O alto-representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Segurança, Josep Borrell, defendeu ontem que a única maneira de alcançar “a paz de forma duradoura” em Gaza é através de uma “solução imposta” pela comunidade internacional, já que “as duas partes nunca serão capazes de chegar a um acordo”. Borrell falava no Seminário Diplomático, em Lisboa, no qual abordou não apenas a guerra no Médio Oriente, mas também a da Ucrânia. E o desafio que representa a China..Em relação às guerras, o chefe da Diplomacia Europeia lembra que ambas partem de “problemas territoriais” que já se pensava fazerem parte do passado “num mundo pós-moderno” e “globalizado”. Se na Ucrânia, estamos diante de um conflito que opõe um Estado soberano a uma potência imperial, com quem não será possível ter relações de “boa vizinhança” enquanto estes “velhos anseios imperais” não forem resolvidos, no caso entre Israel e a Palestina é “um conflito que opõe dois povos que têm direitos legítimos sobre a mesma terra”..Diante desse impasse, indicou Borrell, “a única solução possível é que partilhem a terra, ou que um deles desapareça, por ser obrigado ao exílio ou à morte”. Rejeitada esta segunda opção, então o que resta é partilhar a terra através dos dois Estados - uma solução que a União Europeia tem vindo a defender desde os Acordos de Oslo, há 30 anos, “mas sem que tenhamos feito grande coisa para a tornar realidade”, lamentou..Agora, além de defender que a solução tem de ser “imposta do exterior”, o chefe da Diplomacia Europeia defende que se tem claramente de apontar para uma solução de dois Estados - algo que não estava preto no branco nos Acordos de Oslo, nos quais se deram passos na esperança de que essa fosse a direção. “Sabemos que há luz do outro lado do túnel, mas não sabemos onde está o túnel e temos de identificar onde ele está para poder ver a luz”, explicou..Borrell insistiu que Israel tem direito à defesa, mas se é preciso repetir que esse direito tem de ser exercido de acordo com o Direito Internacional e Humanitário, “é porque tal coisa não acontece”. E lamentou “o excessivo número de vítimas civis em Gaza”, temendo que Israel esteja a “semear as raízes do ódio” e que “todo o Médio Oriente se veja envolto em chamas”..O risco de uma “guerra aberta” na região, nomeadamente no Líbano, “não é menosprezável”, disse mais tarde Borrell na conferência de imprensa, explicando que “a morte de um dirigente do Hamas [num ataque com drones em Beirute] é um fator adicional que pode fazer com que o conflito escale”. O chefe da Diplomacia Europeia tem previsto viajar hoje para o Líbano, antes de seguir para a Jordânia e Arábia Saudita, mas ontem ainda não sabia se podia fazer essa deslocação devido a eventuais restrições no espaço aéreo libanês..No discurso diante do corpo diplomático português, Borrell colocou três perguntas em relação a ambas as guerras: Qual a capacidade da União Europeia de atuar corretivamente? Qual a nossa capacidade de influenciar os atores destes problemas? Como podemos construir uma narrativa que legitime a nossa visão do mundo?.Na resposta à primeira pergunta, lembrou que as decisões na União Europeia têm de ser tomadas por unanimidade. “Estivemos unidos na Ucrânia e estivemos, e estamos, divididos no conflito entre Israel e a Palestina”, referiu, falando em questões históricas relacionadas com o Holocausto e com o sentimento, por parte de alguns países europeus, de que a segurança de Israel faz parte do seu ADN..Quanto à segunda pergunta, a capacidade de influência é clara na Ucrânia, com todo o apoio que foi dado e na abertura de negociações de adesão, e mesmo no Médio Oriente a União Europeia não é um “ator insignificante” - é o primeiro parceiro económico de Israel e o primeiro doador de ajuda à Autoridade Palestiniana. Contudo, reconheceu, “dificilmente” os Estados-membros aceitarão sanções contra Israel - apesar de haver um projeto para sancionar os colonos israelitas que ocupam ilegalmente o território da Cisjordânia..Quanto à terceira pergunta, os dois conflitos colocam à Europa “dilemas políticos e morais consideráveis”, já que os argumentos que foram usados na Ucrânia - respeito da soberania, integridade territorial e a Carta das Nações Unidas - caem por terra diante das divisões face à guerra em Gaza. Contudo, Borrell deixou claro que “a Europa tem de investir todo o seu capital político em manter o apoio à Ucrânia”, acreditando que ,“sem nós, a Ucrânia não se pode defender e, se a Rússia conseguir o seu objetivo, a Europa estará em perigo”..O chefe da Diplomacia Europeia não quis deixar de dedicar também umas palavras à China, com quem a UE tem um desequilíbrio comercial de 400 mil milhões de dólares anuais - um valor que duplicou nos últimos dois anos. “Somos sócios, concorrentes e rivais”, resumiu, sobre a relação “complexa” entre UE e China. Defendeu que é preciso responder ao desafio de “protegermo-nos sem ser protecionistas” e que a Europa “tem de se abrir, mas não pode oferecer-se”, exigindo “garantias e contrapartidas” a Pequim..“Desordem internacional”.Antes da intervenção de Borrell, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, João Gomes Cravinho, fez também um balanço da atual situação, falando em “desordem internacional” e descrevendo 2023 como um “ano difícil”. O que agora começa, poderá não ser melhor: “Nenhuma ordem internacional dura para sempre, como bem sabemos, mas pode ser que a atual ordem ainda tenha alguns anos de vida pela frente. Ou pode ser que aquilo que nos espera em 2024 e nos próximos anos seja bem pior.”.Gomes Cravinho também falou da guerra na Ucrânia, destacando a “resiliência dos ucranianos” e alertando para que “uma vitória russa representaria um prego no caixão da ordem internacional”. Já em relação à guerra no Médio Oriente, que apelidou de uma “iteração disruptiva que nos acompanha há mais de sete décadas”, considerou que “representa uma das maiores falhas da ordem internacional vigente”, por ainda não haver uma solução para os palestinianos, “fonte de ressentimento profundo”. E lamenta que “nada, na abordagem israelita, sugere disponibilidade para a procura de paz”..susana.f.salvador@dn.pt