De quatro em quatro anos, no início de abril faz-se o balanço do chamado mercado de transferências de deputados no Brasil, a janela de um mês em que os políticos, assim como os jogadores de futebol em janeiro, podem trocar de partido. Em 2026, 115 dos 513 deputados, ou seja, 22%, mudaram de formação. O Podemos, de centro-direita, agora tem 27 parlamentares, mais 10 do que há um mês. O PP e o União Brasil, ambos de direita, foram os que mais perderam. O PL, do ex-presidente Jair Bolsonaro, e o PT, do atual chefe de Estado Lula da Silva, continuam com as maiores bancadas. A janela partidária, criada por lei de 2015, visa gerar flexibilidade política em ano eleitoral e permitir a reorganização das forças partidárias num período específico e não ao longo de toda a legislatura. Quem quiser virar a casaca fora da janela, arrisca perda de mandato a não ser que partido de origem e partido de destino cheguem a acordo. O “mercado de transferências” abre exatos sete meses antes da data da primeira volta das eleições, normalmente no início de março, e fecha a exatos seis meses do sufrágio, normalmente no início de abril.O PL, partido não só de Jair mas também do senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência da República, havia perdido ao longo da legislatura 11 deputados por causa de conflitos na direita entre bolsonaristas e moderados mas recuperou oito nesta janela: ou seja, de 99 caiu para 88 e de 88 cresceu para 95. Muito às custas do União Brasil, com quem disputa primazia à direita, que se queixou da agressividade do concorrente no mercado. “Eles vieram para cima”, acusou, sob reserva, um integrante do União citado pelo portal G1. “E quem quer alianças não pesca dentro do aquário…”, concluiu. Já o PT, do candidato à reeleição Lula, manteve os 67 e continua como segundo maior partido do Congresso, o maior do campo da esquerda e centro-esquerda.O PSD, de Ronaldo Caiado, considerado o terceiro candidato presidencial mais competitivo, também não mudou de dimensão legislativa: perdeu 14 parlamentares, contratou 14, continua com 47. Reforços sonantes Caiado, que era do União Brasil até ao início do ano, foi apenas uma das estrelas da política do Brasil que trocou de cor na janela. Outra foi o senador (e juiz da Operação Lava Jato) Sérgio Moro, que também estava no União Brasil, migrou para o PL e se reaproximou do bolsonarismo para disputar o governo do Paraná pelo partido. Entre os aliados do governo, Simone Tebet, ministra do Planeamento de Lula e terceira classificada na presidencial de 2022, deixou o centrista MDB após 30 anos de militância para tentar uma vaga no Senado pelo PSB, partido de centro-esquerda do atual vice-presidente Geraldo Alckmin e tradicional aliado do PT.E a senadora Soraya Thronicke, quinta mais votada naquela presidencial, também com o apoio de Alckmin, trocou o Podemos pelo mesmo PSB quase na hora do fecho do mercado. Em Minas Gerais, estado considerado estratégico na campanha presidencial, por ser o segundo mais populoso (21 milhões) e ainda por ser o swing state que, diz a teoria política brasileira, determina o vencedor da eleição nacional, Rodrigo Pacheco, ex-presidente do Congresso, trocou o PSD pelo PSB e deve lançar-se candidato a governador com apoio de Lula.O ex-presidenciável Ciro Gomes, entretanto, deixou o PDT, que está aliado no Ceará ao PT, e regressou ao PSDB para disputar o governo do estado, cargo que já ocupou na década de 1990. A família Bolsonaro – à excepção da ex-primeira-dama Michelle, que verbalizou incómodo com a aliança – e os bolsonaristas cearenses apoiam Ciro.Por falar em Ceará, a histórica deputada Luizianne Lins deixou o PT após 37 anos e filiou-se à Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, devido a divergências internas no estado.Outros parlamentares mediáticos, como a deputada trans Duda Salabert deixou o PDT e retornou ao PSOL, comparável ao Bloco de Esquerda, para buscar a reeleição como deputada federal por Minas Gerais. Kim Kataguiri migrou do União Brasil para o recém-criado Missão, partido que reúne militantes do MBL, movimento que se destacou nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2015 e que ajudou a fundar. André Janones, que em 2022 passou de candidato presidencial a fervoroso apoiante de Lula, gerando o neologismo “janonismo cultural”, caracterizado por utilizar fake news agressivas de esquerda em reação às da direita, deixou o Avante e filiou-se à Rede. E a deputada e advogada Rosângela Moro acompanhou o marido, Sérgio, ao trocar o União Brasil pelo PL.Troca duplaUm deputado, entretanto, teve duas movimentações no período: no dia 25 de março, Nelson Padovani passou do PL para o União Brasil e uma semana depois saiu do União Brasil para se filiar ao Republicanos, partido de direita com ligação histórica e estrutural à Igreja Universal do Reino de Deus..Lula e Flávio procuram cara metade para 'ticket' presidencial