Bruno Retailleau.
Bruno Retailleau.Ministério do Interior de França

Bruno Retailleau, o candidato da direita ao Eliseu que quer referendar a imigração e a reforma penal

Senador de 65 anos, ex-ministro do Interior, quer impor a ordem no país e introduzir reformas através de plebiscitos, com um discurso que apela aos eleitores de Marine Le Pen.
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Em plena pré-campanha eleitoral para as municipais de 15 e 22 de março, o líder de Os Republicanos (centro-direita) decidiu não esperar mais e anunciou a sua esperada candidatura à presidência, num campo preenchido de candidatos a candidato. O ex-ministro do Interior promete um "novo caminho fundado na ordem, na prosperidade e no orgulho francês". Um discurso que tenta captar o eleitorado da extrema-direita, que só saberá quem vai a votos em julho, quando a justiça decidir sobre a inelegibilidade de Marine Le Pen.

Num discurso transmitido em direto nas redes sociais, na quinta-feira, Retailleau começou por pintar a paisagem política de "uma França que se afunda, uma França que se apaga, num mundo cada vez mais ameaçador".

Prosseguiu: "A leste, Vladimir Putin semeia a guerra às nossas portas, e a China, por sua vez, está a infiltrar-se e a tecer a sua teia no coração do nosso continente. A oeste, Donald Trump impõe a sua lei brutal e ameaça a própria unidade do nosso continente. Por seu lado, a internacional islamista espalha o terror nos países que domina, procurando também infiltrar-se nas nossas sociedades. Perante todas estas ameaças, a Europa tem um papel a desempenhar. Contudo, deverá defender a sua identidade, o seu projeto e pôr fim às suas derivas tecnocráticas", defendeu.

Olhando para o seu país, Retailleau destacou a imigração, a reforma da segurança social, a competitividade da economia e a educação como os maiores problemas. "A imigração não é uma oportunidade. Porque, para além de certo número, uma sociedade multicultural torna-se sempre uma sociedade de múltiplos conflitos." Em 2024, 11,3% da população francesa, ou 7,7 milhões de pessoas, eram imigrantes. Quase metade de origem africana.

"Dizer a verdade é dizer que não se pode viver melhor trabalhando menos; que o Estado não pode gastar mais do que ganha." O governo liderado por Sébastien Lecornu viu-se obrigado a suspender a reforma que aumenta a idade da vida ativa em troca da sobrevivência do executivo minoritário.

"É a competitividade das nossas empresas que permite aumentar os salários. Não pode haver progresso social sem prosperidade nacional", continuou. Por fim, manifestou-se contra a "vergonha" no setor educativo: "A nossa escola transformou-se numa máquina de reproduzir desigualdades, já que agora o sucesso das crianças depende da posição social dos seus pais."

Feito o retrato do mundo e do país, Retailleau comprometeu-se a apresentar durante a campanha eleitoral os temas de um "novo contrato social" que pretende levar a referendo, bem como o respetivo calendário. Objetivos: "Reduzir drasticamente a imigração, iniciar uma verdadeira revolução na nossa justiça penal e voltar a dar prioridade ao nosso direito nacional sempre que se trata de proteger os nossos interesses fundamentais." No entanto, a atual legislação sobre o referendo teria de ser alterada, uma vez que temas como a justiça ou a imigração não estão contemplados.

Mais tarde, numa entrevista na TF1, Retailleau deu como exemplo a seguir os países do sul da Europa. "Há apenas alguns anos, caíram muito mais do que nós, deram um salto e agora estão muito melhor." O antigo ministro não concretizou qual o modelo a seguir, mas o país do sul da Europa que registou maior crescimento foi a Espanha, sob um governo socialista, e com uma política de abertura aos imigrantes.

Bruno Retailleau, de 65 anos, há muito sonhava em candidatar-se à presidência. Em 2021, ainda pouco conhecido do grande público, desistiu de participar nas primárias de direita. Agora, depois de ter assumido um cargo de grande mediatização — ministro de Estado e do Interior em três governos — e como líder do gaullista Os Republicanos, decidiu nem esperar pelo processo escolhido pelo grupo de trabalho, nomeado pelo próprio, para decidir como designar o candidato do partido.

"Há candidatos da direita por todo o lado. São quase mil flores maoístas", disse em janeiro Laurent Wauquiez, chefe da bancada parlamentar do partido, numa referência à "campanha das cem flores" de Mao Tsé-tung. O próprio Wauquiez não nega a sua ambição presidencial, defendendo a realização de primárias alargadas do centro-direita à extrema-direita. Soma-se a candidatura do presidente da região Hauts-de-France Xavier Bertrand; e as intenções do presidente da associação dos autarcas David Lisnard, do ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin, que lançou o partido França Humanista, e do ex-comissário europeu e fugaz primeiro-ministro Michel Barnier.

De cavaleiro a diretor

Retailleau nasceu e cresceu na Vendée, um departamento do oeste francês. Neto e filho de maires da aldeia de Saint-Malô-du-Bois, ambos comerciantes de cereais, diplomou-se em Paris, na SciencesPo, em Serviço Público, e obteve um mestrado na Universidade de Nantes, em Economia. O seu percurso profissional e político está intimamente ligado a Philippe de Villiers, político e fundador do parque de diversões Pays du Fou. O jovem Retailleau, que começou como cavaleiro no espetáculo principal do parque, Cinéscénie, acabou como diretor do show e do parque. Braço direito de Villiers, acompanha-o no seu partido Movimento pela França, bem como nas duas candidaturas presidenciais deste homem de uma direita conservadora e contra a integração europeia.

Segue também os seus passos como eleito na região, a partir dos anos 1990, percorrendo os cargos de conselheiro departamental, vice-presidente e presidente do conselho regional do Pays de la Loire, presidente do conselho da Vendée, tendo pelo meio sido deputado (1994-1997). Em 2010, rompe com Villiers e adere à UMP (atual Os Republicanos), movimento pelo qual é eleito senador desde 2011.

Leitura no lugar do chiqueiro

Católico, é casado com Isabelle desde 1987, uma médica que não renuncia à sua vida privada, tal como os seus três filhos. Em Saint-Malô-du-Bois, na casa familiar onde passa os fins de semana, é leitor noctívago no seu escritório, um antigo chiqueiro transformado pelo seu pai e por ele, na década de 1980, segundo conta o Le Monde. Apesar de defensor de alguma ideias propostas pela extrema-direita, a sua cultura e os seus modos desarmam a esquerda, ou pelo menos, a esquerda moderada. Os colegas socialistas no Senado diziam, no mesmo texto do vespertino francês, que "sobre os assuntos sociais, ele é reacionário no sentido literário, mas é um republicano com o qual se pode discutir" (Patrick Kanner) e que está "na extremidade do espectro da direita, mas não é desonesto" (Laurence Rossignol).

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