Carney nem sempre respondeu com firmeza às ameaças de Trump, preferindo a via do apaziguamento, mas percebeu entretanto que esta abordagem não funciona. “O que parece ter motivado a intervenção de Carney em Davos não foram apenas as tarifas. Foi o interesse explícito de Trump em tomar território a um aliado da NATO e a sua ameaça, agora suspensa, de impor tarifas punitivas adicionais contra qualquer país que se lhe opusesse. Estas ações revelaram uma verdade mais fundamental: o apaziguamento não pode conter um líder que considera a coação um direito. Só a ação coletiva tem alguma hipótese realista de o fazer”, conclui Jordan Leichnitz..Após uma década de tensão, Canadá vira-se para a China com visita de Carney a Xi Jinping.Trump sobe tom na guerra comercial com Canadá após Carney admitir reconhecer Estado da Palestina